"A vida é arte do encontro, embora haja tanto
desencontro pela vida."
Vinícios de Moraes
Encontramo-nos no facebook. Que bom! Há mais de 20 anos que pouco sabíamos um do outro. Um amigo comum lá trazia uma notícia vaga. Eu sabia que ele trabalhava numa grande empresa de consultoria, ele sabia que eu vivia em Lisboa. Mas, pouco mais. O nosso reencontro foi caloroso, falamos no chat por muito tempo. Ele ficou a saber mais de mim e eu fiquei a saber coisas novas sobre ele. Reatar esta amizade fez-me bem, gosto de sentir que tenho um passado povoado de emoções, de gente e de pequenos segredos.
- "Logo que vá a Lisboa telefono-te. Temos que nos encontrar, nem que seja só para um café". Disse-me ele.
- "Combinado! Fico à espera!". E pouco tive que esperar. Duas semanas depois o Francisco está em Lisboa, em trabalho e combinamos um jantar. A ideia de rever o meu querido Amigo dos tempos de faculdade, fez-me mais feliz nessa tarde.
Corri para casa ao final do dia, tomei um banho, estiquei o cabelo e abri e fechei o armário da roupa mais de dez vezes. Assaltou-me a eterna dúvida feminina: "Que vou vestir?" Ri-me de mim mesma, afinal não estava a arranjar-me para nenhum encontro amoroso, mas para um jantar fraterno com um amigo de juventude. Voltei a olhar o armário e todas as minhas dúvidas se dissiparam, pensei: "calças de ganga, uma camisola de gola alta, botas. De adereços apenas uns pequenos brincos em ouro e o anel, que nunca largo." Olhei-me ao espelho e gostei do que vi, poderia ser ilusão minha, mas, do espelho, olhava-me a rapariga de vinte e poucos anos, que tinha um amigo chamado Francisco, com quem ía jantar.
Encontramo-nos no restaurante, sem reserva tivemos que esperar por mesa no bar. Sentamo-nos lado a lado no mesmo sofá. O Francisco pegou na minha mão direita, colocou-a sobre sobre a sua mão esquerda, palma com palma. Com a outra mão acariciava levemente a minha mão pousada na dele. Por instantes fechei os olhos, sentia apenas a minha mão nas mãos dele e assaltava-me a memória de um tempo em que eu teria dado tudo por aquela carícia. Abri os olhos, olhei para ele e sorri, é um homem bonito, a farta cabeleira era agora branca, o seu sorriso era largo e expressivo. Sorriamos, apenas, um para o outro.
- "Sabes...há muito tempo que desejava pegar, assim, na tua mão..."
- "Porque não pegaste?"
- "Tive medo... tu eras a mais misteriosa de todas as raparigas que conhecia... não podia prever como seria... tive medo de te perder..."
Os nossos sorrisos voltaram a encontrar-se. Eu podia ser a rapariga misteriosa, mas, agora, ele era um Homem e a vida tinha-o ensinado a vencer o medo dos mistérios. Deixei a minha mão entre as mãos dele e toquei o seu rosto com os lábios, um beijo-carícia. Não conseguia perceber de onde vinha aquela ternura, como poderia ela ter estado guarda em meu coração durante tanto tempo.
Quando nos sentamos para jantar, uma profunda cumplicidade envolvia-nos. Ele contou-me que uma das suas baladas tinha sido inspirada por mim, num tempo em que andávamos a ler "Memórias de Adriano" de Margarite Yourcenar. Lembrava-me desse tempo e, também, dessa balada, mas nunca me vi capaz de inspirar um artista. Sorri, agradeci e deixei correr, suave, o tempo do nosso jantar.
Quando cheguei a casa e me deitei ao lado o homem que amava, disse-lhe: "Foi bonito o jantar, ele pegou a minha mão e disse-me que lhe inspirei uma das suas baladas...". Sem se virar, sem me tocar, sem me sorrir, ele disse apenas: - "Temos engate!"
E nesse dia, eu passei a amá-lo menos!!!
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