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Piodão




Um dia chegou aqui um homem, as suas roupas esfarrapadas guardavam ainda a memória de um soldado, vinha esfomeado, no rosto tinha estampado o medo e a vergonha e, nos olhos castanhos, o remorso. Quem o perseguia há muito que tinha desistido, acreditando que ele estaria morto. Escapara à fúria de Pedro mas sabia que não escaparia à fúria dos seus próprios sentimentos. Um homem não pode matar cobardemente uma mulher. Os gritos de desespero de Inês soariam para sempre na sua cabeça. Nesta aldeia aninhada no fundo de uma montanha ninguém o conhecia, a sua história e a sua culpa seriam a sua única companhia.

Hoje chegamos nós, descemos pela estrada da montanha, ingreme, com curvas perigosas, mas com bom piso e bem sinalizada. De Inverno, o gelo e neve cobrem estas paragens, são necessárias cautelas acrescidas na estrada, mas estamos no final da primavera, está um dia lindo e o sol começa a pôr-se, num jogo de luz e sombra, de montes escuros e claros. Capto na memória, por instantes a paisagem que se desvenda para mim. É muito mais do que bela, é de um infinito verde feito de muitos verdes. Entra-me pela pele, toca-me, faz-me sentir especial, na natureza tudo é único e irrepetível, não me canso de olhar apenas para guardar aquela emoção do instante em que uma folha, translucida, deixa passar a luz do sol.

Todo o caminho é maravilhoso, a estrada contorna a Serra do Açor, olhando o céu descubro uma ave de rapina no seu voo elegante, deve ser um açor, também pode ser uma águia. Uma cobra negra atravessa a estrada, vamos mais devagar, dar tempo ao animal para passar em segurança e seguir a sua vida. Tudo ali é vida e foi em busca dessa vida que viemos.

Na curva da estrada avistamos um edifício em xisto com telhado de laje, é grande, destaca-se na paisagem da montanha, é o hotel e, ali, esperam por nós. Gosto de paisagens, mas gosto sobretudo de pessoas, de pessoas felizes, a rapariga da recepção é uma dessas pessoas. Feliz. Trocamos um olhar cúmplice, perguntamos sobre os restaurantes da aldeia, ficamos a saber que há, pelo menos, dois restaurantes abertos e, é claro, há sempre o restaurante do hotel. É um dia de semana mas o hotel está praticamente cheio e há turistas na aldeia. São portugueses, na maioria pessoas com mais de sessenta anos, provavelmente reformados, mas também há turistas brasileiros e casais jovens com filhos pequenos. Desistimos da ideia de ir jantar à aldeia, vamos ficar pelo hotel, desfrutar da vista nocturna sobre a aldeia, um presépio lindo, escuro, apenas matizado pelo azul que contorna as umbreiras das portas e janelas. A pequena igreja pintada de branco presta homenagem a Nossa Senhora da Conceição. Foi aos pés dessa imagem de Nossa Senhora que rezou o assassino de Inês de Castro, pedindo a Deus a paz que não encontrava no seu coração.

Pela manha passeamos na aldeia, aventuramo-nos por um caminho estreito, quase chegamos ao Chão D’Égua mas o objectivo não era chegar a lado algum, era apenas caminhar, captar a luz do sol através das folhas das árvores, colher cerejas no caminho, apreciar o porte dos castanheiros, cheirar as ervas, afastar as urzes e giestas que invadem o pequeno trilho. Depois regressar à aldeia, ficar sentado na esplanada de um restaurantes, apreciar um copo de vinho, comer uma morcela.

Viemos pelos pequenos prazeres e levamos o prazer maior do deslumbramento. 

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