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RITA



Era sexta-feira, a primeira sexta-feira de Setembro, um vento quente e seco deixava em desalinho o cabelo que ia afastando da frente da cara enquanto pensava se não seria melhor esperar pela Rita dentro do bar. Mas fui ficando, com uma mão segurava o cabelo, com a outra segurava as páginas do livro que há vários dias me acompanhava. Parecia não ter fim ... ou era eu que não lhe dedicava a atenção suficiente para lhe ver o fim. Finalmente a Rita chegou. Sorridente, de passo apressado, maquilhagem quase apagada, a sua enorme carteira e os sapatos de meio salto. Nem sei há quanto tempo conheço a Rita, lembro-me da Rita na faculdade, mas antes disso já nos havíamos encontrado numa festa, em casa de uma prima (minha ou dela). Nunca fomos amigas intimas mas o tempo e as circunstâncias, que ora nos aproximavam, ora nos afastavam, teceram entre nós uma relação confortável, afectuosa, de mútua admiração e compreensão. 

- Estou atrasada. Desculpa-me.
- Não faz mal, estava a ler.
- Aproveitas sempre o tempo. É isso que admiro em ti, não te deixas vencer pelo tédio.
- O tédio é realmente o que mais me preocupa - Respondi-lhe enquanto me levantava para lhe dar um beijo e a empurrava para dentro do bar. O vento estava insuportável. 

A Rita sentou-se ao meu lado, segurou a minha mão e pela primeira vez vi medo no seu olhar, um medo estranho, o medo de quem não sabe para onde ir. Perguntei-lhe se estava tudo bem, se tinha algum problema, se os filhos estavam bem. Ela abanava a cabeça afirmativamente a cada pergunta minha, mas não largava a minha mão, ficava ali a segurar-me a mão numa carícia e a olhar-me como quem procura as palavras.

- Estou apaixonada ... 
Eu disse: - Mas isso é bom ...
- Não é nada bom. Ele é mais novo do que eu e trabalha numa pizzaria.
- Qual é o problema? A esta altura da vida uma aventura estonteante não vai fazer-te mal. 
- E se não for uma aventura? 
Senti medo nesta pergunta. Nada mais me restava do que afirmar a minha certeza: - É uma aventura e uma mulher de 45 anos, divorciada, independente e com dois filhos tem direito a ter uma aventura. 
- Achas que não devo preocupar-me?
- Sinceramente acho que não. Vamos brindar à tua aventura. Espero que ele seja realmente jovem, fresco, descontraído e que o sexo seja fantástico.
A Rita sorriu-me, sentia-se aliviada, eu não tinha dito exactamente o que ela espera ouvir mas sim o que ela  mais gostaria de ouvir. Despedimos-nos com um abraço e um beijo, ela entrou no seu carro e eu no meu.

Enquanto conduzia até casa recordei cada uma das palavras da Rita, o seu entusiasmo com o novo namorado e o sorriso aberto quando eu a apoiei. Pensei em como a Rita era corajosa e bonita, como a sua vida tinha sido tantas vezes difícil e como ela sorria sempre. A Rita merece viver este amor. 


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