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Poema de Todos os Dias


Lígia Reyes
(Para a minha Mãe)

Quero escrever para te celebrar.
Porque um poema não morre e
Só a tua primavera me compõe
De todos os invernos, mãe.
Chega atrasado, mas o que há-de chegar a horas
Quando a casa onde chego é tua
E um singelo poema pelo dia da mãe
Não chega para alimentar duas bocas,
Trocar fraldas, cuidar.
Muitas vezes chorando no silêncio
Porque se está só e as miúdas
Teimam em não crescer, fazem asneiras
Ficam doentes.

E quando crescem, fazem asneiras,
Ficam doentes - Fazem poemas,
Lêem os livros da tua juventude,
Furam a carne por diversão,
Aparecem rapazes lá em casa,
Viajam pela noite, pelo dia,
Muitas vezes para longe.
Estudam coisas que entendes bem demais,
Vão para os lugares onde já estiveste -
É aí que o coração aperta mais.
Deixou de funcionar a famosa palmada -
Agora só a vida é mãe, muitas vezes,
Madrasta, e lá chega um "bem te avisei",
Uma conversa,
um abraço no final.

Mãe, a poesia é forte como tu -
Sofre de dúvidas, instintos,
Gritos de manifestação.
Parece que as palavras
batem em fundo raso,
Mas a verdade
É que o mundo te lê em segredo - como um poema:
E o teu poema é de intervenção
Para todos os dias
Em todas as lutas.

Como só tu dirias: "com as minhas companheiras de luta".


Lígia Reyes

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