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Vamos para casa

Conheci a Maria quando éramos duas crianças e competíamos pelo primeiro lugar no quadro de honra da turma. Nunca perguntei à Maria porque queria ser a melhor aluna, limitava-me a vigiar as suas notas, a celebrar as minhas pequenas vitórias escolares e a enfurecer-me sempre que ela conseguia um resultado melhor que o meu. Passamos assim toda a escola primária, foram 4 anos de uma competição feroz.  Eu queria provar à professora que era a melhor, que não era rica, que o meu nome de família era comum, não tinha nenhum antepassado ilustre e, apesar disso, eu era a melhor. Com a Maria era tudo diferente, ela tinha, aos meus olhos de criança, tudo. O seu pai era o Juiz da comarca, um dos tios era médico, a mãe era professora no antigo liceu, os avôs maternos exibiam um titulo de nobreza.  Quando terminamos a escola primária a Maria entrou num colégio que ficava na cidade, eu continuei na vila, na escola pública. Raramente nos víamos, vivíamos na mesma localid...

#25 Abril, É Hoje...

Hoje é dia 25 de Abril e, para mim, é um dia alegre. É um dia alegre desde a minha infância. Tinha 9 anos quando se deu a Revolução e são desse tempo as melhores recordações que guardo dos meus pais. De repente tornaram-se pessoas alegres, passamos a frequentar a casa dos amigos e os amigos vinham a nossa casa. Cada um trazia algo para partilhar: pão, presunto, bola, pataniscas de bacalhau, aquele arroz de feijão e tomate e as frutas da época. Por essa altura, a minha mãe especializou-se em arroz à valenciana. Só mais tarde percebi porquê. Era um prato bom e barato, relativamente fácil de fazer e que, por isso, era a solução ideal quando se juntavam muitos convivas. Enquanto crescia, os 25 de Abril, em minha casa, eram comemorados com cravos, reunião de família e cozido à portuguesa. Pela manhã, Sessão Solene na Câmara Municipal e, pela tarde, brincadeiras na rua, amigos e felicidade. Uma das vantagens dos 50 anos é ter memórias e partilhar memórias! Hoje estou feliz e c...

Eu e Deus

"Haja ou não Deuses, deles somos servos." Fernando Pessoa Nas situações dramáticas, em que tudo parece perdido, em que o desespero parece ser a única resposta possível há uma força que se abriga dentro de nós, há um jardim onde nos podemos refugiar e que realmente é um local de paz e de tranquilidade. Ser capaz de encontrar esse jardim é o grande desafio e é realmente a grande busca da vida. Não fui ensinada a encontrar esse lugar em mim e talvez por isso tenha sido tão difícil crescer. Todos os consolos que conhecia eram exteriores, estavam fora de mim e aceder a eles era algo que, na maioria das vezes não dependia de mim. Mesmo quando rezava e invocava Deus era sempre a invocação de um estranho, que, de algum modo, haveria de aparecer de qualquer lado para me salvar. É certo que, de uma forma ou de outra, acabei sempre por encontrar essa salvação, mas não a procurava onde realmente deveria procura-la, num Deus que habitasse em mim, que me fosse ...