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2 Livros e 3 Mães


Quando percebi que a minha memória era demasiado fraca para guardar tudo aquilo que não queria esquecer, comecei a escrever diários. Não sei quando isso terá começado, mas foi cedo. Quando fui para a Universidade a minha Mãe guardou todos os meus cadernos de notas pessoais, os famosos diários, numa caixa de cartão e arrumou-a num armário. Mais tarde, quando os meus pais mudaram de casa, a caixa de cartão mudou-se para o amplo móvel do corredor, na casa nova. Há muitos anos que me separei dessa caixa e dessa parte tão preciosa da minha memória. Dos tempos de Coimbra também já não restam quaisquer cadernos de memórias e nos anos que se seguiram abdiquei da escrita. As crianças para cuidar, o trabalho sempre muito e a ausência de intimidade comigo mesma, afastaram-me da escrita. Recuperei esse hábito há 20 anos, quando definitivamente me instalei em Lisboa e numa vida escolhida por mim. 

Com o hábito de escrever diários, voltei, também, ao hábito de tirar notas sobre os livros que leio. Não de todos, mas de muitos. A internet trouxe a oportunidade da partilha e, de tempos a tempos, publico pequenos contos, notas sobre livros e reflexões pessoais.

Vem isto a propósito do lançamento do livro de poesia da minha filha Lígia, o “Amor Peixe e outras loucuras” e de um outro livro, que nesse 13 de abril, me caiu nas mãos, “Mãe, promete-me que lês”, de Luis Osório. 

Não sei o que dizer sobre o livro da minha filha. Tudo o que me apetece dizer é que a sessão de apresentação, na Pensão Amor, foi um momento bonito. Foi tão bom ver o seu sorriso feliz, juntar a família e os amigos e ter o seu primeiro trabalho poético, sobre a forma de livro, nas mãos. Sei bem que foram momentos, apenas um intervalo na vida que se oferece feita de rotinas e feridas. Um momento daqueles que não quero esquecer e, por isso, o escrevo-o. 

O livro da Lígia chegou-me naturalmente, como o resultado inevitável do meu testemunho da sua escrita, do meu desejo de a ver realizar um sonho, uma porta aberta ao futuro. 

Já o livro do Luis Osório levou-me para o passado, para junto da minha própria Mãe. Senti-me compreendida naquelas páginas, afinal as mães não são perfeitas e podemos falar sobre isso. Secretamente, muitas das páginas dos meus diários perdidos eram sobre a minha Mãe. As minhas queixas, mais do que a minha compreensão. 

Quando a minha mãe morreu, ainda escrevi mais. Estava zangada, ela não podia ter-me deixado daquela maneira. Havia muita coisa que tinha ficado por dizer, tantas coisas por esclarecer, por conversar. A morte não apaga nada, antes traz para um lugar mais doloroso o que já não podemos dizer, o que já não faz sentido falar. 

Ter uma Mãe capaz de nos ler é um desejo secreto, vem do fundo do Eu querer ser compreendido e amado pela mãe (pelo pai, também). Não é bastante saber que temos uma mãe (e pai) que nos ame, queremos que nos ame com um amor que nos seja fácil de entender, um amor à escala das nossas emoções. 

Tal como o Luis Osório, também eu tenho saudades da minha Mãe, tenho medo de morrer e não tenho jeito nenhum para línguas (anos e anos a estudar inglês…). Mas lá me vou safando da melhor maneira que posso. 

Durante muito tempo lamentei a morte tão prematura da minha Mãe. Ficou-me a sensação de que nunca cheguei a conhecê-la como mulher, que não me foi possível partilhar com ela a dimensão da feminilidade, essa coisa de amar, de desejar, de engravidar e parir. E, depois, carregar no próprio corpo essa marca:“Mãe”. 

Hoje, dissiparam-se as dores na experiência da minha própria maternidade. No que fiz e não fiz com as minhas filhas e na certeza de que o julgamento delas acerca de mim não será menos cruel do que aquele que eu fiz (e faço) sobre a minha Mãe. Mas dessas coisas não se fala. Não queremos saber o que os filhos pensam de nós, queremos apenas estar à altura das circunstâncias. Acalentamos aquele desejo secreto de que um dia seremos compreendidos e que todas as nossas decisões serão compreendidas e justificadas.

Não creio que alguma vez tenha deixado a minha Mãe partir. Conforta-me a sua presença, e, com os anos, comecei a revê-la em tantos dos meus gestos, talvez até em algumas das minhas opções. Gosto de pensar que já acertamos as nossas contas. Pela minha parte, já não há nada que precise de lhe dizer, a sua presença basta-me. 

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