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Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta sonhos

Canção de Abril

Era abril e corria uma aragem fria, mas havia calor nas nossas vozes e nos nossos planos. E os nossos sonhos acendiam todas as paixões. O Gaspar sentava-se entre nós, era mais pequeno do que os outros rapazes, a sua pele era mais escura, também era o mais velho e o único que frequentava Direito em regime voluntário. O Gaspar trazia com ele a memória do seu povo ocupado, amordaçado, humilhado. Ao final da tarde discutíamos as resoluções da ONU, a firmeza de Portugal na defesa da autodeterminação de Timor, mas o Mundo tinha esquecido Timor, estávamos na Europeu e havia muros por derrubar.  Mas, era abril e os sonhos ferviam dentro de nós e já não estávamos sentados à volta da mesa a ouvir o Gaspar, estávamos no Gil Vicente, plateia meia cheia, muitos estudantes, alguns professores, representantes locais dos partidos políticos, uma delegação da Amnistia Internacional e, até, dois policias, sentados no fundo sala. Nós conhecíamos o Gaspar, a resistência do Gaspar, mas o...

Longe do Mar (1)

Conheci o Manuel num restaurante, no jantar de aniversário de uma colega de trabalho. Foi fácil perceber que o Manuel era um dos seus amigos de eleição, uma amizade dos tempos de faculdade. O Manuel estava sozinho, a sua mulher, Raquel, estava em viagem. Nesse fim-de-semana participava num encontro informal de mulheres escritoras. Fiquei a saber que a Raquel não é escritora, no sentido que habitualmente damos à palavra, ela faz critica literária e é uma conceituada filóloga. O Manuel e a Raquel são casados há mais de 20 anos e todos, sem excepção, os consideram o casal modelo. Ninguém, naquele grupo, tinha aguentado tanto tempo um casamentos e, agora, todos entrados nos cinquentas, contávamos as vidas pelo número e qualidade das relações acumuladas. Muitos ainda perseguiam o sonho de encontrar o grande amor, acreditavam na alquimia que transformaria encontros vulgares, com pessoas comuns, em feitos extraordinários. Eu vivia entre as duas margens, não desacreditava no amor ...

Os Dias Assim

"Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força da sua alma, todo o universo conspira a seu favor." Goethe  Há dias assim, em que nos importam os sonhos, os nossos e os dos outros, os apenas sonhados, os vividos e os nem por isso. São dias de fazer balanços, de limpar as gavetas da memória, de tirar o pó dos livros já lidos, de fazer uma nova lista de livros para ler, de guardar, para reler, aqueles de que sentimos falta. A vida não teria sentido sem estes "dias não-sonhos", dias de, apenas, contemplar os sonhos. E há uma estranha paz nesta tarefa, uma inexplicável ausência de revolta ou de raiva, mesmo perante os sonhos mal sonhados.  Apesar do meu espírito inquieto e da minha alma insatisfeita, tenho dias assim, dias de apenas olhar os dias. Não! Não são dias perdidos, são dias de alimentar a alma, de voar sem medo e de contemplar o que fui, mais do que aquilo que sou. São dias que se impõem sem avisar, que eu ...

Vontade

"É a lassidão da nossa vontade que constitui toda a nossa fraqueza, e sempre se é forte para fazer o que se quer com força." Jean Jacques Rousseau Há um ano que não publico nada neste meu blog. Não porque me tenham faltado temas de reflexão, histórias para contar ou tempo para escrever. Ao longo do último ano tive tudo isso, momentos de reflexão, novas histórias e tempo para as escrever. Só me faltou a vontade. aquele desejo que me vem de dentro e que transforma o pensamento em ação, os sonhos em realizações. Faltou-me a "motivação", como agora de usa dizer. Não estava motivada para escrever porque, certamente, andava ocupada com outras coisas, como concluirão alguns. Mas não é nada disso, estive, simplesmente, sem vontade, ou seja, sem desejo de escrever. Não escrevi para o blog, nem escrevi para qualquer outro fim, escrevi, apenas, alguns sms's .... Para alguém como eu, que desde muito cedo começou a organizar os seus pensamentos e até a sua vida ...

Emoções Tecidas Neste Lugar

O meu amigo Alfredo Almeida pediu-me que escrevesse sobre os Bombeiros Voluntários da Régua, de imediato aceitei o seu convite. Reconheço agora que a minha atitude foi impulsiva e motivada por razões afetivas, pela minha paixão pela terra que me viu crescer e por esta imperiosa necessidade de invocar as raízes numa altura da vida em que já espalhamos ramos e perdemos folhas em tantos locais diferentes. Se tivesse sido mais ponderada teria, diplomaticamente, agradecido a distinção e declinado o convite. Perdi a oportunidade, nada mais me resta do que invocar as minhas memórias esparsas e cheias de fadas e duendes míticos para testemunhar o que os bombeiros foram para mim. Em casa dos meus avós ouvíamos a sirene dos bombeiros, era um grito desesperado de socorro, atormentava o meu coração de criança e conduzia a minha imaginação para cenários terríveis de fogo e calor. Lá em casa todos se agitavam, “onde é o fogo? onde é o fogo?” A Maria descia a correr as escadas que nos ligavam ...

É Dia de Amar ...

Sempre me recusei a aceitar essa ideia aristotélica de que chegamos ao mundo como sendo a metade de qualquer outra pessoa e que toda a busca da felicidade se traduz nessa procura incessante pela metade que nos falta. Nunca senti que me faltasse algo e também nunca encontrei ninguém que fosse capaz de completar o que quer que fosse de mim, talvez porque eu sempre me achei completa em mim mesma. Mas a verdade, é que crescer e viver como um ser uno num mundo em que a unidade é um par, nem sempre foi fácil. Mas como em tudo, com o tempo e a sabedoria, aprendemos a conviver com os outros sem abdicarmos de nós próprios e das nossas convicções. Vem isto a propósito das comemorações do dia dos namorados, dessa comemoração do amor romântico que mais não é do que a legitimação desnecessária da humana busca do sexo e dos afectos. Sobre este dia eu tenho um olhar romântico, não recordo que me tenha acontecido algo de extraordinário ou verdadeir...

O Tédio

Há alguns dias que não escrevo, nem aqui, nem nos cadernos de papel, não me tem apetecido escrever. Há demasiado tédio para que me apetecer escrever. Também não me apetece trabalhar, não me apetece estar em casa e não me apetece sair. Fico, por vezes, a olhar para o ecrã do PC á espera que algo aconteça, que me chegue algo de novo, ou estimulante, ou verdadeiramente revolucionário. Alimento essa quimera de uma mensagem inesperada, alguém que se lembre que eu existo, que eu estou aqui, à espera de algo que não sei o que é. Alguém que me interprete, me adivinhe.  A vida segue igual, muito embora a minha vida nem seja assim tão igual a outras vidas. Tenho este condão de ir realizando alguns sonhos, de ir adiando outros e de, invariavelmente, me sentir vazia, sem nada de verdadeiramente substancial. Gosto de pessoas autónomas, cada um a viver a sua vida tal, como eu vivo a minha.  Temos um destino comum: o de cada um ter de tratar dos seus próprios sonhos e dos seus fr...