Avançar para o conteúdo principal

Alimentaçâo, Património Cultural Imaterial






"Os melhores petiscos são aqueles que não podem ser comprados - por muito dinheiro ou amor que se tenha - mas somente adquiridos por ter nascido e vivido num determinado lugar; por ser filho, sobrinho ou compadre de determinadas pessoas"

Miguel Esteves Cardoso

Não há nada de mais gratificante do que descobrir que fomos importantes para alguém, que num determinado momento, um gesto, uma palavra, um sorriso ou uma escuta mais atenta fizeram a diferença. Disse-me o Antero que, um dia, uma conversa que tivemos foi, para ele, o ponto de partida para a escolha do tema da sua tese de mestrado e, depois, para a publicação do seu livro "Alimentação, património cultural imaterial". Confesso que não recordo o teor dessa nossa conversa, mas se graças a ela se acendeu uma centelha de inspiração, se veio perene de significado e sentido então foi, com certeza, uma boa conversa.

É este o ponto de partida para a tarefa que me espera; vou apresentar este livro e, sinceramente, não sei por onde começar. O facto de o autor ser meu primo e de, na nossa família, os primos serem irmãos que tratam os nossos pais como tios, dificulta, em muito, esta tarefa; assumo a minha parcialidade e o meu enorme orgulho no seu trabalho. Eu sei que escrever uma tese de mestrado não é fácil e publicar um livro é verdadeiramente uma aventura. Aqui se resumem muitas horas de trabalho, investigação, análise, escrita. Neste livro está uma parte importante da vida do seu autor, mas, também, um testemunho daquilo que, nas nossas mesas, reflecte a nossa cultura, o nosso modo de estar na vida enquanto povo.

Falar de comida (ou de alimentação) é importante por inúmeras razões, que vão desde a  saúde à ética, da economia ao desenvolvimento e, sem dúvida como traço de cultura.  Neste livro, vamos pelos caminhos da cultura e percebemos como, alimentos comuns - a castanha, o porco e o pescado - se nos revelam perenes de significado, como repositórios de práticas e de memórias que se afirmam como um importante património cultural que urge preservar e divulgar. A partir da leitura deste livro é possível, de tempos a tempos, mergulhar nas memórias de infância, nas tradições familiares, nas receitas herdadas e até nas manifestações mais contemporâneas inspiradas nestes alimentos. 

Não resisto a partilhar aqui, com imagens, algumas dessas memórias.

O Homem das Castanhas





Sardinha de Lisboa

Mesa de Enchidos




Comentários

Mensagens populares deste blogue

Magia

Gosto de mistérios, de pequenos pedaços de vida que não se explicam, que se escondem ou secretamente se revelam. Gosto dos segredos que se resguardam de olhares alheios e se partilham, em segredo. Aprendi com o tempo a acender a centelha do mistério enviando mensagens secretas, por isso gosto tanto de quem partilha segredos. Gosto de gestos mágicos, de trocas de olhares, de sorrisos que não dizem o que sentem e se desmancham em risos espontâneos. Foi um gesto mágico que me tocou e me prendeu, quando eu menos esperava, quando eu menos queria.  Guardo os meus mistérios nas estórias que conto, nas minhas pessoas inventadas, mas não tenho palavras para quebrar esta Magia.

Longe do Mar (6) Eu

Precisava do fim-de-semana. Precisava de dormir sem horas, de me enredar nos meus próprios pensamentos, de dar coerência às minhas emoções e de descansar. Queria ficar comigo por algum tempo, cuidar de mim para mim mesma. Queria ler, queria escrever. A escrita sempre foi a minha melhor maneira de organizar as emoções, de colocar em palavras os indizíveis sentimentos que tantas vezes me assolam. Manter um diário, um registo de desejos e de medos é um habito que guardo da infância e tenho tantas saudades dessa infância das palavras, em que não havia medo. Agora tenho medo das palavras que escrevo. São profecias. Foi com essas palavras que moldei a minha vida, que amassei os meus desejos, que reconstruí as minhas perdas e que tracei o meu rumo. Quase tudo o que sou e o que tenho são essas palavras. Quando arranquei ao esquecimento os meus diários comecei a   ter medo de escrever, de estar a criar um mundo demasiado fantasmagórico, habitado de seres frágeis, perigosamente solitári...

2 Livros e 3 Mães

Quando percebi que a minha memória era demasiado fraca para guardar tudo aquilo que não queria esquecer, comecei a escrever diários. Não sei quando isso terá começado, mas foi cedo.  Quando fui para a Universidade a minha Mãe guardou todos os meus cadernos de notas pessoais, os famosos diários, numa caixa de cartão e arrumou-a num armário. Mais tarde, quando os meus pais mudaram de casa, a caixa de cartão mudou-se para o amplo móvel do corredor, na casa nova. Há muitos anos que me separei dessa caixa e dessa parte tão preciosa da minha memória. Dos tempos de Coimbra também já não restam quaisquer cadernos de memórias e nos anos que se seguiram abdiquei da escrita. As crianças para cuidar, o trabalho sempre muito e a ausência de intimidade comigo mesma, afastaram-me da escrita. Recuperei esse hábito há 20 anos, quando definitivamente me instalei em Lisboa e numa vida escolhida por mim.   Com o hábito de escrever diários, voltei, também, ao hábito de tirar notas sobre...