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Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Mulher

Longe do Mar (3) Luisa

A Luisa estava a chegar. Eu esperava na plataforma pelo comboio que trazia a Luísa.  Os últimos dias tinham sido estranhos, quase por magia recuperei o contacto com muitos dos meus colegas e amigos de Coimbra, gente de quem não sabia praticamente nada há mais de 20 anos. Ao contrário da Luísa, que sempre manteve o contacto com os colegas de faculdade, o meu percurso tinha sido bem diferente e, quando terminei o curso, iniciei uma nova vida longe daquela que tinha tido na faculdade. O casamento, a mudança para uma cidade de interior, fria e austera, a maternidade, a minha necessidade de afirmação profissional e, depois, o divórcio, foram tomando todo o meu tempo interior deixando um quase nada de espaço onde apenas coube o que ainda restava de mim. Agora, quase sem eu querer, tudo estava a voltar e, por muito estranho que me parecesse, tudo voltava exatamente a partir do ponto em que eu me tinha afastado. Atribui estes mistérios a um milagre chamado facebook . A ...

Não é Amor, é a Vida!

Chegaste até mim na madrugada da maturidade Naquela idade em que já tudo foi  E em que tudo está ainda por acontecer Os primeiros traços da idade estavam aí Os cabelos começavam a rarear e as rugas faziam fios em torno dos teus olhos Mas o teu sorriso era de menino! Chegaste quando já não eras esperado Mas a mesa estava posta para ti Havia flores nos canteiros da memória e música a tocar E eu abri as minhas portas para acolher a tua solidão Coloquei um vestido curto para te mostrar que havia esperança Que, também eu, era ainda uma criança. Não te falei de amor, falei-te da vida! Trouxe-te para minha casa, deitei-te na minha cama Entreguei-te o meu corpo quente, maduro, sábio de outros toques Entreguei-me inteira, sem vergonha, sem culpa e sem mistérios Tomei-te para mim e decifrei os teus segredos, que calei Sabia-te frágil, incerto, esfomeado de amor que procuravas pelas ruas Sabia-te poeta, músico e ilusão Sabia-me em ti, em cada ausê...

Longe do Mar (1)

Conheci o Manuel num restaurante, no jantar de aniversário de uma colega de trabalho. Foi fácil perceber que o Manuel era um dos seus amigos de eleição, uma amizade dos tempos de faculdade. O Manuel estava sozinho, a sua mulher, Raquel, estava em viagem. Nesse fim-de-semana participava num encontro informal de mulheres escritoras. Fiquei a saber que a Raquel não é escritora, no sentido que habitualmente damos à palavra, ela faz critica literária e é uma conceituada filóloga. O Manuel e a Raquel são casados há mais de 20 anos e todos, sem excepção, os consideram o casal modelo. Ninguém, naquele grupo, tinha aguentado tanto tempo um casamentos e, agora, todos entrados nos cinquentas, contávamos as vidas pelo número e qualidade das relações acumuladas. Muitos ainda perseguiam o sonho de encontrar o grande amor, acreditavam na alquimia que transformaria encontros vulgares, com pessoas comuns, em feitos extraordinários. Eu vivia entre as duas margens, não desacreditava no amor ...

Uma chávena de chá

Eu precisava de falar. Precisava de alguém que me ouvisse e me consolasse. O meu Amigo disse-me: - "Vem, estou à tua espera." Meti-me no carro e fui. Era sábado, estava calor, na auto-estrada pouco tráfego, mas aqueles 80 km pareceram-me uma imensidão.  Cheguei a casa dele, atravessei o portão e entrei pelo jardim. Um homem idoso construía uma Mandala com pedras, umas pequenas, outras maiores, cada uma delas com a sua própria história, com os seus segredos. Da porta de casa, o meu Amigo, sorria-me. Acolheu-me com um abraço e levou-me para dentro. Senti o aroma do incenso e, ao mesmo tempo, uma estranha paz. Estava no local onde podia abrir o meu coração...  O meu Amigo levou-me até à sua pequena sala de meditação, acendeu incenso, colocou uma música suave e sentámo-nos, próximos um do outro. Ele sorriu e perguntou-me: - "Como estás?" Eu estava desfeita, recusava-me a aceitar, não compreendia o que tinha acontecido. Há duas semana eram os planos de fé...

Continuam os Festejos

Aniversário da Maria João Justino No passado dia 28 de Maio foi a vez da Maria João se juntar ao clube dos 50. A Maria João é uma amiga que chegou à minha vida pela mão do Miguel, o que faz dela uma pessoa muito especial para mim.  Acredito, com Unamuno, que "cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmo." E, por isso, celebro com o mesmo entusiasmo e alegria os velhos e os novos amigos, testemunhos vivos do quanto tenho a aprender com eles sobre mim própria.  Vale mesmo a pena passar 50 anos a construir relações, a estabelecer laços, a ser autêntica, a ser filha e a ser mãe, a ser menina e mulher, amante e amiga.  Parabéns, Amiga!!! 

Festas de Aniversário: 50 Anos

Querem saber o que fiz no passado fim-de-semana, 16 e 17 de Maio? Fui até ao Norte, a Espinho e a Matosinhos, para comemorar o aniversário da Angelita ( Na Cozinha da Té ) e de uma amiga de infância. E sabem que mais? As duas são mulheres maravilhosas acabadas de entrar nos 50. As festas foram lindas, animadas, com petiscos, bolo e champanhe. Devo ter engordado 2Kg!! Mas o melhor de tudo é saber que a amizade que, com cada uma delas, construímos em crianças, está viva e alegre e que estes 50 anos valeram a pena.

Poema de Todos os Dias

Lígia Reyes ( Para a minha Mãe) Quero escrever para te celebrar. Porque um poema não morre e Só a tua primavera me compõe De todos os invernos, mãe. Chega atrasado, mas o que há-de chegar a horas Quando a casa onde chego é tua E um singelo poema pelo dia da mãe Não chega para alimentar duas bocas, Trocar fraldas, cuidar. Muitas vezes chorando no silêncio Porque se está só e as miúdas Teimam em não crescer, fazem asneiras Ficam doentes. E quando crescem, fazem asneiras, Ficam doentes - Fazem poemas, Lêem os livros da tua juventude, Furam a carne por diversão, Aparecem rapazes lá em casa, Viajam pela noite, pelo dia, Muitas vezes para longe. Estudam coisas que entendes bem demais, Vão para os lugares onde já estiveste - É aí que o coração aperta mais. Deixou de funcionar a famosa palmada - Agora só a vida é mãe, muitas vezes, Madrasta, e lá chega um "bem te avisei", Uma conversa, um abraço no final. Mãe, a poesia é forte como tu - Sofre d...

Emoções Tecidas Neste Lugar

O meu amigo Alfredo Almeida pediu-me que escrevesse sobre os Bombeiros Voluntários da Régua, de imediato aceitei o seu convite. Reconheço agora que a minha atitude foi impulsiva e motivada por razões afetivas, pela minha paixão pela terra que me viu crescer e por esta imperiosa necessidade de invocar as raízes numa altura da vida em que já espalhamos ramos e perdemos folhas em tantos locais diferentes. Se tivesse sido mais ponderada teria, diplomaticamente, agradecido a distinção e declinado o convite. Perdi a oportunidade, nada mais me resta do que invocar as minhas memórias esparsas e cheias de fadas e duendes míticos para testemunhar o que os bombeiros foram para mim. Em casa dos meus avós ouvíamos a sirene dos bombeiros, era um grito desesperado de socorro, atormentava o meu coração de criança e conduzia a minha imaginação para cenários terríveis de fogo e calor. Lá em casa todos se agitavam, “onde é o fogo? onde é o fogo?” A Maria descia a correr as escadas que nos ligavam ...

Avó

Hoje vieram-me à memória os passeios de Verão com os meus avós. Saímos de carro, não íamos muito longe até porque Portugal é um país pequeno, mas descobríamos muitas coisas novas. Os meus avós eram pessoas alegres. A minha avô era uma mulher encantadora, fazia amizade com toda a gente, por onde quer que andássemos ela sempre encontrava alguém com quem conversar e as pessoas correspondiam facilmente ao seu desejo de conversa. Falava com todos, o que lhe permitiu adquirir uma sabedoria imensa. Para ela as pessoas eram todas basicamente iguais e o modo como os defeitos e virtudes se repartiam pela humanidade não lhe despertavam qualquer paixão. Era uma mulher que gostava de pessoas e as pessoas gostavam dela. A sua simpatia e a atenção que dedicava aos outros, movida pela sua imensa curiosidade, faziam dela uma amiga desejada. Nunca me pareceu que a minha avó necessitasse de qualquer companhia em especial, era independente, vivia segundo as suas próprias regras e...

Silêncio

Eu fiquei de olhos fechados a ouvir a água do teu banho a correr. Deixei-me ficar ali, acordada mas de olhos fechados, a procurar na memória cada detalhe do quarto. Estava deitada, o teu cheiro estava por todo o lado e conhecia-o demasiado bem, tudo o resto me era estranho. Não tinha vontade de acordar, nem tinha vontade de ficar alí, se ao menos tu cantasses no duche ... mas não, tudo é silêncio entre nós. Levantei-me quando te vi chegar, forçaste um sorriso que eu retribui com mais silêncio. Era a minha vez de usar a casa-de-banho e o cheiro do teu perfume invadia tudo. Apesar de intenso, eu sabia que aquele cheiro não me acompanharia, não se colaria à minha pele, nem à minha roupa e não deixaria qualquer impressão na minha memória. Também não guardaria recordações daquele local, não saberia dizer a cor das paredes, a disposição dos móveis ou sequer o nome das flores de que gostei tanto. Também não guardei...

(2) O AMOR

"Nunca ter desilusões no amor é um privilégio dos imbecis." Provérbio  Nunca esperei pela minha história de amor, estava tão certa que ela me apanharia, que era tão inevitável, que o melhor mesmo seria aproveitar o tempo de que dispunha. Nesta certeza crescer foi fácil, com o encanto das roupas para bonecas, das camisolas de lã e dos livros. Não gostava de "bonecos chorões", que pareciam bebés, interessavam-me especialmente as bonecas elegantes, que eu podia vestir, despir e pentear. A minha boneca predilecta falava, apertava-lhe a barriga e ela dizia: - "buenos dias, habla comigo". Era espanhola. Um dia o meu irmão decidiu desvendar o mistério da boneca falante e arrancou-lhe do peito um pequeno disco de plástico e duas pilhas. Quebrou-se o encanto, deixei as bonecas e dediquei-me definitivamente aos livros. Os livros faziam parte da decoração lá de casa, havia livros bonitos, encadernados, que o meu pai comprava em colecções, por autores. Não e...