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Longe do Mar (1)




Conheci o Manuel num restaurante, no jantar de aniversário de uma colega de trabalho. Foi fácil perceber que o Manuel era um dos seus amigos de eleição, uma amizade dos tempos de faculdade. O Manuel estava sozinho, a sua mulher, Raquel, estava em viagem. Nesse fim-de-semana participava num encontro informal de mulheres escritoras. Fiquei a saber que a Raquel não é escritora, no sentido que habitualmente damos à palavra, ela faz critica literária e é uma conceituada filóloga. O Manuel e a Raquel são casados há mais de 20 anos e todos, sem excepção, os consideram o casal modelo. Ninguém, naquele grupo, tinha aguentado tanto tempo um casamentos e, agora, todos entrados nos cinquentas, contávamos as vidas pelo número e qualidade das relações acumuladas. Muitos ainda perseguiam o sonho de encontrar o grande amor, acreditavam na alquimia que transformaria encontros vulgares, com pessoas comuns, em feitos extraordinários. Eu vivia entre as duas margens, não desacreditava no amor e não acreditava na alquimia. 

O Manuel estava de bem com a vida, conversava com todos animadamente. Rapidamente me apercebi que o Manuel era especialmente atento a quem necessitava de mais atenção e que tinha a palavra certa, o gesto pronto e uma inteligência viva. As qualidades do Manuel não seriam, certamente, indiferentes à duração do seu casamento. Com o correr da noite vieram as fotos, os posts do facebook e lá acabei por adicionar o “amigo” Manuel e conhecer, ainda que virtualmente, a Raquel. Vi o seu perfil, e lá estava, tinha estudado na Universidade de Coimbra e eu conhecia-a. A mulher do Manuel tinha sido a namorada do Simão, o mais talentoso e romântico dos meus colegas de curso. 

Há tantos anos que não sabia nada deles, mas recordava muito bem a festa do seu casamento. No último ano do curso, o Simão e a Raquel tinham casado. O casamento foi uma festa académica. Cerimónia religiosa na Capela de S. Miguel, capas pousadas aos pés dos noivos, almoço e festa, pelo dia e pela noite, no bar de Direito. O Simão era querido de todos, tocava guitarra de Coimbra, compôs algumas das mais belas canções de Coimbra dos anos 80, muitas delas dedicadas à Raquel. Nós, os amigos do Simão, sabíamos pouco da Raquel, mas sabíamos que o Simão amava a Raquel e que a Raquel amava o Simão. Cada um vivia à sua maneira. O Simão era exuberante, passava as noites na boémia  dos fados e da sua amada Estudantina. Os dias na faculdade eram alegres e a sua excepcional inteligência e encanto eram a porta aberta para as ajudas dos colegas na preparação dos exames e uma certa complacência dos professores nas provas orais. Entre música, risos, códigos e amigos o Simão tinha terminado o curso e casado com a serena Raquel.

O Manuel mostrou-me a foto da Raquel e dos quatro filhos. Uma família linda, sorridente, bem sucedida. Sorri para o Manuel e comentei que a Raquel tinha estudado na Universidade de Coimbra na mesma altura que eu, que tínhamos frequentado faculdades diferentes, mas que tínhamos sido contemporâneas. O Manuel não mostrou qualquer interesse nesse facto, limitou-se a sorrir e eu retribui o sorriso. 

Nessa noite, depois da festa, quando cheguei a casa, enviei uma mensagem à recém-descoberta Raquel e combinamos tomar um café, na terça-feira seguinte, ao final da tarde, no Campo Pequeno, perto da sua Universidade.

Reconheci a Raquel de imediato e, apesar de nunca termos sido amigas intimas, abraçamo-nos emocionadas. O que nos ligava era o Simão e, agora, o Manuel. Mas era o Simão que povoava o nosso passado, esse pedaço de tempo que nos era comum. Eu queria saber o que tinha acontecido ao Simão, o que se tinha passado com eles. Raquel queria contar, senti nela a necessidade de regressar aquele tempo, com tudo o que nele havia de fantástico, de felicidade e de sofrimento. Confessei-lhe o quanto as amigas do Simão a haviam invejado o quanto cada uma de nós tinha desejado ser a noiva naquele casamento de sonho, sem dúvida o mais extraordinário dos muitos a que assisti. 

O rosto da Raquel fechou-se. O casamento de sonho não durou mais do que seis meses. A lua-de-mel no sul de Espanha trouxe-lhe um Simão que não gostava de praia, que passava os dias mal-humorado, na cama e no quarto do hotel e as noites nos bares agitados, entre copos e conversas sem nexo com estranhos. A Raquel sonhara com fins-de-tarde à beira mar, jantares românticos e noites carinhosas, a dois. O Simão parecia não ter sonhos, estava agitado, o rosto fechado, não falava, desapareceu durante um dia inteiro e quando se encontraram, ao jantar, tiveram a sua primeira discussão. No dia seguinte o Simão surpreendeu-a. Convidou-a para o bar do Hotel e cantou para ela, uma nova canção de amor que lhe era dedicada. Nessa noite reencontraram a harmonia, foram felizes e a Raquel justificou tudo o que a havia magoado nesses dias de lua-de-fel. Regressaram a Viseu, ela dava aulas numa escola secundária e ele estagiava em Advocacia. Viviam num pavilhão anexo à casa senhorial dos avós do Simão. A mãe do Simão organizava-lhes a casa, cuidava das refeições e das roupas. O Simão continuava a ser o menino da sua mãe e a Raquel estava cada vez mais sozinha. Durante a semana, a Raquel dava aulas, preparava aulas, lia e escrevia. Tinha feito amigos na escola e, às vezes, encontravam-se ao final da tarde, numa pastelaria do centro, para tagarelar, tomar café e comer uma castanha doce. O Simão tornou-se amargo, passava longos períodos sem lhe falar, saía de casa sem dizer onde ía e voltava tarde, cheirando a tabaco e a álcool. Qualquer tentativa de conversa terminava em discussão e em mais amargura. A Raquel ficava só, chorava e, quando ele regressava, pedia-lhe desculpa pelas mágoas que parecia causar-lhe. Sentia que não era amada, mas o Simão afirmava o seu amor por ela e quando ela decidiu ir passar um fim-de-semana sozinha, em casa dos seus tios, em Lisboa, ele apareceu no domingo, em lágrimas, para a ir buscar. E foi assim durante seis meses, os mais duros seis meses da sua vida. O Simão perdia o encanto, os presentes que lhe oferecia já não lhe faziam sentido. Ainda acalentou o sonho e encheu-se de esperança quando o Simão a convidou para uma viagem, só os dois, nas montanhas, longe do mar de que ele não gostava. Ela deixou-o no dia em que regressaram. Não era o mar, não eram as montanhas, era o Simão… 


Depois da separação, o Simão perseguia-a. Vinha choroso, desfeito em pedidos de perdão e promessas. Mas, também, vinha furioso, violento e ameaçador. Ela estava cansada e triste, durante vários meses foi seguida por um psiquiatra, sem conseguir trabalhar. De repente o Simão deixou de aparecer, de a perseguir. Soube por uma prima que ele se tinha apaixonado e ía casar. Ela respirou de alívio e seguiu com a sua vida. Candidatou-se a um lugar de assistente de filologia românica e deu início à carreira académica, em Lisboa. 

Tinha 27 anos quando conheceu o Manuel, não queria apaixonar-se e não se apaixonou.  

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