Eu precisava de falar. Precisava de alguém que me ouvisse e me consolasse. O meu Amigo disse-me: - "Vem, estou à tua espera." Meti-me no carro e fui. Era sábado, estava calor, na auto-estrada pouco tráfego, mas aqueles 80 km pareceram-me uma imensidão.
Cheguei a casa dele, atravessei o portão e entrei pelo jardim. Um homem idoso construía uma Mandala com pedras, umas pequenas, outras maiores, cada uma delas com a sua própria história, com os seus segredos. Da porta de casa, o meu Amigo, sorria-me. Acolheu-me com um abraço e levou-me para dentro. Senti o aroma do incenso e, ao mesmo tempo, uma estranha paz. Estava no local onde podia abrir o meu coração...
O meu Amigo levou-me até à sua pequena sala de meditação, acendeu incenso, colocou uma música suave e sentámo-nos, próximos um do outro. Ele sorriu e perguntou-me: - "Como estás?"
Eu estava desfeita, recusava-me a aceitar, não compreendia o que tinha acontecido. Há duas semana eram os planos de férias em Cabo Verde e em três dias todos os planos de uma vida em comum tinham desaparecido. Eu estava sozinha, abandonada pelo homem que amava e a sentir uma dor indecifrável, que ía e vinha e percorria todas as células do meu corpo. Custava-me mover-me, tinha chorado tanto que uma letargia morna e dolorida se tinha apossado de mim. Por momentos tive a sensação de que abandonava o meu corpo, era tão grande a dor que nada mais restava do que sair daquele corpo e ficar, apenas, a olhá-lo.
Falei com o meu Amigo. Sei que falei muito, mas não recordo o que lhe disse. Ele ouviu-me, deixou-me chorar e pegou nas minhas mãos. Colocou-se mais perto de mim, convidou-me a meditar com ele. Primeiro em silêncio, depois recitando um mantra que me pareceu alegre. Eu estava mais serena, uma boa parte da minha dor tinha-se dissolvido. Estava bastante melhor.
A despedida foi na cozinha, com uma chávena de chá. O meu Amigo, colocou água numa chaleira eléctrica e trouxe duas canecas, em cada uma delas um saquinho de chá. Preparou o chá, com cuidado e em silêncio. Foi em silêncio que o bebemos. Dei por mim estranhamente calma, apenas eu e o meu chá, um momento perfeito.
Antes de sair, o meu Amigo deu-me um presente, uma caixa de cartão com sete pequenas divisórias interiores e em cada uma delas três saquinhos de chá. Agradeci o presente e lembrei-me que também eu lhe tinha trazido um e que o deixara no carro: uma garrafa de azeite biológico.
Foi longo o nosso abraço. O meu Amigo ía viajar, certamente passariam muitos meses até ao nosso reencontro. Ele disse-me: - "Sempre que te apetecer falar envia-me um email. Eu leio e respondo-te. Mas tens que me fazer uma promessa" - eu acedi com a cabeça - "só lés as minhas respostas à noite, no fim de todas as tuas tarefas, antes de dormir" - concordei.
Apeteceu-me falar e enviei o primeiro email. A resposta chegou no dia seguinte, pela manhã, mas eu não abri, tinha que cumprir a minha promessa. Chegada a noite abri o email do meu Amigo.
"- Feliz com as tuas notícias. Prepara um chá, o n.º 5. Senta-te e toma em silêncio o teu chá. No final, lava e arruma a taza. Tudo vai ficar bem. Abraços."
Escrevi-lhe 21 emails, tantos quantos os saquinhos de chá. A todos me respondeu da mesma maneira, apenas mudando o número. Ao longo daquele mês, todas as noites me sentei sozinha, em silêncio, para tomar o meu chá. No final, num gesto ritual, lavava e arrumava a chávena.
Passaram-se 10 anos, mas, desde então, sei que nos momentos de dor tenho um chá para preparar, um chá para beber e uma chávena para lavar.
Há mais de doze séculos Lu Tung dizia, no seu célebre tratado sobre o chá, o seguinte:
ResponderEliminarA primeira chávena humedece-me os lábios e a garganta.
A segunda chávena quebra a minha solidão.
A terceira chávena busca nas minhas entranhas, mas apenas encontra milhares de ideogramas absurdos.
A quarta chávena provoca uma leve transpiração - todos os males da minha vida saem pelos poros.
E à quinta chávena já estou purificado.
A sexta chávena transporta-me aos reinos dos imortais.
A sétima chávena - ah, não posso beber mais!
Só posso sentir a brisa do vento fresco que me levanta as mangas.
Onde está o elísio? Deixem-me cavalgar sobre esta suave brisa que me leva até lá.