Um dia chegou aqui um homem, as suas roupas esfarrapadas guardavam ainda a memória de um soldado, vinha esfomeado, no rosto tinha estampado o medo e a vergonha e, nos olhos castanhos, o remorso. Quem o perseguia há muito que tinha desistido, acreditando que ele estaria morto. Escapara à fúria de Pedro mas sabia que não escaparia à fúria dos seus próprios sentimentos. Um homem não pode matar cobardemente uma mulher. Os gritos de desespero de Inês soariam para sempre na sua cabeça. Nesta aldeia aninhada no fundo de uma montanha ninguém o conhecia, a sua história e a sua culpa seriam a sua única companhia. Hoje chegamos nós, descemos pela estrada da montanha, ingreme, com curvas perigosas, mas com bom piso e bem sinalizada. De Inverno, o gelo e neve cobrem estas paragens, são necessárias cautelas acrescidas na estrada, mas estamos no final da primavera, está um dia lindo e o sol começa a pôr-se, num jogo de luz e sombra, de montes escuros e claros. Capto na memória, por instan...
"Temer o amor é temer a vida, e quem teme a vida já está três quartos morto." Bertrand Russell