Sempre gostei de teatro, tenho pelo teatro um profundo amor, um amor confortável, sereno, seguro, que não me decepciona nem me desilude. Não é uma paixão é mesmo um grande amor. Amar desta forma significa que não saio decepcionada de um espectáculo. Os actores podem ser canastrões, o texto ser mau, não se dar conta da encenação, a sala estar demasiado quente ou fria, ainda assim eu gosto de ir ao teatro. Há alturas que me afasto, fico longe por muito tempo e regresso, como só um grande amor permite regressar. Mas também há alturas que ao meu amor se soma a paixão. Saio arrebata de um espectáculo. As palavras das personagens perseguem-me durante dias, ao menor descuido instalam-se na minha imaginação, tomam conta dos meus momentos ausentes.
Algumas pessoas, sabendo que vou muito ao teatro, fazem-me perguntas sobre actores, sobre peças, sobre dramaturgos, raramente sei as respostas. Quanto aos actores apenas conheço os nomes dos meus amigos ou, muito excepcionalmente, algum cujos personagens me marcaram mais profundamente. Mas afinal quem quer saber dos actores se temos os personagens? São os personagens que me apaixonam, com eles posso construir novas histórias e enriquecer o meu mundo.
Tenho alguns livros de teatro, não tanto sobre teatro mas textos de teatro, dramaturgia. Todos oferecidos. Com excepção de uma "história do teatro" não devo de ter lido nenhum, não tenho imaginação suficiente para isso, eu preciso que tudo me seja servido num palco e anseio, sobretudo, por pessoas que encarnem os meus fantasmas, me digam o que sentem e me façam sentir.
Esta semana fui duas vezes ao teatro e estou de novo apaixonada.

No teatro dos sonhos, a sala estava cheia. As luzes apagaram-se.
ResponderEliminarPum!... Pum!... Pum,pum,pum!
Não se ouvia uma mosca. Subiu o pano e uma figura surgia descalça sem se mexer, não dizia nada! Todos sentiram o barulho do seu respirar, lento, pausado, quase até parar. Aquele brilho, dos seus olhos, bem no meio de tanta escuridão, disse aquilo que cada um estava à espera, aquilo que cada um queria dizer, mas não era capaz. Será que é um jogo?
Ao longe, sentada numa cadeira, alguém sentia na pele o ar daquela sala que a sufocava. Sombras de silêncio tomavam conta, para que nada falhasse. As preces e os queixumes, a raiva e a incerteza, as máquinas. O tempo parou! Na plateia ouve quem suspirasse, e por baixo da cortina de fumo que tinha à sua frente, visse na penumbra o calor do silêncio. Quem está aí? Perguntou baixinho, aquela figura descalça. Ninguém ouviu. Uma voz gritou bem alto, lá do camarote, “é a branca de neve”!
Como não era mais um filme do César Monteiro, mudaram de cenário. Acenderam-se os holofotes, abriram-se as janelas, pararam as máquinas e tudo continuou em silêncio. As sombras, já não eram mais sombras. Não paravam, giravam por todo o lado, chegavam para depois partir e tornavam a voltar! Negociavam o tempo.
Ouviu-se uma melodia suave e o tempo, aquele que não volta a trás, podia continuar parado. O brilho que nunca desapareceu ouvia-se por toda a sala, como se ouvia o silêncio. Era só o começo de uma longa caminhada, que se adivinhava tão difícil quanto desgastante, intensa, e que não cabia num só acto. Podemos representar mas não era permitido desistir, tudo o que havia para enfrentar fazia parte daquele compromisso. Sem hesitar, com cautelas, medindo os passos naquele lamaçal cheio de armadilhas, só restava escolher o caminho certo e avançar, devagarinho.
No meio dos aplausos e das vénias próprias de um teatro, sentada na mesma cadeira lá longe, ficou uma mão estendida a segurar o tempo. O tempo que fosse preciso.
The show must go on!
Nota: este texto a que chamei "Molière" é dedicado à minha filha Sofia.