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Emoções Tecidas Neste Lugar


O meu amigo Alfredo Almeida pediu-me que escrevesse sobre os Bombeiros Voluntários da Régua, de imediato aceitei o seu convite. Reconheço agora que a minha atitude foi impulsiva e motivada por razões afetivas, pela minha paixão pela terra que me viu crescer e por esta imperiosa necessidade de invocar as raízes numa altura da vida em que já espalhamos ramos e perdemos folhas em tantos locais diferentes. Se tivesse sido mais ponderada teria, diplomaticamente, agradecido a distinção e declinado o convite. Perdi a oportunidade, nada mais me resta do que invocar as minhas memórias esparsas e cheias de fadas e duendes míticos para testemunhar o que os bombeiros foram para mim.
Em casa dos meus avós ouvíamos a sirene dos bombeiros, era um grito desesperado de socorro, atormentava o meu coração de criança e conduzia a minha imaginação para cenários terríveis de fogo e calor. Lá em casa todos se agitavam, “onde é o fogo? onde é o fogo?” A Maria descia a correr as escadas que nos ligavam à Régua, ia embrulhando o avental numa rodilha com que secava o suor que lhe escorria do rosto e regressava, alguns minutos depois, com a notícia, “o fogo é em Loureiro”. Nessa altura já a minha avó tinha telefonado para a irmã que vivia em Loureiro, assegurava-se de que estava tudo bem, que a família e os bens estavam a salvo do fatídico fogo. No entremeio das considerações da vida, lá vinha a invocação a São Marçal, que o seu cajado ajudasse os bombeiros a combater o fogo, mas também de Sta. Barbara que tinha influência sobre trovoadas e raios. Naquele tempo havia santos e auxílio divino para tudo, pelo menos em casa dos meus avós.
O quartel dos bombeiros era perto da minha escola, um pouco mais acima, logo a seguir à Alameda. Nas tardes de verão, quando paravam as chuvas e os dias começavam a crescer, ir à biblioteca dos bombeiros era uma boa desculpa para sair de casa. Recordo bem a entrada pela porta da enorme garagem onde se alinhavam os maravilhosos carros vermelhos e logo à direita uma porta menor para uma escada de madeira escura que conduzia à biblioteca. A escada era o corredor mágico para um mundo muito mais interessante do que aquele em que eu vivia, o mundo fantástico dos livros. Uma das melhores recordações da minha infância é o cheiro da biblioteca, daquele soalho de madeira corrida, das paredes cobertas de estantes fechadas por portas de janela que protegiam os livros, da mesa escura onde repousava uma caixa metálica cheia de pequenas fichas manuscritas com letra miúda. Daqueles objetos desprendia-se um odor de cera, de limpeza, de madeira e de tempo. Tenho procurado esse mesmo odor em outros locais onde descansam os livros, nunca mais voltei a encontra-lo. Devo ter lido todos os livros juvenis da biblioteca, depois passei para os clássicos da literatura portuguesa. Comecei por Júlio Diniz, mas muito rapidamente cheguei a Eça. Não foi na biblioteca dos bombeiros que formei o meu gosto literário, a coleção era conservadora e não contemplava autores que são hoje a minha principal referência cultural, mas foi lá que encontrei a inspiração para muitos sonhos, foi ali que começaram muitas viagens que só muito mais tarde eu viria a fazer.
Os bombeiros eram uma referência da vida pública, o comandante dos bombeiros uma figura prestigiada e respeitada. Com o dealbar da democracia o debate político local passava pelos bombeiros, pelos jogos de poder em torno das escolhas para a direção e dos equilíbrios que era necessário gerar entre o poder político, essencialmente autárquico e a sociedade, basicamente resumida à associação dos bombeiros e à misericórdia. Eu estava a entrar na adolescência e a minha consciência social estava em formação, queria um mundo melhor e mais justo, com mais oportunidades para todos, com mais oportunidades para mim, nascida mulher numa família de classe média, numa pequena cidade do interior e com uma curiosidade imensa e mal compreendida.
Foi por esses anos que mais uma catástrofe se abateu sobre a nossa cidade, as cheias foram devastadoras e muitas famílias ficaram desalojadas. Numa noite fria e chuvosa eu estava na rua a ajudar quem precisava, guardo comigo os olhos desesperados de uma mulher com uma criança ao colo que via ir com o rio todos os seus bens. Os bombeiros estavam lá, garantiam o sucesso das operações de salvamento, eram jovens de rostos fechados, galochas de borracha e uma força sobre-humana que se impunha à água e ao desespero dos homens.  
Quando perdi um amigo e pela primeira vez o luto cobriu o meu coração foi atrás do carro dos bombeiros que, a caminhar, homenageei a sua curta vida e acalmei a minha dor.   
Com o calor também a festa chegou à cidade. Estalou o fogo-de-artifício sobre o rio, fez-se a feira franca e as ruas apinharam-se de gente para ver a Senhora passar. Engalanaram-se as janelas e as varandas e, a abrir a procissão, vinha a fanfarra dos bombeiros. O meu olhar ficava preso nas botas brancas das raparigas e o meu coração batia ao ritmo do som das caixas dos rapazes. A fanfarra dos bombeiros fazia despertar em mim o mistério do divino que, andor a andor, a procissão ia revelando até ao momento crucial em que perante Nossa Senhora do Socorro me ajoelhava e orava.
Há 30 anos que não vivo na Régua, tenho sobre a cidade e as suas gentes o olhar de quem “está fora”, raramente partilho os seus dramas e alegrias, mas o que levo comigo onde quer que eu vá são as emoções tecidas neste lugar, onde guardo as minhas raízes. 

Comentários

  1. Minha prima, se desta vez conseguir escrever o meu comentário, quero dizer-te que gosto muito do que escreves e da maneira como o fazes. Consigo imaginar cada cena, como se a tivesse presenciado. Obrigado e continua!! Muito bom. Beijinhos
    Marina

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Querida Marina, a escrita é sempre uma forma de nos mantermos ligados. Que bom que existe este "fio" entre nós. Obrigada!
      Cristina Paula

      Eliminar
  2. Ola, minha grande amiga Cristina

    Em meu nome e em nome da Associação de Bombeiros que represento e de que, há mais de 14 anos, sou Presidente da Direcção.
    Já li e reli muitas vezes esta tua maravilhosa viagem ao centro das tuas memórias mais felizes com raízes na Régua.
    Sabes que escreves muito bem e com muita clareza e simplicidade, relembrando com perfeita nitidez os lugares, a famosa biblioteca que encantou os nossos primeiros gostos literários, os seus cheiros, as velhas madeiras, os arquivos manuscritos da funcionária, a simpática D. Lurdes, tudo no tempo certo, evocas as tragédias das cheias do rio que inundam ciclicamente a cidade, e lá estão, outra vez, os bombeiros para salvar vidas e bens, a tua alma guarda bocados da viagem de dor e luto, atrás do velho Buick que levou o teu amigo até à última morada, recordas as festas do Socorro, a sua divinal procissão, a fé das suas gentes, o calor tórrido de verão e os sons e as bonitas fardas de uma fanfarra, a fanfarra dos bombeiros ( ainda existe), que não mais esqueceste e nunca deixou de ter um significado nas primeiras lembranças e mais ternurentas emoções.
    Tudo isso faz parte de ti, da tua vida, a que escolheste, da nossa amizade que perdura com laços e elos de caminhos e rumos traçados por caminhos e ideais, em certa medida, idênticos na formação académica, e se estendem à da vida de uma associação que, há mais de 130 anos, se tornou numa referência cívica, ética e cultural da sociedade reguense, como tu bem recordas, uma das mais importante na vida pública. E até na política local. Assim foi, e penso que continua, embora seja tudo seja mais diluído na sua importância social.

    A tua crónica homenageia com paixão os bombeiros da tua terra e o universo de todos os Bombeiros. Como deixas bem evidente, dás uma importância especial à sua nobre missão humanitária.

    És encantadora a descrever as emoções tecidas no lugar que são a terra fértil das tuas raízes. Pessoalmente, como já te confidenciei, gostei e tive prazer em ler-te, e deste uma oportunidade de revisitar um mundo próprio, com a solidariedade que ilumina o nosso mundo e a nossa vida diária, (a solidariedade sobressai nas tuas palavras), construído por homens altruistas, abnegados, uma verdadeira magia de afectos e de sentimentos que nos fazem acreditar nos nossos sonhos de criança.

    Acredita que, a dado momento, esta tua crónica, fez-me voltar a subir aquelas escadas que conduzem à nossa Biblioteca, acompanhado do meu primeiro amor, como se tivesse a ternura dos 16 anos anos, à procura de um LIVRO...que não sabia que, muitos anos mais tarde, seria eu o seu autor:Memórias dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua.

    Um beijo, com amizade que não acaba nestas memórias.

    José Alfredo Almeida

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada pelas tuas palavras.
      Se é certo que escrevo para perseguir os meus próprios fantasmas é bom quando a minha escrita ajuda a acordar os fantasmas que habitam em outros sonhos...
      E tenho que ter e ler o teu livro.
      Com amizade, que o tempo não apaga.
      Cristina Paula

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