"Nunca ter desilusões no amor é um privilégio dos imbecis."
Provérbio
Nunca esperei pela minha história de amor, estava tão certa que ela me apanharia, que era tão inevitável, que o melhor mesmo seria aproveitar o tempo de que dispunha. Nesta certeza crescer foi fácil, com o encanto das roupas para bonecas, das camisolas de lã e dos livros. Não gostava de "bonecos chorões", que pareciam bebés, interessavam-me especialmente as bonecas elegantes, que eu podia vestir, despir e pentear. A minha boneca predilecta falava, apertava-lhe a barriga e ela dizia: - "buenos dias, habla comigo". Era espanhola. Um dia o meu irmão decidiu desvendar o mistério da boneca falante e arrancou-lhe do peito um pequeno disco de plástico e duas pilhas. Quebrou-se o encanto, deixei as bonecas e dediquei-me definitivamente aos livros.
Os livros faziam parte da decoração lá de casa, havia livros bonitos, encadernados, que o meu pai comprava em colecções, por autores. Não eram esses os livros que me interessavam, eram outros, pequenos, de capa mole, que comprava no Porto. Nos meus aniversários todos os meus amigos me ofereciam livros, a família oferecia-me roupa e sapatos. O meu interesse pela leitura era apreciado lá em casa o que facilitava a compra dos livros, isto apesar de nenhum deles mostrar qualquer interesse especial por ler.
Comecei pelos livros juvenis, a série "Os Cinco", mas rapidamente passei para os livros de aventuras que lia com a ajuda de um atlas gigante do Circulo de Leitores. Depois foram os romances, os clássicos portugueses e quase por acaso descobri Pearl Buck. Li todos os seus livros, os traduzidos e apaixonei-me por todos os lugares distantes e exóticos dos seus romances. Mais do que nunca o atlas era imprescindível. O meu gosto pelas viagens começou nos livros, sonhava percorrer o mundo.
Teria 14 anos quando começou o meu interesse pela política. Não foi uma opção, foi uma imposição. A minha verdadeira paixão era o teatro, mas naquela pequena cidade não havia teatro. Não havia grupos de teatro e o cine-teatro raramente recebia companhias. Ali nada mais restava do que a política e o atletismo, dediquei-me a ambos. Entre os 15 e os 17 anos tive um único objectivo: conhecer o mundo e dar-me a conhecer ao mundo. A militância numa organização política de juventude deu uma ajuda: havia reuniões em outras cidades, novos conhecidos, jovens que vinham de Lisboa, era uma janela para o mundo.
Foi nessa altura que a minha história de amor me apanhou, pelo menos foi isso que pensei durante as férias de verão. Quando o outono chegou e a vida regressou à normalidade eu não senti a ausência do meu amor, não senti que me faltasse alguma coisa e admiti que, a ser assim, eu não o amava. Foi a minha primeira desilusão de amor.
Esta é parte de uma história contada na primeira pessoa, curiosidade, irritação, desalento, irreverência juvenil, ambição e amor. Lindo, AMOR! Amor I LOVE YOU!
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