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Não Venhas




Estou sentada num pequeno muro em frente ao mar e, entre nós, a praia de um fim-de-tarde de Maio. O vento fraco e frio arrefeceu o meu nariz e um ligeiro desconforto percorreu o meu corpo. Não sei há quanto tempo estou aqui, o mar é tão bonito, as ondas a baterem nas rochas que rodeiam a pequena praia acalmam os meus pensamentos. Vim até aqui para pensar, para organizar os meus pensamentos e para decidir a minha vida, mas o mar, o vento, o barulho e o cheiro deste local tomaram conta de mim, do meu corpo e da minha mente. Não sobra espaço para o pensamento. Não sei ao certo que horas são, fico por mais alguns minutos, não reflecti sobre os meus problemas nem tomei nenhuma decisão, continuo sem saber o que fazer  mas estou tranquila, há em mim uma rara harmonia. Entro no carro e pela primeira vez em muitos dias sinto fome, uma vontade enorme de me sentar em frente de um bife com batatas fritas e uma cerveja preta. 

Há momentos em que nada é mais importante do que um bom bife com batatas fritas e uma cerveja preta. Como sozinha, sentada na mesa mais central da cervejaria, ali estou no local onde tudo acontece, onde os amigos se encontram, onde se realizam os pedidos e se formulam os desejos. Reparo nas famílias, nos grupos de amigos, nos casais e sinto a estranheza dos outros ao perceberem que estou sozinha. Sorrio para as pessoas, falo com uma criança que se aproxima de mim, pago a minha conta e vou para casa.

Estou cansada, tenho sono, quero chegar à minha cama, deitar-me e dormir um sono sem sonhos. Tudo acontece segundo o meu desejo, chego a casa, deito-me na cama desfeita sem tirar a roupa, adormeço profundamente e sou acordada a meio do meu sono pelo toque do telemóvel: - "Hoje chego tarde." Eu respondo: - " Não venhas."  

Comentários

  1. Gostei! Está muito bem escrito. Muito corrido, muito fluido, muito natural e verosímil.

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  2. Delicioso pequeno conto. Fique lá com o bife e dê-nos mais destas suculentas micro-narrativas. :)

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