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Mensagens

A mostrar mensagens de setembro, 2011

FIM-DE-SEMANA

Olá! Disse-me Maria sem tirar os olhos do computador. Olá! Respondi mecanicamente. Quando me sentei na secretaria em frente, reparei que Maria tinha o olhar de uma criança assustada, que o seu corpo era frágil e que o seu sorriso escondia uma profunda tristeza. De onde vinha aquela tristeza de Maria? Provavelmente de lugar nenhum, seria apenas a minha imaginação em busca de histórias tristes e complexas nos rostos de pessoas simples. Maria interrompe os meus pensamentos com uma pergunta trivial: - Como foi o fim-de-semana? Normal, como todos os outros, fiquei em casa a arrumar o quarto dos miúdos, a passar a ferro, a cozinhar para toda a semana.... ainda tive tempo para pintar o cabelo e arranjar as unhas – respondo de rajada. Não lhe pergunto nada, mas Maria diz-me: - Passei o sábado no hospital com o Raul, a mudança de tempo é terrível para os asmáticos, o Raul teve falta de ar e passamos uma boa parte da tarde de sábado na urgência do hospital, nos aerossóis. Finjo interes...

(2) O AMOR

"Nunca ter desilusões no amor é um privilégio dos imbecis." Provérbio  Nunca esperei pela minha história de amor, estava tão certa que ela me apanharia, que era tão inevitável, que o melhor mesmo seria aproveitar o tempo de que dispunha. Nesta certeza crescer foi fácil, com o encanto das roupas para bonecas, das camisolas de lã e dos livros. Não gostava de "bonecos chorões", que pareciam bebés, interessavam-me especialmente as bonecas elegantes, que eu podia vestir, despir e pentear. A minha boneca predilecta falava, apertava-lhe a barriga e ela dizia: - "buenos dias, habla comigo". Era espanhola. Um dia o meu irmão decidiu desvendar o mistério da boneca falante e arrancou-lhe do peito um pequeno disco de plástico e duas pilhas. Quebrou-se o encanto, deixei as bonecas e dediquei-me definitivamente aos livros. Os livros faziam parte da decoração lá de casa, havia livros bonitos, encadernados, que o meu pai comprava em colecções, por autores. Não e...

(1) O AMOR

"Parece-me fácil viver sem ódio, coisa que nunca senti. Mas viver sem amor acho impossível." Jorge Luís Borges Cresci no meio de histórias de amor, cada uma das pessoas do meu mundo tinha uma história de amor para contar, eu própria era o resultado de uma bela história de amor. Todos à minha volta estavam condenados a viver as suas histórias de amor. A Maria, que logo pela manhã chegava com o pão ainda quente e se sentava num banco, encostada ao balcão da cozinha, a comer as sopas de café com as sobras de pão da véspera, aceitava o mau vinho do José, porque, tirando isso, ele até era bom homem e ela prometera, perante Deus e os homens, amá-lo. Quando o José bebia e a Maria chegava com os olhos inchados e o corpo negro, as mulheres da casa confortavam-na e não raras vezes ouvi a minha avô a ralhar com o José: - "que isto não podia ser" "que a Maria não merecia." O José ouvia calado, com os olhos marejados de lágrimas, implorando um silencioso pe...

POLÍTICA E JUSTIÇA

"O meu ideal político é a democracia, para que todo o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado." Albert Einstein Quase que prometi a mim mesma não escrever sobre política, afinal queria que este espaço fosse intimista e que tocasse as nossas emoções mais profundas. Erro meu pensar que seria possível a emoção sem a política, afinal como nos diz André Chamson "t odos os nossos pensamentos tocam na política." O facto que tem estado no centro da discussão política nacional nos últimos dias tem sido a ocultação da dívida pública da Região Autonoma da Madeira, cujas consequências para as contas nacionais e para a credibilidade de Portugal perante os seus credores e parceiros internacionais, dentro e fora da Europa, estão ainda por avaliar em todas as suas dimensões. Perante esta situação levantaram-se logo as vozes exaltadas dos que gritavam: "- Prendam-no!". E, como não podia deixar de ser, reclamava-se já a prisão de mais uns quantos polític...

O ENCONTRO

"Quem é um amigo? - Um outro Eu" Zenão Eléia Ontem uma amiga disse-me: - "Quero agradecer-te. Faz hoje 5 anos que me levaste a conhecer um amigo teu, que é hoje meu grande amigo." Recordei exactamente esse dia, como lhe falei do meu amigo e como me parecia importante que ela o conhecesse. E lá fomos as duas a casa dele. Como sempre, o Alfredo recebeu-me calorosamente. Abraçou-me e abraçou a minha amiga como se a conhecesse há muitos anos. Ficamos ali os três, era uma tarde de fim-de-verão mas ainda não se ouvia a chegada do outuno. Eu falei de mim, informações gerais sobre o trabalho, as minhas filhas, os meus projectos, o Alfredo ouviu-me com atenção e alegrou-se com as boas notícias. Depois a minha amiga falou da sua tristeza, trazia com ela as dores dos filhos, as duvidas sobre o trabalho, as mágoas de velhos amores. E ele olhou-a e deu-lhe conselhos, recomendou-lhe coisas simples - "dorme bem", "come bem, legumes, cereais integrais...

A LANTERNA

"Se o homem carrega a sua própria lanterna, não precisa de ter medo do escuro." Provérbio Judaico Desde criança que escrevo. Escrever foi a formula secreta de vencer o medo, ou melhor, de ir vencendo os meus medos. Escrever é a minha maneira de avaliar e meditar sobre as coisas que vão acontecendo, mas é também a melhor forma de fazer as coisas acontecer. Ao longo dos anos escrevi dezenas de cadernos a que chamei "diários", muitos se perderam (da minha infância e da juventude não resta nenhum) mas nos últimos tempos tenho tido alguma preocupação em conservá-los, cuidar deles.  Nas longas noites da vida a escrita tem sido a minha lanterna e foi ela que muitas vezes me salvou das trevas. Escrever obriga-me a corrigir os pensamentos, a prespectivar as emoções, a avaliar os meus muitos medos e a perceber que há sempre, pelo menos, duas opções: a minha e a outra, que eu invento. Decidi começar este blog porque me torn...