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Mensagens

A mostrar mensagens de 2016

O Amor

O que me importa mesmo é saber o que desperta o Amor em mim. Qual é gesto, o olhar, o sopro breve, a lua, o alinhamento astral ou, simplesmente, o bater de asas de uma borboleta que, sem aviso, me coloca perante a maravilha desse enlevo único, dessa ligação subtil a um ser que, a partir desse momento, é o meu Amor. Consigo, nesta minha vida que já tem tempo suficiente para que se conte, identificar momentos únicos, em que brotou em mim essa emoção: o Amor. Não foi cedo, nem sequer foi suave a minha descoberta do Amor. Tive a sorte de nascer e crescer num ambiente de Amor, numa família onde o Amor é tão natural como o ar que se respira ou a água de corre das torneiras, que não tive qualquer consciência da sua existência e da falta que me poderia fazer, até ao dia em que perdi a minha Mãe. Soube o que era o Amor, quando perdi o seu Amor e o meu Amor por ela ficou perdido e veio aninhar-se no meu peito em forma de dor. Depois, o Amor-dor transformou-se em Amor-saudade e, com tempo, vo...

Desencontro

Ele estava ali, na minha frente, sentado, com os olhos postos na ementa. Ofereceu-me um copo de vinho, mas eu queria água. Ele olhou-me e sorriu. Eu vi que ele me olhava e não sorri. Ele fazia perguntas sobre a ementa e eu queria, apenas, uma salada. Ele escolheu e eu pedi sem escolher. Ele disse-me que eu estava bonita. Eu disse-lhe que sempre tinha sido bonita. Ele sorriu... eu sorri... Tinha passado muito tempo. Quantos anos? oito ou nove? não interessa, foram muitos... Ele colocou uma preocupação no rosto e agradeceu por eu estar ali, com ele, ao fim de tanto tempo. Ele queria conversar, eu não sabia o que dizer... Ele pediu-me para ficar e eu parti...

Vamos para casa

Conheci a Maria quando éramos duas crianças e competíamos pelo primeiro lugar no quadro de honra da turma. Nunca perguntei à Maria porque queria ser a melhor aluna, limitava-me a vigiar as suas notas, a celebrar as minhas pequenas vitórias escolares e a enfurecer-me sempre que ela conseguia um resultado melhor que o meu. Passamos assim toda a escola primária, foram 4 anos de uma competição feroz.  Eu queria provar à professora que era a melhor, que não era rica, que o meu nome de família era comum, não tinha nenhum antepassado ilustre e, apesar disso, eu era a melhor. Com a Maria era tudo diferente, ela tinha, aos meus olhos de criança, tudo. O seu pai era o Juiz da comarca, um dos tios era médico, a mãe era professora no antigo liceu, os avôs maternos exibiam um titulo de nobreza.  Quando terminamos a escola primária a Maria entrou num colégio que ficava na cidade, eu continuei na vila, na escola pública. Raramente nos víamos, vivíamos na mesma localid...

Silêncio

Tinha decidido que a minha vida iria tomar outro rumo, embora não soubesse qual. Apetecia-me viajar, voltar aquela sensação de intimidade comigo mesma, de partir para longe sem grandes planos. Tinha planeado cuidar de mim, sair para comprar uma roupa nova, vaguear pelas montras do centro comercial, sem destino e sem desejo. Tinha aprendido que não valia a pena ir a lado nenhum se não me levasse comigo, se não te deixasse contigo, se a cama ficasse por fazer e as roupas espalhadas pelo quarto. Há muito que me apetecia mudar a pele que visto, cortar o cabelo, fazer uma tatuagem. Tudo em mim ansiava por liberdade e por distância. Não era uma fuga, não havia nada de que desejasse fugir, apenas afastar-me. Apetecia-me um novo entendimento daquele sentimento que não te desejava por perto, nem te queria ausente. Há em mim um espaço por preencher, preciso da solidão e do silêncio.