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Mensagens

O Jardim

Cada um de nós tinha um segredo guardado atrás de um qualquer banco daquele Jardim. Todos nós atravessavamos a rua, discretos, contornavamos a frente do jardim, aquela que se abria ampla para o Paço do Munícipo e, subindo a rua, procuravamos a pequena vereda que descia em direcção à parte de trás do coreto. Em tempos, nos idos anos de meados do século passado, por esse mesmo caminho desciam, todos os Domingos, os músicos da banda que animava a saída da missa e enchia de som e alegria as manhãs quentes e ensolaradas. Quando nós começamos a procurar a paz, a sombra e a magia do Jardim há muito que este tinha perdido a música dominical. O coreto envelhecia tristemente, as tábuas do palco, ora húmidas, ora ressequidas, não eram mais pisadas pelo aprumo dos músicos, apodreciam esquecidas da beleza do som. A cobertura já não o protegia das chuvas e o coreto acumulava a tristeza do abandono. O Jardim não tinha sido a nossa primeira ...

Silêncio

Eu fiquei de olhos fechados a ouvir a água do teu banho a correr. Deixei-me ficar ali, acordada mas de olhos fechados, a procurar na memória cada detalhe do quarto. Estava deitada, o teu cheiro estava por todo o lado e conhecia-o demasiado bem, tudo o resto me era estranho. Não tinha vontade de acordar, nem tinha vontade de ficar alí, se ao menos tu cantasses no duche ... mas não, tudo é silêncio entre nós. Levantei-me quando te vi chegar, forçaste um sorriso que eu retribui com mais silêncio. Era a minha vez de usar a casa-de-banho e o cheiro do teu perfume invadia tudo. Apesar de intenso, eu sabia que aquele cheiro não me acompanharia, não se colaria à minha pele, nem à minha roupa e não deixaria qualquer impressão na minha memória. Também não guardaria recordações daquele local, não saberia dizer a cor das paredes, a disposição dos móveis ou sequer o nome das flores de que gostei tanto. Também não guardei...

Não Venhas

Estou sentada num pequeno muro em frente ao mar e, entre nós, a praia de um fim-de-tarde de Maio. O vento fraco e frio arrefeceu o meu nariz e um ligeiro desconforto percorreu o meu corpo. Não sei há quanto tempo estou aqui, o mar é tão bonito, as ondas a baterem nas rochas que rodeiam a pequena praia acalmam os meus pensamentos. Vim até aqui para pensar, para organizar os meus pensamentos e para decidir a minha vida, mas o mar, o vento, o barulho e o cheiro deste local tomaram conta de mim, do meu corpo e da minha mente. Não sobra espaço para o pensamento. Não sei ao certo que horas são, fico por mais alguns minutos, não reflecti sobre os meus problemas nem tomei nenhuma decisão, continuo sem saber o que fazer  mas estou tranquila, há em mim uma rara harmonia. Entro no carro e pela primeira vez em muitos dias sinto fome, uma vontade enorme de me sentar em frente de um bife com batatas fritas e uma cerveja preta.  Há momentos em que nada é mais importante do que ...

TEATRO

Sempre gostei de teatro, tenho pelo teatro um profundo amor, um amor confortável, sereno, seguro, que não me decepciona nem me desilude. Não é uma paixão é mesmo um grande amor. Amar desta forma significa que não saio decepcionada de um espectáculo. Os actores podem ser canastrões, o texto ser mau, não se dar conta da encenação, a sala estar demasiado quente ou fria, ainda assim eu gosto de ir ao teatro. Há alturas que me afasto, fico longe por muito tempo e regresso, como só um grande amor permite regressar. Mas também há alturas que ao meu amor se soma a paixão. Saio arrebata de um espectáculo. As palavras das personagens perseguem-me durante dias, ao menor descuido instalam-se na minha imaginação, tomam conta dos meus momentos ausentes.  Algumas pessoas, sabendo que vou muito ao teatro, fazem-me perguntas sobre actores, sobre peças, sobre dramaturgos, raramente sei as respostas. Quanto aos actores apenas conheço os nomes dos meus amigos ou, muito excepcionalmente, algu...

RITA

Era sexta-feira, a primeira sexta-feira de Setembro, um vento quente e seco deixava em desalinho o cabelo que ia afastando da frente da cara enquanto pensava se não seria melhor esperar pela Rita dentro do bar. Mas fui ficando, com uma mão segurava o cabelo, com a outra segurava as páginas do livro que há vários dias me acompanhava. Parecia não ter fim ... ou era eu que não lhe dedicava a atenção suficiente para lhe ver o fim. Finalmente a Rita chegou. Sorridente, de passo apressado, maquilhagem quase apagada, a sua enorme carteira e os sapatos de meio salto. Nem sei há quanto tempo conheço a Rita, lembro-me da Rita na faculdade, mas antes disso já nos havíamos encontrado numa festa, em casa de uma prima (minha ou dela). Nunca fomos amigas intimas mas o tempo e as circunstâncias, que ora nos aproximavam, ora nos afastavam, teceram entre nós uma relação confortável, afectuosa, de mútua admiração e compreensão.  - Estou atrasada. Desculpa-me. - Não faz mal, estava a...

"Tradições que Vivem"

 Fundação INATEL, que se encontra acreditada como Organização Não-Governamental apta a prestar serviços de consultoria ao Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da UNESCO, organiza em conjunto com a Comissão Nacional da UNESCO, um Encontro sobre Património Cultural Imaterial onde as associações culturais que desenvolvem trabalho na área do PCI, representando as suas comunidades, e os académicos ( antropólogos, etnomusicólogos, etc. ) se possam reunir num diálogo aberto sobre o Património Cultural Imaterial e sobre a Convenção para a sua salvaguarda. Neste Encontro, as colectividades associadas à Fundação e outras instituições da sociedade civil terão o seu espaço para mostrar e apresentar o seu trabalho em termos de salvaguarda do seu PCI, promovendo a reflexão e sensibilização para o tema. O Programa do Encontro compreenderá quatro painéis ( “As Instituições e a Convenção para a Salvaguarda do PCI”, “Tradições Orais”, “Artesanato e o Saber ...

Sangue jovem

Sigrid, uma mulher só, na casa dos sessenta, sem vida pessoal e uma carreira artística congelada, sente-se envelhecer e decide libertar-se de fantasmas do passado. A sua relação com duas amigas de escola impediram-na de ser mulher e é hoje vivida como uma prisão. A reunião anual entre as três mulheres tornou-se num ritual insuportável para Sigrid, a cada reunião retoma-se a dinâmica infantil e cruel, e o confronto “entre as feridas antigas e as dores do presente” é-lhe cada vez mais violento. Este ano, Bet e Lily são postas à prova quando Sigrid, farta de ser a Sigge, a “amiguinha estranha”, paga ao filho dos vizinhos, um jovem ator chamado Allan, para se fazer passar por seu amante. Allan, fascinado pelo mistério que envolve Sigrid, aceita a proposta. Perante a notícia da doença de Bet, Sigrid hesita em levar o plano a avante e é Allan quem assume o papel de vingador, crente, por momentos, na possibilidade de um amor entre os dois. Sangue jovem

FIM-DE-SEMANA

Olá! Disse-me Maria sem tirar os olhos do computador. Olá! Respondi mecanicamente. Quando me sentei na secretaria em frente, reparei que Maria tinha o olhar de uma criança assustada, que o seu corpo era frágil e que o seu sorriso escondia uma profunda tristeza. De onde vinha aquela tristeza de Maria? Provavelmente de lugar nenhum, seria apenas a minha imaginação em busca de histórias tristes e complexas nos rostos de pessoas simples. Maria interrompe os meus pensamentos com uma pergunta trivial: - Como foi o fim-de-semana? Normal, como todos os outros, fiquei em casa a arrumar o quarto dos miúdos, a passar a ferro, a cozinhar para toda a semana.... ainda tive tempo para pintar o cabelo e arranjar as unhas – respondo de rajada. Não lhe pergunto nada, mas Maria diz-me: - Passei o sábado no hospital com o Raul, a mudança de tempo é terrível para os asmáticos, o Raul teve falta de ar e passamos uma boa parte da tarde de sábado na urgência do hospital, nos aerossóis. Finjo interes...

(2) O AMOR

"Nunca ter desilusões no amor é um privilégio dos imbecis." Provérbio  Nunca esperei pela minha história de amor, estava tão certa que ela me apanharia, que era tão inevitável, que o melhor mesmo seria aproveitar o tempo de que dispunha. Nesta certeza crescer foi fácil, com o encanto das roupas para bonecas, das camisolas de lã e dos livros. Não gostava de "bonecos chorões", que pareciam bebés, interessavam-me especialmente as bonecas elegantes, que eu podia vestir, despir e pentear. A minha boneca predilecta falava, apertava-lhe a barriga e ela dizia: - "buenos dias, habla comigo". Era espanhola. Um dia o meu irmão decidiu desvendar o mistério da boneca falante e arrancou-lhe do peito um pequeno disco de plástico e duas pilhas. Quebrou-se o encanto, deixei as bonecas e dediquei-me definitivamente aos livros. Os livros faziam parte da decoração lá de casa, havia livros bonitos, encadernados, que o meu pai comprava em colecções, por autores. Não e...

(1) O AMOR

"Parece-me fácil viver sem ódio, coisa que nunca senti. Mas viver sem amor acho impossível." Jorge Luís Borges Cresci no meio de histórias de amor, cada uma das pessoas do meu mundo tinha uma história de amor para contar, eu própria era o resultado de uma bela história de amor. Todos à minha volta estavam condenados a viver as suas histórias de amor. A Maria, que logo pela manhã chegava com o pão ainda quente e se sentava num banco, encostada ao balcão da cozinha, a comer as sopas de café com as sobras de pão da véspera, aceitava o mau vinho do José, porque, tirando isso, ele até era bom homem e ela prometera, perante Deus e os homens, amá-lo. Quando o José bebia e a Maria chegava com os olhos inchados e o corpo negro, as mulheres da casa confortavam-na e não raras vezes ouvi a minha avô a ralhar com o José: - "que isto não podia ser" "que a Maria não merecia." O José ouvia calado, com os olhos marejados de lágrimas, implorando um silencioso pe...

POLÍTICA E JUSTIÇA

"O meu ideal político é a democracia, para que todo o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado." Albert Einstein Quase que prometi a mim mesma não escrever sobre política, afinal queria que este espaço fosse intimista e que tocasse as nossas emoções mais profundas. Erro meu pensar que seria possível a emoção sem a política, afinal como nos diz André Chamson "t odos os nossos pensamentos tocam na política." O facto que tem estado no centro da discussão política nacional nos últimos dias tem sido a ocultação da dívida pública da Região Autonoma da Madeira, cujas consequências para as contas nacionais e para a credibilidade de Portugal perante os seus credores e parceiros internacionais, dentro e fora da Europa, estão ainda por avaliar em todas as suas dimensões. Perante esta situação levantaram-se logo as vozes exaltadas dos que gritavam: "- Prendam-no!". E, como não podia deixar de ser, reclamava-se já a prisão de mais uns quantos polític...

O ENCONTRO

"Quem é um amigo? - Um outro Eu" Zenão Eléia Ontem uma amiga disse-me: - "Quero agradecer-te. Faz hoje 5 anos que me levaste a conhecer um amigo teu, que é hoje meu grande amigo." Recordei exactamente esse dia, como lhe falei do meu amigo e como me parecia importante que ela o conhecesse. E lá fomos as duas a casa dele. Como sempre, o Alfredo recebeu-me calorosamente. Abraçou-me e abraçou a minha amiga como se a conhecesse há muitos anos. Ficamos ali os três, era uma tarde de fim-de-verão mas ainda não se ouvia a chegada do outuno. Eu falei de mim, informações gerais sobre o trabalho, as minhas filhas, os meus projectos, o Alfredo ouviu-me com atenção e alegrou-se com as boas notícias. Depois a minha amiga falou da sua tristeza, trazia com ela as dores dos filhos, as duvidas sobre o trabalho, as mágoas de velhos amores. E ele olhou-a e deu-lhe conselhos, recomendou-lhe coisas simples - "dorme bem", "come bem, legumes, cereais integrais...

A LANTERNA

"Se o homem carrega a sua própria lanterna, não precisa de ter medo do escuro." Provérbio Judaico Desde criança que escrevo. Escrever foi a formula secreta de vencer o medo, ou melhor, de ir vencendo os meus medos. Escrever é a minha maneira de avaliar e meditar sobre as coisas que vão acontecendo, mas é também a melhor forma de fazer as coisas acontecer. Ao longo dos anos escrevi dezenas de cadernos a que chamei "diários", muitos se perderam (da minha infância e da juventude não resta nenhum) mas nos últimos tempos tenho tido alguma preocupação em conservá-los, cuidar deles.  Nas longas noites da vida a escrita tem sido a minha lanterna e foi ela que muitas vezes me salvou das trevas. Escrever obriga-me a corrigir os pensamentos, a prespectivar as emoções, a avaliar os meus muitos medos e a perceber que há sempre, pelo menos, duas opções: a minha e a outra, que eu invento. Decidi começar este blog porque me torn...