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Mensagens

Vamos para casa

Conheci a Maria quando éramos duas crianças e competíamos pelo primeiro lugar no quadro de honra da turma. Nunca perguntei à Maria porque queria ser a melhor aluna, limitava-me a vigiar as suas notas, a celebrar as minhas pequenas vitórias escolares e a enfurecer-me sempre que ela conseguia um resultado melhor que o meu. Passamos assim toda a escola primária, foram 4 anos de uma competição feroz.  Eu queria provar à professora que era a melhor, que não era rica, que o meu nome de família era comum, não tinha nenhum antepassado ilustre e, apesar disso, eu era a melhor. Com a Maria era tudo diferente, ela tinha, aos meus olhos de criança, tudo. O seu pai era o Juiz da comarca, um dos tios era médico, a mãe era professora no antigo liceu, os avôs maternos exibiam um titulo de nobreza.  Quando terminamos a escola primária a Maria entrou num colégio que ficava na cidade, eu continuei na vila, na escola pública. Raramente nos víamos, vivíamos na mesma localid...

Silêncio

Tinha decidido que a minha vida iria tomar outro rumo, embora não soubesse qual. Apetecia-me viajar, voltar aquela sensação de intimidade comigo mesma, de partir para longe sem grandes planos. Tinha planeado cuidar de mim, sair para comprar uma roupa nova, vaguear pelas montras do centro comercial, sem destino e sem desejo. Tinha aprendido que não valia a pena ir a lado nenhum se não me levasse comigo, se não te deixasse contigo, se a cama ficasse por fazer e as roupas espalhadas pelo quarto. Há muito que me apetecia mudar a pele que visto, cortar o cabelo, fazer uma tatuagem. Tudo em mim ansiava por liberdade e por distância. Não era uma fuga, não havia nada de que desejasse fugir, apenas afastar-me. Apetecia-me um novo entendimento daquele sentimento que não te desejava por perto, nem te queria ausente. Há em mim um espaço por preencher, preciso da solidão e do silêncio.

Uma chávena de chá

Eu precisava de falar. Precisava de alguém que me ouvisse e me consolasse. O meu Amigo disse-me: - "Vem, estou à tua espera." Meti-me no carro e fui. Era sábado, estava calor, na auto-estrada pouco tráfego, mas aqueles 80 km pareceram-me uma imensidão.  Cheguei a casa dele, atravessei o portão e entrei pelo jardim. Um homem idoso construía uma Mandala com pedras, umas pequenas, outras maiores, cada uma delas com a sua própria história, com os seus segredos. Da porta de casa, o meu Amigo, sorria-me. Acolheu-me com um abraço e levou-me para dentro. Senti o aroma do incenso e, ao mesmo tempo, uma estranha paz. Estava no local onde podia abrir o meu coração...  O meu Amigo levou-me até à sua pequena sala de meditação, acendeu incenso, colocou uma música suave e sentámo-nos, próximos um do outro. Ele sorriu e perguntou-me: - "Como estás?" Eu estava desfeita, recusava-me a aceitar, não compreendia o que tinha acontecido. Há duas semana eram os planos de fé...

Encontro...

"A vida é arte do encontro, embora haja tanto  desencontro pela vida." Vinícios de Moraes Encontramo-nos no facebook. Que bom! Há mais de 20 anos que pouco sabíamos um do outro. Um amigo comum lá trazia uma notícia vaga. Eu sabia que ele trabalhava numa grande empresa de consultoria, ele sabia que eu vivia em Lisboa. Mas, pouco mais. O nosso reencontro foi caloroso, falamos no chat por muito tempo. Ele ficou a saber mais de mim e eu fiquei a saber coisas novas sobre ele. Reatar esta amizade fez-me bem, gosto de sentir que tenho um passado povoado de emoções, de gente e de pequenos segredos.  - "Logo que vá a Lisboa telefono-te. Temos que nos encontrar, nem que seja só para um café". Disse-me ele.  - "Combinado! Fico à espera!". E pouco tive que esperar. Duas semanas depois o Francisco está em Lisboa, em trabalho e combinamos um jantar. A ideia de rever o meu querido Amigo dos tempos de faculdade, fez-me mais feliz nessa tarde.  ...

Os Dias Assim

"Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força da sua alma, todo o universo conspira a seu favor." Goethe  Há dias assim, em que nos importam os sonhos, os nossos e os dos outros, os apenas sonhados, os vividos e os nem por isso. São dias de fazer balanços, de limpar as gavetas da memória, de tirar o pó dos livros já lidos, de fazer uma nova lista de livros para ler, de guardar, para reler, aqueles de que sentimos falta. A vida não teria sentido sem estes "dias não-sonhos", dias de, apenas, contemplar os sonhos. E há uma estranha paz nesta tarefa, uma inexplicável ausência de revolta ou de raiva, mesmo perante os sonhos mal sonhados.  Apesar do meu espírito inquieto e da minha alma insatisfeita, tenho dias assim, dias de apenas olhar os dias. Não! Não são dias perdidos, são dias de alimentar a alma, de voar sem medo e de contemplar o que fui, mais do que aquilo que sou. São dias que se impõem sem avisar, que eu ...

Continuam os Festejos

Aniversário da Maria João Justino No passado dia 28 de Maio foi a vez da Maria João se juntar ao clube dos 50. A Maria João é uma amiga que chegou à minha vida pela mão do Miguel, o que faz dela uma pessoa muito especial para mim.  Acredito, com Unamuno, que "cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmo." E, por isso, celebro com o mesmo entusiasmo e alegria os velhos e os novos amigos, testemunhos vivos do quanto tenho a aprender com eles sobre mim própria.  Vale mesmo a pena passar 50 anos a construir relações, a estabelecer laços, a ser autêntica, a ser filha e a ser mãe, a ser menina e mulher, amante e amiga.  Parabéns, Amiga!!! 

Festas de Aniversário: 50 Anos

Querem saber o que fiz no passado fim-de-semana, 16 e 17 de Maio? Fui até ao Norte, a Espinho e a Matosinhos, para comemorar o aniversário da Angelita ( Na Cozinha da Té ) e de uma amiga de infância. E sabem que mais? As duas são mulheres maravilhosas acabadas de entrar nos 50. As festas foram lindas, animadas, com petiscos, bolo e champanhe. Devo ter engordado 2Kg!! Mas o melhor de tudo é saber que a amizade que, com cada uma delas, construímos em crianças, está viva e alegre e que estes 50 anos valeram a pena.

Casamento e Sorrisos

Monte dos Sorrisos, 2 de maio 2015 A minha amiga Adelaide foi a noiva mais bonita, feliz, amorosa e radiante que eu já conheci. O Pedro também é um belo rapaz, mas não ficou na foto. Um casamento muito especial. Os noivos foram os anfitriões perfeitos e cada um dos convidados se sentiu como se a festa tivesse sido feita para si. O Monte dos Sorrisos é um espelho dos talentos raros da Adelaide, da sua dedicação e atenção aos pequenos nadas, que fazem toda a diferença. Não há dúvida de que este foi o casamento com o qual a Adelaide e o Pedro sonharam. E, aos 50 anos, já todos sabemos muito bem quais são os sonhos que valem a pena. Estou convencida, casamento a sério é mesmo depois dos 50. O local é lindo e as fotos do António Rebordão estão aqui para o provar. Também fiquei a saber que o Monte dos Sorrisos   está disponível para acolher festas especiais!!!

Festa da Ascensão ou Festa do Queijo

Em Godim, Peso da Régua, comemora-se a Acensão com uma feira, que começou por ser no adro da igreja e que, com tempo, passou a ocupar toda a rua. A especialidade mais vendida é o queijo, vêm fabricantes e comerciantes de várias zonas do país, é a nossa  Festa do Queijo. Na minha terra hoje é dia de comer queijo e biscoito da teixeira e, lá mais para a noite, ver o rancho e dar um pezinho de dança ao som dos artistas populares. Aqui por Lisboa é dia da espiga, vende-se o ramo: Espiga - pão; Malmequer - ouro e prata; Papoila - amor e vida; Oliveira - azeite, paz e luz; Videira - vinho e alegria; Alecrim - saúde e força. O ramo da espiga vai ficar pendurado atrás da porta, a proteger quem mora nesta casa e os que nos visitam. Gosto mesmo deste Portugal das tradições!!!!

Da Angelita para a Tia

Angelita e Eu em Matosinhos 15.05.1983 Este blog é um espaço aberto aos meus amigos e a todos os que, de algum modo, tocaram a minha vida. A Angelita é minha prima, minha Amiga e a minha vida é tocada por ela desde a infância. Em todos os momentos importantes, alegres e tristes, meus e dela, estivemos juntas. Ninguém melhor para começar partilha dos #50 anos do que a Angelita. É dela o seguinte texto: Almoço de família na Régua 1980 Mãe, esta palavra só pertence aos filhos, só eles têm o direito de dizer "Mãe", mas eu não posso deixar passar este "dia da mãe" sem prestar uma singela homenagem a uma tia que, durante um ano, de tudo fez para que eu não sentisse tanto a falta da minha mãe, que estava longe, com o filho mais novo e outro na barriga.  Os meus irmãos mais velhos estavam longe, um com a madrinha e outro com a nossa avó. Podem imaginar como é difícil esta situação para uma criança? Ficam marcas, memórias más... Mas eu tenho, desse tem...

3º Aniversário do "Duetos da Sé"

No passado dia 26 de Abril o "Duetos da Sé" comemorou o 3º aniversário e eu, lá estive! É sempre bom partilhar o sucesso e a alegria dos amigos. O "Duetos da Sé" é um restaurante/bar com música ao vivo, de que gosto muito. Neste espaço, propriedade dos irmãos Eduardo Lala e Carlos Lala, casam-se duas artes: a música e a gastronomia. A música a cargo do Eduardo e a cozinha sob a batuta do Carlos. Há três anos, no dia da inauguração, percebemos imediatamente que estava a nascer um espaço diferente, na noite lisboeta. A simplicidade e o bom gosto, tanto na comida como na selecção dos músicos que, diariamente, se apresentam no palco do Duetos, fazem deste, um lugar de excepção. Foi, pois, com grande prazer que aceitei o convite dos irmãos Lala. No dia de aniversário a festa foi grande. Boa Música, Boa Comida e Bebida e Bons Amigos!!!  Uma noite de domingo muito bem passada... Para os meus amigos dos #50anos este é um local que recomendo. Há sempre música a...

Parabéns, Vovô!

Régua, 1965 Este blog dos #50anos mais parece uma "caixinha de recordações", mas no dia de hoje não posso deixar de recordar o meu avô paterno, o Homem em quem mais confiei e, durante muitos anos, o meu porto seguro. Pois é, este Senhor simpático, ao meu lado, faria, hoje, 100 anos. O meu Avô, tal como eu, também, gostava muito de celebrar o seu aniversário e ter nascido no dia 1º de Maio, Dia do Trabalhador, significava muito para ele. A festa fazia-se no pátio, almoço com família e, pela tarde, começavam a aparecer os amigos. O meu Avô tocava guitarra portuguesa, havia sempre um viola e não faltavam fadistas. Vejam as fotos, as duas tiradas no mesmo local, com uma diferença de 18 anos!!! 1º de Maio de 1983

Eu e o meu Pai

Junho de 1965, Eu e o meu Pai Foi há 21 anos que o meu Pai nos deixou. Foi num dia de sol e de lágrimas. Hoje, recordo o meu pai com as minhas memórias de menina, a menina que ele pegava ao colo ...

#25 Abril, É Hoje...

Hoje é dia 25 de Abril e, para mim, é um dia alegre. É um dia alegre desde a minha infância. Tinha 9 anos quando se deu a Revolução e são desse tempo as melhores recordações que guardo dos meus pais. De repente tornaram-se pessoas alegres, passamos a frequentar a casa dos amigos e os amigos vinham a nossa casa. Cada um trazia algo para partilhar: pão, presunto, bola, pataniscas de bacalhau, aquele arroz de feijão e tomate e as frutas da época. Por essa altura, a minha mãe especializou-se em arroz à valenciana. Só mais tarde percebi porquê. Era um prato bom e barato, relativamente fácil de fazer e que, por isso, era a solução ideal quando se juntavam muitos convivas. Enquanto crescia, os 25 de Abril, em minha casa, eram comemorados com cravos, reunião de família e cozido à portuguesa. Pela manhã, Sessão Solene na Câmara Municipal e, pela tarde, brincadeiras na rua, amigos e felicidade. Uma das vantagens dos 50 anos é ter memórias e partilhar memórias! Hoje estou feliz e c...

À Espera de Godot

Já tinha saudades do Teatro da Trindade  e quando se têm saudades, sabe bem, matar as saudades. Fui, então, matar saudades do teatro mais bonito de Lisboa e assistir à peça " À Espera de Godot ".  Depois de um dia intenso, de viagens e trabalho, foi bom sentar-me na plateia do teatro, no exacto momento em que as luzes de sala se apagam devagarinho e todas as atenções se dirigem para o palco. Afundo-me na cadeira, toda a minha atenção está ali, naquela espaço onde a vida se revela e a magia acontece. Vou viver a vida daqueles personagens, ou serão eles que estão a viver a minha vida? a viver tantas e tantas vidas diferentes?  Gostei da encenação, dos actores, da luz, da cenografia.  A complexidade e intensidade do texto ganha ternura nas interpretações, ora serenas, ora intensas.  No cenário, os candeeiros eram arvores de luz, a noite e o dia sucediam-se, à espera de Godot... No final houve tertúlia, a sala iluminou-se, actores e encenador ocupar...

O Blog dos #50

Agora que cheguei aos 50 anos passou-me pela cabeça a ideia de escrever um blog dedicado aos 50. Partilhei esta ideia no facebook e recebi muitos comentários de apoio e incentivo, mas, mais do que isso, muitos amigos, também já nos 50, manifestaram a sua vontade de partilhar comigo esta aventura. Depois de pensar melhor, desisti da ideia de fazer um novo blog, afinal este "Nada Temer" já tem seguidores, é só lavar a cara, pôr uma roupa nova e tornar-se um pouco mais dinâmico. "Nada Temer" é um bom tema, um bom nome, para quem já entrou nos 50. Afinal, "na vida, não existe nada a temer, mas a entender" (Marie Curie). Agora o desafio aos meus amigos: vamos lá a opinar, divagar e colaborar aqui no blog. Pela minha parte, vou tentar ser assídua e inspirada nos posts!!!!

Alimentaçâo, Património Cultural Imaterial

"Os melhores petiscos são aqueles que não podem ser comprados - por muito dinheiro ou amor que se tenha - mas somente adquiridos por ter nascido e vivido num determinado lugar; por ser filho, sobrinho ou compadre de determinadas pessoas" Miguel Esteves Cardoso Não há nada de mais gratificante do que descobrir que fomos importantes para alguém, que num determinado momento, um gesto, uma palavra, um sorriso ou uma escuta mais atenta fizeram a diferença. Disse-me o Antero que, um dia, uma conversa que tivemos foi, para ele, o ponto de partida para a escolha do tema da sua tese de mestrado e, depois, para a publicação do seu livro "Alimentação, património cultural imaterial". Confesso que não recordo o teor dessa nossa conversa, mas se graças a ela se acendeu uma centelha de inspiração, se veio perene de significado e sentido então foi, com certeza, uma boa conversa. É este o ponto de partida para a tarefa que me espera; vou apresentar este liv...

O Livro

"O Livro é um animal vivo." Aristoteles Em Outubro de 2006 publiquei uma monografia sobre direito das fundações. Com este trabalho pretendi, essencialmente, abordar de um modo prático as principais questões jurídicas que se colocavam em matéria de instituição, reconhecimento, organização e funcionamento das fundações ao abrigo da legislação portuguesa.  Desde então, muitas coisas se alteraram em matéria de legislação de fundações - realizou-se o censo das fundações, foi publicada a Lei-quadro das Fundações e instituído o Conselho Consultivo das Fundações. Estas alterações na legislação há muito que justificavam uma 2ª edição, revista e actualizada, deste meu livro, o que só não aconteceu porque outros compromissos se impuseram como mais urgentes. Mas esse projecto continua bem vivo nas minhas intenções e sei que, em breve, o concretizarei. Vem esta reflexão a propósito de uma mensagem, de email, que recebi hoje de um investigador e autor brasile...

Poema de Todos os Dias

Lígia Reyes ( Para a minha Mãe) Quero escrever para te celebrar. Porque um poema não morre e Só a tua primavera me compõe De todos os invernos, mãe. Chega atrasado, mas o que há-de chegar a horas Quando a casa onde chego é tua E um singelo poema pelo dia da mãe Não chega para alimentar duas bocas, Trocar fraldas, cuidar. Muitas vezes chorando no silêncio Porque se está só e as miúdas Teimam em não crescer, fazem asneiras Ficam doentes. E quando crescem, fazem asneiras, Ficam doentes - Fazem poemas, Lêem os livros da tua juventude, Furam a carne por diversão, Aparecem rapazes lá em casa, Viajam pela noite, pelo dia, Muitas vezes para longe. Estudam coisas que entendes bem demais, Vão para os lugares onde já estiveste - É aí que o coração aperta mais. Deixou de funcionar a famosa palmada - Agora só a vida é mãe, muitas vezes, Madrasta, e lá chega um "bem te avisei", Uma conversa, um abraço no final. Mãe, a poesia é forte como tu - Sofre d...