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Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Mulheres

2 Livros e 3 Mães

Quando percebi que a minha memória era demasiado fraca para guardar tudo aquilo que não queria esquecer, comecei a escrever diários. Não sei quando isso terá começado, mas foi cedo.  Quando fui para a Universidade a minha Mãe guardou todos os meus cadernos de notas pessoais, os famosos diários, numa caixa de cartão e arrumou-a num armário. Mais tarde, quando os meus pais mudaram de casa, a caixa de cartão mudou-se para o amplo móvel do corredor, na casa nova. Há muitos anos que me separei dessa caixa e dessa parte tão preciosa da minha memória. Dos tempos de Coimbra também já não restam quaisquer cadernos de memórias e nos anos que se seguiram abdiquei da escrita. As crianças para cuidar, o trabalho sempre muito e a ausência de intimidade comigo mesma, afastaram-me da escrita. Recuperei esse hábito há 20 anos, quando definitivamente me instalei em Lisboa e numa vida escolhida por mim.   Com o hábito de escrever diários, voltei, também, ao hábito de tirar notas sobre...

Longe do Mar (3) Luisa

A Luisa estava a chegar. Eu esperava na plataforma pelo comboio que trazia a Luísa.  Os últimos dias tinham sido estranhos, quase por magia recuperei o contacto com muitos dos meus colegas e amigos de Coimbra, gente de quem não sabia praticamente nada há mais de 20 anos. Ao contrário da Luísa, que sempre manteve o contacto com os colegas de faculdade, o meu percurso tinha sido bem diferente e, quando terminei o curso, iniciei uma nova vida longe daquela que tinha tido na faculdade. O casamento, a mudança para uma cidade de interior, fria e austera, a maternidade, a minha necessidade de afirmação profissional e, depois, o divórcio, foram tomando todo o meu tempo interior deixando um quase nada de espaço onde apenas coube o que ainda restava de mim. Agora, quase sem eu querer, tudo estava a voltar e, por muito estranho que me parecesse, tudo voltava exatamente a partir do ponto em que eu me tinha afastado. Atribui estes mistérios a um milagre chamado facebook . A ...

Desencontro

Ele estava ali, na minha frente, sentado, com os olhos postos na ementa. Ofereceu-me um copo de vinho, mas eu queria água. Ele olhou-me e sorriu. Eu vi que ele me olhava e não sorri. Ele fazia perguntas sobre a ementa e eu queria, apenas, uma salada. Ele escolheu e eu pedi sem escolher. Ele disse-me que eu estava bonita. Eu disse-lhe que sempre tinha sido bonita. Ele sorriu... eu sorri... Tinha passado muito tempo. Quantos anos? oito ou nove? não interessa, foram muitos... Ele colocou uma preocupação no rosto e agradeceu por eu estar ali, com ele, ao fim de tanto tempo. Ele queria conversar, eu não sabia o que dizer... Ele pediu-me para ficar e eu parti...

Continuam os Festejos

Aniversário da Maria João Justino No passado dia 28 de Maio foi a vez da Maria João se juntar ao clube dos 50. A Maria João é uma amiga que chegou à minha vida pela mão do Miguel, o que faz dela uma pessoa muito especial para mim.  Acredito, com Unamuno, que "cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmo." E, por isso, celebro com o mesmo entusiasmo e alegria os velhos e os novos amigos, testemunhos vivos do quanto tenho a aprender com eles sobre mim própria.  Vale mesmo a pena passar 50 anos a construir relações, a estabelecer laços, a ser autêntica, a ser filha e a ser mãe, a ser menina e mulher, amante e amiga.  Parabéns, Amiga!!! 

Festas de Aniversário: 50 Anos

Querem saber o que fiz no passado fim-de-semana, 16 e 17 de Maio? Fui até ao Norte, a Espinho e a Matosinhos, para comemorar o aniversário da Angelita ( Na Cozinha da Té ) e de uma amiga de infância. E sabem que mais? As duas são mulheres maravilhosas acabadas de entrar nos 50. As festas foram lindas, animadas, com petiscos, bolo e champanhe. Devo ter engordado 2Kg!! Mas o melhor de tudo é saber que a amizade que, com cada uma delas, construímos em crianças, está viva e alegre e que estes 50 anos valeram a pena.

Da Angelita para a Tia

Angelita e Eu em Matosinhos 15.05.1983 Este blog é um espaço aberto aos meus amigos e a todos os que, de algum modo, tocaram a minha vida. A Angelita é minha prima, minha Amiga e a minha vida é tocada por ela desde a infância. Em todos os momentos importantes, alegres e tristes, meus e dela, estivemos juntas. Ninguém melhor para começar partilha dos #50 anos do que a Angelita. É dela o seguinte texto: Almoço de família na Régua 1980 Mãe, esta palavra só pertence aos filhos, só eles têm o direito de dizer "Mãe", mas eu não posso deixar passar este "dia da mãe" sem prestar uma singela homenagem a uma tia que, durante um ano, de tudo fez para que eu não sentisse tanto a falta da minha mãe, que estava longe, com o filho mais novo e outro na barriga.  Os meus irmãos mais velhos estavam longe, um com a madrinha e outro com a nossa avó. Podem imaginar como é difícil esta situação para uma criança? Ficam marcas, memórias más... Mas eu tenho, desse tem...

Poema de Todos os Dias

Lígia Reyes ( Para a minha Mãe) Quero escrever para te celebrar. Porque um poema não morre e Só a tua primavera me compõe De todos os invernos, mãe. Chega atrasado, mas o que há-de chegar a horas Quando a casa onde chego é tua E um singelo poema pelo dia da mãe Não chega para alimentar duas bocas, Trocar fraldas, cuidar. Muitas vezes chorando no silêncio Porque se está só e as miúdas Teimam em não crescer, fazem asneiras Ficam doentes. E quando crescem, fazem asneiras, Ficam doentes - Fazem poemas, Lêem os livros da tua juventude, Furam a carne por diversão, Aparecem rapazes lá em casa, Viajam pela noite, pelo dia, Muitas vezes para longe. Estudam coisas que entendes bem demais, Vão para os lugares onde já estiveste - É aí que o coração aperta mais. Deixou de funcionar a famosa palmada - Agora só a vida é mãe, muitas vezes, Madrasta, e lá chega um "bem te avisei", Uma conversa, um abraço no final. Mãe, a poesia é forte como tu - Sofre d...

RITA

Era sexta-feira, a primeira sexta-feira de Setembro, um vento quente e seco deixava em desalinho o cabelo que ia afastando da frente da cara enquanto pensava se não seria melhor esperar pela Rita dentro do bar. Mas fui ficando, com uma mão segurava o cabelo, com a outra segurava as páginas do livro que há vários dias me acompanhava. Parecia não ter fim ... ou era eu que não lhe dedicava a atenção suficiente para lhe ver o fim. Finalmente a Rita chegou. Sorridente, de passo apressado, maquilhagem quase apagada, a sua enorme carteira e os sapatos de meio salto. Nem sei há quanto tempo conheço a Rita, lembro-me da Rita na faculdade, mas antes disso já nos havíamos encontrado numa festa, em casa de uma prima (minha ou dela). Nunca fomos amigas intimas mas o tempo e as circunstâncias, que ora nos aproximavam, ora nos afastavam, teceram entre nós uma relação confortável, afectuosa, de mútua admiração e compreensão.  - Estou atrasada. Desculpa-me. - Não faz mal, estava a...

FIM-DE-SEMANA

Olá! Disse-me Maria sem tirar os olhos do computador. Olá! Respondi mecanicamente. Quando me sentei na secretaria em frente, reparei que Maria tinha o olhar de uma criança assustada, que o seu corpo era frágil e que o seu sorriso escondia uma profunda tristeza. De onde vinha aquela tristeza de Maria? Provavelmente de lugar nenhum, seria apenas a minha imaginação em busca de histórias tristes e complexas nos rostos de pessoas simples. Maria interrompe os meus pensamentos com uma pergunta trivial: - Como foi o fim-de-semana? Normal, como todos os outros, fiquei em casa a arrumar o quarto dos miúdos, a passar a ferro, a cozinhar para toda a semana.... ainda tive tempo para pintar o cabelo e arranjar as unhas – respondo de rajada. Não lhe pergunto nada, mas Maria diz-me: - Passei o sábado no hospital com o Raul, a mudança de tempo é terrível para os asmáticos, o Raul teve falta de ar e passamos uma boa parte da tarde de sábado na urgência do hospital, nos aerossóis. Finjo interes...