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O ENCONTRO



"Quem é um amigo? - Um outro Eu"
Zenão Eléia

Ontem uma amiga disse-me: - "Quero agradecer-te. Faz hoje 5 anos que me levaste a conhecer um amigo teu, que é hoje meu grande amigo." Recordei exactamente esse dia, como lhe falei do meu amigo e como me parecia importante que ela o conhecesse. E lá fomos as duas a casa dele.

Como sempre, o Alfredo recebeu-me calorosamente. Abraçou-me e abraçou a minha amiga como se a conhecesse há muitos anos. Ficamos ali os três, era uma tarde de fim-de-verão mas ainda não se ouvia a chegada do outuno. Eu falei de mim, informações gerais sobre o trabalho, as minhas filhas, os meus projectos, o Alfredo ouviu-me com atenção e alegrou-se com as boas notícias. Depois a minha amiga falou da sua tristeza, trazia com ela as dores dos filhos, as duvidas sobre o trabalho, as mágoas de velhos amores. E ele olhou-a e deu-lhe conselhos, recomendou-lhe coisas simples - "dorme bem", "come bem, legumes, cereais integrais", "descansa e medita". Enquanto lhe falava num tom de voz suave e baixo, pegou-lhe nas mãos e acariciou-as. Eu prendi-me naquele gesto suave e terno, fiquei a vê-la sorrir. Por fim, o Alfredo pediu-nos silêncio, fechamos os olhos, meditamos (eu pensava no que ainda tinha que fazer até ao final do dia) e cantamos, ou melhor, recitamos em voz alta um mantra melodioso.

Na viagem de regresso a minha amiga estava em paz, mas também estava fascinada com aquele homem bonito, alto, de barbas e cabelos brancos, no final dos cinquentas ... Um homem belo e fascinante. Eu perguntava a mim mesma porque razão não havia ainda reparado na sua beleza e sensualidade. Admirava a sua inteligência, dava-me prazer a sua gargalhada sonora que se soltava do funda da alma e me contagiava de alegria. Tinha conversado com ele durante horas e nunca me havia faltado assunto, mas faltou-me aquele sentimento de femea que reconhece um macho. E foi exactamente essa emoção que a minha amiga sentiu, a primeira, a mais visceral das emoções humanas, aquela que, num relance, nos desperta para a existência de nós mesmos.

Prometi a mim mesma procurar na arca dos sentimentos aprisionados aquele que estava a fazer-me falta. A minha amiga prometeu ajudar-me, foi-me falando como mulher, contou-me histórias sagradas de deusas antigas e depois contou-me histórias de outras mulheres como se fossem a sua própria história. Eu ouvia as histórias e a minha imaginação tornava-as ainda mais fantásticas, mais misteriosas e mais maravilhosas. 

Passaram cinco anos e nenhuma de nós esqueceu esse encontro. Ela ganhou um grande amigo, que mudou para sempre a sua vida. Eu ganhei um pouco mais de mim mesma, o que também mudou a minha vida. Falta-me saber o que ganhou o Alfredo ...

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