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(1) O AMOR



"Parece-me fácil viver sem ódio, coisa que nunca senti. Mas viver sem amor acho impossível."
Jorge Luís Borges



Cresci no meio de histórias de amor, cada uma das pessoas do meu mundo tinha uma história de amor para contar, eu própria era o resultado de uma bela história de amor. Todos à minha volta estavam condenados a viver as suas histórias de amor. A Maria, que logo pela manhã chegava com o pão ainda quente e se sentava num banco, encostada ao balcão da cozinha, a comer as sopas de café com as sobras de pão da véspera, aceitava o mau vinho do José, porque, tirando isso, ele até era bom homem e ela prometera, perante Deus e os homens, amá-lo. Quando o José bebia e a Maria chegava com os olhos inchados e o corpo negro, as mulheres da casa confortavam-na e não raras vezes ouvi a minha avô a ralhar com o José: - "que isto não podia ser" "que a Maria não merecia." O José ouvia calado, com os olhos marejados de lágrimas, implorando um silencioso perdão. - "Vá lá homem tens que saber beber". Gritava-lhe o meu avô do fundo do corredor. E o José murmurava: -"Eu gosto dela, não poderia viver sem ela, mas tenho mau vinho ..." Também o José tinha a sua história de amor.

A história de amor dos meus avós era a mais antiga história de amor lá em casa. Havia outras, ainda mais antigas, mas dessas eu só ouvira falar. Por amor a minha avó até tinha trabalhado durante algum tempo, nos primeiros anos de casada. A vida era difícil, o mundo estava em guerra e ela tinha que ajudar o marido. Felizmente as coisas melhoraram e por amor ela dedicou a sua vida a cuidar da sua casa, dos seus filhos, do seu marido e das suas maravilhosas roseiras. Mas o seu amor não era em vão, como me parecia ser o amor da Maria. O meu avô era atencioso, um bom "chefe de família", homem trabalhador, temente a Deus e respeitado. O meu avô  não falava de amor como as mulheres, mas eu sabia que quando ele chegava a casa com o queijo da serra, com uma bola-de-lamego ou com as primeiras cerejas da época isso era por amor à minha avó.

A mais fascinante e bela história de amor, aquela que apenas a minha avó testemunhara e da qual nos dava vagas noticias, era a história de amor da sua irmã, a minha tia-avó. Há muitos anos tinha jurado amor eterno a um jovem estudante de Coimbra que morrera tuberculoso. Foi fel à sua promessa e por amor dele viveu dedicada aos irmãos, aos sobrinhos e a si própria. Morreu num lar, muito velhinha,  três dias antes de completar 100 anos, agradecendo a Deus a sua longa vida. Herdei dela um guarda-jóias, uma pequena peça de madeira, decorada a madrepérola e prata. Gosto de imaginar que aquele guarda-jóias terá sido um presente do seu amado, um testemunho desse amor distante.

Desde cedo soube que também eu teria a minha história de amor.

(Continua)

Comentários

  1. Ola C.

    Bom dia.
    Gostei de ler o teu afectuoso texto em volta de velhas histórias de amor e de tentar adivinhar (de imaginar, talvez) o que está além das tuas palavras construídas sobre o fio da tua memória duriense.

    Há sempre velhas caixas que guardamos e que revelamos misteriosos segredos da nossa identidade e de nós mesmos.

    As tuas histórias de amor revelam também pessoas próximas de ti, de um tempo diferente do teu, que souberam viver à sua maneira a sua vida. Ou melhor: o amor.

    O que seria vida sem o amor? Encontrei ao que parece uma possível resposta no pequeno romance com o título " O agave só floresce uma vez", do Prof Eurico Figueiredo, da editora Gradiva(2011).Tudo o que resta, é a memória do que vivemos.

    Teu amigo
    Zé Alfredo ( no Douro)

    ResponderEliminar
  2. Alfredo, não sei como isto foi possível, mas só hoje vi o teu comentário a este meu texto. Muito obrigada pelas tuas palavras. Estamos de acordo quanto nos interrogamos: - O que seria a vida sem amor? Eu acrescento: - O que seria a vida sem memória?.
    Saudades tuas, meu Amigo
    Cristina Paula

    ResponderEliminar

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