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Canção de Abril



Era abril e corria uma aragem fria, mas havia calor nas nossas vozes e nos nossos planos. E os nossos sonhos acendiam todas as paixões. O Gaspar sentava-se entre nós, era mais pequeno do que os outros rapazes, a sua pele era mais escura, também era o mais velho e o único que frequentava Direito em regime voluntário. O Gaspar trazia com ele a memória do seu povo ocupado, amordaçado, humilhado. Ao final da tarde discutíamos as resoluções da ONU, a firmeza de Portugal na defesa da autodeterminação de Timor, mas o Mundo tinha esquecido Timor, estávamos na Europeu e havia muros por derrubar. 

Mas, era abril e os sonhos ferviam dentro de nós e já não estávamos sentados à volta da mesa a ouvir o Gaspar, estávamos no Gil Vicente, plateia meia cheia, muitos estudantes, alguns professores, representantes locais dos partidos políticos, uma delegação da Amnistia Internacional e, até, dois policias, sentados no fundo sala. Nós conhecíamos o Gaspar, a resistência do Gaspar, mas o Gaspar não estava sozinho, estávamos nós e os outros que, como ele, resistiam. Fiquei sentada na primeira fila ao meu lado um dos conferencistas, Ramos Horta, que, num intervalo, me explicava como era tortuosa a diplomacia na ONU. No palco, um homem da Igreja, D. Martinho, que quase não pudera vir porque faltava uma autorização. O representante da Amnistia Internacional fazia um relato chocante das prisões ilegais, do genocídio cultural, da pata feroz que pisava o povo. Ramos Horta falou da resistência, de um punhado de homens mal armados, mal treinados, mal alimentados e muito amados pelos aldeões que os acolhiam, lhes cuidavam das feridas e calavam a sua presença. 

Depois da conferência, cabia-me a mim organizar o programa social. A parte das refeições foi fácil, negociamos com os serviços sociais as senhas de refeição e todos comeram nas cantinas. Pela noite dentro fazia-se o percurso das Repúblicas. 

O representante da Amnistia era um Comandante da marinha mercante e enquanto deambulávamos de República em República, foi-me contando histórias de terras que um dia eu conheceria. Eu guiava o grupo pelas ruas de Coimbra, ele, a meu lado, contava as suas aventuras. Deixei de o ouvir quando, na última República, um rapaz moreno, de olhos negros e brilhantes, cabelos crespos, sorriso tímido e um eterno cigarro entre os dedos, se sentou ao meu lado. De um lado o Comandante, a atrair-me com as suas histórias, do outro, aquele rapaz, a prender-me com o seu sorriso e o seu silêncio.

Alguns dias depois, já era Maio e estava calor, eu sentava-me ao lado daquele rapaz moreno, para ouvir a história do seu país esmagado, da sua família refugiada, das mágoas, das lutas, das conquistas e da esperança. E era Setembro e à mesa de jantar, a minha família chilena comia empanadas acabadas de sair do forno e o patriarca, de cabelos brancos e riso amplo, contava palavras de espanto, de sonho e de esperança. 


E já era outra vez Abril e já eram minhas as histórias que eu tinha ouvido contar. O rapaz moreno dormia a meu lado e na minha mão esquerda havia uma aliança. E do seu país vinham notícias de esperança e a Praça da República enchia-se de jovens silenciosos em solidariedade com outros jovens que, noutra Praça, morriam aos pés de outra tirania. E naquele dia o Professor Chinês não aceitou o nosso convite para jantar, porque não queria solidariedade, queria paz e o medo tinha matado a esperança dentro dele. 

E já era outra vez inverno e, de novo, nos juntamos em solidariedade para comemorar, porque havia um muro a cair, uma revolução a acontecer e a nossa vida corria veloz em todas as direções.

E a minha mão já repousava sobre o meu ventre dilatado e dos meus lábios já não saíam palavras de paixão, mas poemas de amor. E o meu coração se aquietou, mas a minha vida não, porque a vida é uma canção e a minha é de intervenção. 

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