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Mensagens

Alimentaçâo, Património Cultural Imaterial

"Os melhores petiscos são aqueles que não podem ser comprados - por muito dinheiro ou amor que se tenha - mas somente adquiridos por ter nascido e vivido num determinado lugar; por ser filho, sobrinho ou compadre de determinadas pessoas" Miguel Esteves Cardoso Não há nada de mais gratificante do que descobrir que fomos importantes para alguém, que num determinado momento, um gesto, uma palavra, um sorriso ou uma escuta mais atenta fizeram a diferença. Disse-me o Antero que, um dia, uma conversa que tivemos foi, para ele, o ponto de partida para a escolha do tema da sua tese de mestrado e, depois, para a publicação do seu livro "Alimentação, património cultural imaterial". Confesso que não recordo o teor dessa nossa conversa, mas se graças a ela se acendeu uma centelha de inspiração, se veio perene de significado e sentido então foi, com certeza, uma boa conversa. É este o ponto de partida para a tarefa que me espera; vou apresentar este liv...

O Livro

"O Livro é um animal vivo." Aristoteles Em Outubro de 2006 publiquei uma monografia sobre direito das fundações. Com este trabalho pretendi, essencialmente, abordar de um modo prático as principais questões jurídicas que se colocavam em matéria de instituição, reconhecimento, organização e funcionamento das fundações ao abrigo da legislação portuguesa.  Desde então, muitas coisas se alteraram em matéria de legislação de fundações - realizou-se o censo das fundações, foi publicada a Lei-quadro das Fundações e instituído o Conselho Consultivo das Fundações. Estas alterações na legislação há muito que justificavam uma 2ª edição, revista e actualizada, deste meu livro, o que só não aconteceu porque outros compromissos se impuseram como mais urgentes. Mas esse projecto continua bem vivo nas minhas intenções e sei que, em breve, o concretizarei. Vem esta reflexão a propósito de uma mensagem, de email, que recebi hoje de um investigador e autor brasile...

Poema de Todos os Dias

Lígia Reyes ( Para a minha Mãe) Quero escrever para te celebrar. Porque um poema não morre e Só a tua primavera me compõe De todos os invernos, mãe. Chega atrasado, mas o que há-de chegar a horas Quando a casa onde chego é tua E um singelo poema pelo dia da mãe Não chega para alimentar duas bocas, Trocar fraldas, cuidar. Muitas vezes chorando no silêncio Porque se está só e as miúdas Teimam em não crescer, fazem asneiras Ficam doentes. E quando crescem, fazem asneiras, Ficam doentes - Fazem poemas, Lêem os livros da tua juventude, Furam a carne por diversão, Aparecem rapazes lá em casa, Viajam pela noite, pelo dia, Muitas vezes para longe. Estudam coisas que entendes bem demais, Vão para os lugares onde já estiveste - É aí que o coração aperta mais. Deixou de funcionar a famosa palmada - Agora só a vida é mãe, muitas vezes, Madrasta, e lá chega um "bem te avisei", Uma conversa, um abraço no final. Mãe, a poesia é forte como tu - Sofre d...

Felicidade

Obra de Arte de Ernesto Neto no Museu Guggenheim, Bilbao. No começo de cada ano, pelo dia do nosso aniversário, quando nasce uma criança ou quando mudamos de emprego ou de casa, são tantas as situações em que nos desejamos, mutuamente, felicidades. Todos queremos ser felizes, cada um à sua maneira vai enumerando uns quantos requisitos para ser feliz. Quero, ter saúde, que não me falte o trabalho, que os meus filhos tenham sucesso na escola, no desporto, nas suas realizações. Quero viajar, quero um carro, quero roupa nova, quero .... quero .... há tanta coisa que queremos, que, de conquista em conquista, vamos vivendo os momentos fugazes de felicidade. Mas eu quero é ser feliz, e o meu amigo deu-me o livro que eu queria ler, e o meu namorado adivinhou o meu desejo e levou-me a jantar naquele restaurante, e eu fui feliz. São pequenas coisas... eu própria as poderia ter obtido sem eles, mas é esta dádiva, a felicidade de me verem feliz, que faz  a felicidade ou como diz o po...

Miguel Rebelo no Teatro da Trindade

Vontade

"É a lassidão da nossa vontade que constitui toda a nossa fraqueza, e sempre se é forte para fazer o que se quer com força." Jean Jacques Rousseau Há um ano que não publico nada neste meu blog. Não porque me tenham faltado temas de reflexão, histórias para contar ou tempo para escrever. Ao longo do último ano tive tudo isso, momentos de reflexão, novas histórias e tempo para as escrever. Só me faltou a vontade. aquele desejo que me vem de dentro e que transforma o pensamento em ação, os sonhos em realizações. Faltou-me a "motivação", como agora de usa dizer. Não estava motivada para escrever porque, certamente, andava ocupada com outras coisas, como concluirão alguns. Mas não é nada disso, estive, simplesmente, sem vontade, ou seja, sem desejo de escrever. Não escrevi para o blog, nem escrevi para qualquer outro fim, escrevi, apenas, alguns sms's .... Para alguém como eu, que desde muito cedo começou a organizar os seus pensamentos e até a sua vida ...

Piodão

Um dia chegou aqui um homem, as suas roupas esfarrapadas guardavam ainda a memória de um soldado, vinha esfomeado, no rosto tinha estampado o medo e a vergonha e, nos olhos castanhos, o remorso. Quem o perseguia há muito que tinha desistido, acreditando que ele estaria morto. Escapara à fúria de Pedro mas sabia que não escaparia à fúria dos seus próprios sentimentos. Um homem não pode matar cobardemente uma mulher. Os gritos de desespero de Inês soariam para sempre na sua cabeça. Nesta aldeia aninhada no fundo de uma montanha ninguém o conhecia, a sua história e a sua culpa seriam a sua única companhia. Hoje chegamos nós, descemos pela estrada da montanha, ingreme, com curvas perigosas, mas com bom piso e bem sinalizada. De Inverno, o gelo e neve cobrem estas paragens, são necessárias cautelas acrescidas na estrada, mas estamos no final da primavera, está um dia lindo e o sol começa a pôr-se, num jogo de luz e sombra, de montes escuros e claros. Capto na memória, por instan...

Emoções Tecidas Neste Lugar

O meu amigo Alfredo Almeida pediu-me que escrevesse sobre os Bombeiros Voluntários da Régua, de imediato aceitei o seu convite. Reconheço agora que a minha atitude foi impulsiva e motivada por razões afetivas, pela minha paixão pela terra que me viu crescer e por esta imperiosa necessidade de invocar as raízes numa altura da vida em que já espalhamos ramos e perdemos folhas em tantos locais diferentes. Se tivesse sido mais ponderada teria, diplomaticamente, agradecido a distinção e declinado o convite. Perdi a oportunidade, nada mais me resta do que invocar as minhas memórias esparsas e cheias de fadas e duendes míticos para testemunhar o que os bombeiros foram para mim. Em casa dos meus avós ouvíamos a sirene dos bombeiros, era um grito desesperado de socorro, atormentava o meu coração de criança e conduzia a minha imaginação para cenários terríveis de fogo e calor. Lá em casa todos se agitavam, “onde é o fogo? onde é o fogo?” A Maria descia a correr as escadas que nos ligavam ...

É Dia de Amar ...

Sempre me recusei a aceitar essa ideia aristotélica de que chegamos ao mundo como sendo a metade de qualquer outra pessoa e que toda a busca da felicidade se traduz nessa procura incessante pela metade que nos falta. Nunca senti que me faltasse algo e também nunca encontrei ninguém que fosse capaz de completar o que quer que fosse de mim, talvez porque eu sempre me achei completa em mim mesma. Mas a verdade, é que crescer e viver como um ser uno num mundo em que a unidade é um par, nem sempre foi fácil. Mas como em tudo, com o tempo e a sabedoria, aprendemos a conviver com os outros sem abdicarmos de nós próprios e das nossas convicções. Vem isto a propósito das comemorações do dia dos namorados, dessa comemoração do amor romântico que mais não é do que a legitimação desnecessária da humana busca do sexo e dos afectos. Sobre este dia eu tenho um olhar romântico, não recordo que me tenha acontecido algo de extraordinário ou verdadeir...

Dia dos Namorados

Começou a contagem decrescente para o dia dos namorados que é já no próximo 14 de Fevereiro, falta exactamente uma semana. Nunca prestei muita atenção a estes dias comemorativos mas, este ano, recebi tanta informação sobre o dia dos namorados que dei por mim a pensar no que poderia ser o "perfeito dia dos namorados". Abri cada um dos e.mails, olhei atentamente as montras das lojas, os anúncios na TV, na rádio e na internet. O dia dos namorados está por todo o lado e não há como escapar-lhe.  Começando pelo e.mail, fiquei a saber que este é o dia ideal para fazer um workshop de sushi, mas também para um outro de feng shui do amor. Nestas coisas do namoro também não pode faltar chocolate e aprender a fazer bombons é outra das doces sugestões. Já que falamos de comida, um jantar afrodisíaco com ostras e champanhe parece-me uma coisa com classe e a fotografia do anúncio é uma tentação. Mas a pizza com coca-cola também faz parte da ementa, esta pizza tem forma de coração,...

A Última Serenata

Balada do 5º Ano Jurídico 88/89

O Tédio

Há alguns dias que não escrevo, nem aqui, nem nos cadernos de papel, não me tem apetecido escrever. Há demasiado tédio para que me apetecer escrever. Também não me apetece trabalhar, não me apetece estar em casa e não me apetece sair. Fico, por vezes, a olhar para o ecrã do PC á espera que algo aconteça, que me chegue algo de novo, ou estimulante, ou verdadeiramente revolucionário. Alimento essa quimera de uma mensagem inesperada, alguém que se lembre que eu existo, que eu estou aqui, à espera de algo que não sei o que é. Alguém que me interprete, me adivinhe.  A vida segue igual, muito embora a minha vida nem seja assim tão igual a outras vidas. Tenho este condão de ir realizando alguns sonhos, de ir adiando outros e de, invariavelmente, me sentir vazia, sem nada de verdadeiramente substancial. Gosto de pessoas autónomas, cada um a viver a sua vida tal, como eu vivo a minha.  Temos um destino comum: o de cada um ter de tratar dos seus próprios sonhos e dos seus fr...

Eu e Deus

"Haja ou não Deuses, deles somos servos." Fernando Pessoa Nas situações dramáticas, em que tudo parece perdido, em que o desespero parece ser a única resposta possível há uma força que se abriga dentro de nós, há um jardim onde nos podemos refugiar e que realmente é um local de paz e de tranquilidade. Ser capaz de encontrar esse jardim é o grande desafio e é realmente a grande busca da vida. Não fui ensinada a encontrar esse lugar em mim e talvez por isso tenha sido tão difícil crescer. Todos os consolos que conhecia eram exteriores, estavam fora de mim e aceder a eles era algo que, na maioria das vezes não dependia de mim. Mesmo quando rezava e invocava Deus era sempre a invocação de um estranho, que, de algum modo, haveria de aparecer de qualquer lado para me salvar. É certo que, de uma forma ou de outra, acabei sempre por encontrar essa salvação, mas não a procurava onde realmente deveria procura-la, num Deus que habitasse em mim, que me fosse ...

Avó

Hoje vieram-me à memória os passeios de Verão com os meus avós. Saímos de carro, não íamos muito longe até porque Portugal é um país pequeno, mas descobríamos muitas coisas novas. Os meus avós eram pessoas alegres. A minha avô era uma mulher encantadora, fazia amizade com toda a gente, por onde quer que andássemos ela sempre encontrava alguém com quem conversar e as pessoas correspondiam facilmente ao seu desejo de conversa. Falava com todos, o que lhe permitiu adquirir uma sabedoria imensa. Para ela as pessoas eram todas basicamente iguais e o modo como os defeitos e virtudes se repartiam pela humanidade não lhe despertavam qualquer paixão. Era uma mulher que gostava de pessoas e as pessoas gostavam dela. A sua simpatia e a atenção que dedicava aos outros, movida pela sua imensa curiosidade, faziam dela uma amiga desejada. Nunca me pareceu que a minha avó necessitasse de qualquer companhia em especial, era independente, vivia segundo as suas próprias regras e...

O Jardim

Cada um de nós tinha um segredo guardado atrás de um qualquer banco daquele Jardim. Todos nós atravessavamos a rua, discretos, contornavamos a frente do jardim, aquela que se abria ampla para o Paço do Munícipo e, subindo a rua, procuravamos a pequena vereda que descia em direcção à parte de trás do coreto. Em tempos, nos idos anos de meados do século passado, por esse mesmo caminho desciam, todos os Domingos, os músicos da banda que animava a saída da missa e enchia de som e alegria as manhãs quentes e ensolaradas. Quando nós começamos a procurar a paz, a sombra e a magia do Jardim há muito que este tinha perdido a música dominical. O coreto envelhecia tristemente, as tábuas do palco, ora húmidas, ora ressequidas, não eram mais pisadas pelo aprumo dos músicos, apodreciam esquecidas da beleza do som. A cobertura já não o protegia das chuvas e o coreto acumulava a tristeza do abandono. O Jardim não tinha sido a nossa primeira ...

Silêncio

Eu fiquei de olhos fechados a ouvir a água do teu banho a correr. Deixei-me ficar ali, acordada mas de olhos fechados, a procurar na memória cada detalhe do quarto. Estava deitada, o teu cheiro estava por todo o lado e conhecia-o demasiado bem, tudo o resto me era estranho. Não tinha vontade de acordar, nem tinha vontade de ficar alí, se ao menos tu cantasses no duche ... mas não, tudo é silêncio entre nós. Levantei-me quando te vi chegar, forçaste um sorriso que eu retribui com mais silêncio. Era a minha vez de usar a casa-de-banho e o cheiro do teu perfume invadia tudo. Apesar de intenso, eu sabia que aquele cheiro não me acompanharia, não se colaria à minha pele, nem à minha roupa e não deixaria qualquer impressão na minha memória. Também não guardaria recordações daquele local, não saberia dizer a cor das paredes, a disposição dos móveis ou sequer o nome das flores de que gostei tanto. Também não guardei...

Não Venhas

Estou sentada num pequeno muro em frente ao mar e, entre nós, a praia de um fim-de-tarde de Maio. O vento fraco e frio arrefeceu o meu nariz e um ligeiro desconforto percorreu o meu corpo. Não sei há quanto tempo estou aqui, o mar é tão bonito, as ondas a baterem nas rochas que rodeiam a pequena praia acalmam os meus pensamentos. Vim até aqui para pensar, para organizar os meus pensamentos e para decidir a minha vida, mas o mar, o vento, o barulho e o cheiro deste local tomaram conta de mim, do meu corpo e da minha mente. Não sobra espaço para o pensamento. Não sei ao certo que horas são, fico por mais alguns minutos, não reflecti sobre os meus problemas nem tomei nenhuma decisão, continuo sem saber o que fazer  mas estou tranquila, há em mim uma rara harmonia. Entro no carro e pela primeira vez em muitos dias sinto fome, uma vontade enorme de me sentar em frente de um bife com batatas fritas e uma cerveja preta.  Há momentos em que nada é mais importante do que ...

TEATRO

Sempre gostei de teatro, tenho pelo teatro um profundo amor, um amor confortável, sereno, seguro, que não me decepciona nem me desilude. Não é uma paixão é mesmo um grande amor. Amar desta forma significa que não saio decepcionada de um espectáculo. Os actores podem ser canastrões, o texto ser mau, não se dar conta da encenação, a sala estar demasiado quente ou fria, ainda assim eu gosto de ir ao teatro. Há alturas que me afasto, fico longe por muito tempo e regresso, como só um grande amor permite regressar. Mas também há alturas que ao meu amor se soma a paixão. Saio arrebata de um espectáculo. As palavras das personagens perseguem-me durante dias, ao menor descuido instalam-se na minha imaginação, tomam conta dos meus momentos ausentes.  Algumas pessoas, sabendo que vou muito ao teatro, fazem-me perguntas sobre actores, sobre peças, sobre dramaturgos, raramente sei as respostas. Quanto aos actores apenas conheço os nomes dos meus amigos ou, muito excepcionalmente, algu...

RITA

Era sexta-feira, a primeira sexta-feira de Setembro, um vento quente e seco deixava em desalinho o cabelo que ia afastando da frente da cara enquanto pensava se não seria melhor esperar pela Rita dentro do bar. Mas fui ficando, com uma mão segurava o cabelo, com a outra segurava as páginas do livro que há vários dias me acompanhava. Parecia não ter fim ... ou era eu que não lhe dedicava a atenção suficiente para lhe ver o fim. Finalmente a Rita chegou. Sorridente, de passo apressado, maquilhagem quase apagada, a sua enorme carteira e os sapatos de meio salto. Nem sei há quanto tempo conheço a Rita, lembro-me da Rita na faculdade, mas antes disso já nos havíamos encontrado numa festa, em casa de uma prima (minha ou dela). Nunca fomos amigas intimas mas o tempo e as circunstâncias, que ora nos aproximavam, ora nos afastavam, teceram entre nós uma relação confortável, afectuosa, de mútua admiração e compreensão.  - Estou atrasada. Desculpa-me. - Não faz mal, estava a...