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FIM-DE-SEMANA


Olá! Disse-me Maria sem tirar os olhos do computador.
Olá! Respondi mecanicamente. Quando me sentei na secretaria em frente, reparei que Maria tinha o olhar de uma criança assustada, que o seu corpo era frágil e que o seu sorriso escondia uma profunda tristeza. De onde vinha aquela tristeza de Maria? Provavelmente de lugar nenhum, seria apenas a minha imaginação em busca de histórias tristes e complexas nos rostos de pessoas simples.

Maria interrompe os meus pensamentos com uma pergunta trivial: - Como foi o fim-de-semana? Normal, como todos os outros, fiquei em casa a arrumar o quarto dos miúdos, a passar a ferro, a cozinhar para toda a semana.... ainda tive tempo para pintar o cabelo e arranjar as unhas – respondo de rajada. Não lhe pergunto nada, mas Maria diz-me: - Passei o sábado no hospital com o Raul, a mudança de tempo é terrível para os asmáticos, o Raul teve falta de ar e passamos uma boa parte da tarde de sábado na urgência do hospital, nos aerossóis. Finjo interessar-me pela asma do filho de Maria. É fácil estabelecer conversa quando o tema são os filhos, todas as mulheres gostam de falar dos seus filhos e todas as mulheres fingem interessar-se pelos problemas dos filhos das outras.
 
O computador está agora a funcionar, dou uma vista de olhos no outlook à procura de alguma mensagem diferente, à espera de algo realmente novo, continuo a acalentar uma certa esperança de que uma revelação mágica chegue num e.mail, mas ainda não é hoje. Lá estão os habituais anúncios a uma nova pílula que promete uma sexualidade vibrante e apaixonada, publicidade a um novo PC e algumas mensagens de amigos e conhecidos, umas com fotografias, outras com histórias divertidas ou com pensamentos profundos. Pergunto-me acerca do tipo de pessoas que se dedicam a produzir estes e.mails, a verdade é que os há maravilhosos e, também, horríveis, alguns chegam na hora certa e ficam guardados por muito tempo, outros têm como destino imediato o “caixote do lixo” electrónico.

Na sala ao lado os meus colegas conversam animadamente, apenas eu e Maria estamos no nosso sítio numa aparência de trabalho, ela bate rapidamente no teclado e eu finjo concentrar-me numa mensagem importante, numa informação decisiva que acabo de obter. Nem ela, nem eu estamos interessadas na conversa dos nossos colegas. Os risos soam alto na sala ao lado, as vozes sobrepõem-se e apesar da proximidade, apenas uma parede nos separa, não é possível destinguir o que cada um diz. Não há telefones a tocar, nem dossiês a passar de mão em mão, nem assuntos para tratar, nem projectos novos, só risos na sala ao lado e a inconsciência de quem se sente seguro, seguro de si, seguro do lugar que ocupa na organização.

De repente, uma insegurança profunda invade-me, sinto a precariedade dos dias, sinto a necessidade de um sorriso autêntico e de uma preocupação sincera. Pergunto a Maria como acordou hoje o seu filho. De novo, o sorriso triste invade o seu rosto e responde: - “bem, graças a Deus bem”. A conversa fica por aqui, espero que Maria tenha percebido a minha preocupação sincera com o estado de saúde do seu filho. Digo para mim mesma que incluirei Raul no rol das pessoas por quem rezo todas as noites. Na sala ao lado os risos desapareceram, agora são as vozes que soam mais alto, algumas altercadas e duras, uma discussão, um desentendimento entre eles e rapidamente os risos deram lugar às palavras duras, a uma desmedida agressividade. Cada um volta ao seu gabinete, amargo, mais sem vontade de fazer nada. E a manha corre lenta, é quase meio-dia.

Finalmente seis da tarde, finalmente sexta-feira. Olho por cima do écran do computador e através da janela vejo a rua, uma nesga de vida fora das paredes do gabinete. Maria penteia o cabelo descolorado, o seu rosto abre-se num sorriso menos triste, este fim-de-semana vai ao Fundão, à terra da sua infância, vai ver os pais, o irmão, a cunhada e os dois sobrinhos. Sai apressada, ainda tem tantas coisas para preparar e o fim-de-semana é tão curto.... Volto a olhar para a rua e penso no que vou fazer para o jantar, ainda tenho que passar no supermercado, depois penso na roupa pendurada no varal, na chuva que não a deixou secar, no quarto desarrumado dos miúdos, no almoço que tenho de retribuir, nas embalagens de alumínio onde congelo comida para toda a semana, finalmente penso que o fim-de-semana chegou, é, finalmente, sexta-feira.

(Escrito em 2 de Nov.2005)

Comentários

  1. Eu gosto deste conto, sinto realismo nesta pequena história, sinto que bem pode retratar momentos do quotidiano de muitas pessoas. Acho que se enquadra bem na moldura do universo dos afectos, dos sentimentos, das relações dos seres, dos seus afazeres e do que, por força da superficialidade da convivência quase negamos, até que o nosso eu, se interponha. O conto tem em si uma vivência imaginada pela autora, ou registada na memória dos seus saberes. O conto prende-me a atenção, de cada vez que atinge o meu sentido da visão.

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