domingo, 24 de setembro de 2017

Longe do Mar (4)


Os inícios de semana não são todos iguais. Não há um estado de espírito de segunda-feira que se reproduza todas as segundas-feiras. Comecei essa segunda-feira envolta em estranhas emoções. Tinha passado demasiado tempo longe do amor e do carinho de um homem e o Simão trazia-me uma emoção que, não me sendo desconhecida, há muito se tinha afastado de mim. 

Não consegui dormir e levantei-me antes das seis da manhã. Olhei-me ao espelho, tinha as marcas da noite em claro, uns papos escuros debaixo dos olhos e a pele baça. Mas o meu olhar estava brilhante, denunciava aquela felicidade imprudente que se aninhara no meu coração. 

Cheguei ao ministério cedo e comecei a preparar a reunião que teria às dez e meia. Pouco antes das nove chegou a Teresa. Partilhávamos a mesma sala, embora eu passasse muito tempo no gabinete governamental. A minha função era assegurar a ligação entre a equipa de missão chefiada pela Teresa e o gabinete da Secretária de Estado que tinha a tutela da prevenção da delinquência juvenil e das políticas de reabilitação e integração de jovens delinquentes. A Teresa é Magistrada do Ministério Público. O objetivo desta equipa de missão é criar e implementar políticas de prevenção da delinquência juvenil em grupos de risco e promover medidas de integração social, reabilitação sócio-educativa e profissionalizante em jovens delinquentes institucionalizados. A Teresa é uma especialista nestas matérias, passou os últimos 15 anos em Tribunais de Família e Menores e sempre teve uma especial sensibilidade para as questões relativas às crianças e jovens, nas suas múltiplas dimensões. Poucas pessoas conhecerão como a Teresa os meandros dos sistemas de justiça, de segurança social e de educação, os interesses que em torno deles permanentemente se organizam e debatem. A Teresa é lúcida e, sem deixar de ser apaixonada na defesa daquilo em que acredita, há muito que perdeu a ingenuidade. A Teresa sabe que a infância e a juventude passam depressa e que enquanto se debatem modelos e testam teorias há crianças que se tornam jovens e jovens que rapidamente se transformam em adultos magoados e desencantados. O tempo para a Teresa é sempre urgente, não há um minuto a perder, cada segundo de inércia tem consequências incalculáveis. Viver é urgente e salvar vidas ainda é mais urgente. Com a Teresa confirmei o que apenas vislumbrara, a política não é um mero exercício de tomada e manutenção do poder com base numa ideologia. A política, com ou sem poder, é sempre um processo de transformação e mudança pessoal, de projeção de um sonho e de partilha tendo em vista a mudança e o progresso. Creio que a Teresa é uma mulher de direita, que as suas opções políticas são bem diferentes das minhas mas isso não a impediu de aceitar o desafio de um governo socialista para liderar este projeto. Sei que a Teresa é uma escolha do Primeiro Ministro e que não colhe a simpatia da Secretária de Estado, o que dificulta muito o meu trabalho. Não é fácil mediar o conflito latente entre as duas. O brilhantismo e rigor da Teresa, associado ao seu profundo conhecimento destas matérias impõe-se naturalmente perante a insegurança, falta de rigor e diletantismo intelectual da Secretária de Estado. Mas o poder é formal, precisa de instituições e estas não se bastam com pessoas autênticas, precisam de atores que as incorporem, muitas vezes os atores são canastrões. 

A Teresa não escondeu a surpresa ao ver-me ali tão cedo. Não era habitual eu aparecer durante a manhã e raramente aparecia sem a avisar. Olhou-me no fundo dos olhos, adivinhou a minha noite em claro e foi buscar dois cafés, fechou a porta, chamou-me para a pequena mesa redonda e sem rodeios perguntou-me como tinha sido o jantar na Taverna, com o Simão e o seu grupo de fado de Coimbra. 

Abri os olhos surpreendida: - “Conheces o Simão?”
- “Claro que conheço o Simão, somos amigos de infância, fizemos a escola primária juntos. As nossas mães eram amigas.”

Aproximei-me mais da Teresa num gesto de intimidade que convidava à partilha de estórias e de emoções. A Teresa sorriu e contou-me que tinha nascido em Viseu, onde o seu pai era Juiz. Quando ela nasceu os seus pais já estariam na casa dos quarentas e aquela seria a última Comarca de seu pai antes de se instalar definitivamente em Lisboa, onde chegaria a Conselheiro no Supremo Tribunal Administrativo. A amizade da sua mãe com a mãe do Simão começou na altura em que ambas estavam grávidas e eram seguidas pelo mesmo médico.

- “Desde que me conheço que conheço o Simão, na verdade o Simão foi o meu único amigo de infância. Os meus irmãos eram muito mais velhos do que eu, já andavam na Universidade e só estavam em casa nas férias grandes, no Natal e na Páscoa. A mãe do Simão visitava a minha mãe todas as sextas-feiras, quando saía da quinta e vinha a Viseu fazer compras ou tratar de outros assuntos. A minha mãe visitava a mãe do Simão todas as terças-feiras à tarde, na quinta. Recordo-me bem dessas visitas, as duas mulheres conversavam e tomavam chá, na sala ou no jardim, numa pequena mesa que ficava a um canto, junto à porta da cozinha. Eu e o Simão brincávamos muito, corríamos pela quinta, sujávamo-nos de terra, montávamos o Nero, um velho e paciente Castro Laboreiro que nessas alturas se transformava num imponente cavalo negro. Aos seis anos fomos matriculados na mesma escola, mas ele estava na sala dos rapazes e eu na das meninas. Apesar do recreio ser partilhado não brincávamos juntos. Os rapazes juntavam-se no campo de futebol a jogar à bola e as raparigas saltavam à corda ou jogavam à macaca. O Simão tinha vergonha de ser amigo de uma rapariga e eu, ofendida, deixei de acompanhar a minha mãe nas visitas à quinta. Quando viemos para Lisboa a minha amizade com o Simão já não era mais do que uma recordação de infância. Mas a amizade das nossas mães manteve-se, todas as semanas se telefonavam e eu ía sabendo o que se passava com o Simão, assim como ele sabia o que se passava comigo. Entramos os dois em Direito no mesmo ano, ele em Coimbra e eu em Lisboa, na Católica. Soube que se apaixonou por uma rapariga de Letras logo no primeiro ano e que casou com ela antes de ter terminado o curso. A minha mãe foi ao casamento. Eu estava a preparar os exames de acesso ao SEJ, não fui. O pai do Simão morreu quando ele tinha 14 anos. Fui com os meus pais ao funeral mas não cheguei a estar com Simão. Ele fechou-se no quarto, não quis ver ninguém nem falar com ninguém. Passou esse dia a tocar viola. Ninguém se lembra de ver o Simão chorar, mas a sua música foi triste durante muito tempo. A última vez que vi o Simão foi há um ano, no funeral da mãe dele. A minha mãe quis despedir-se da amiga, eu e o Pedro fomos com ela a Viseu. Desde então somos amigos no facebook e temos trocado algumas mensagens. Coisas de circunstância, boas festas, felicitações de aniversário, nada de mais. Há pouco mais de uma semana recebo um convite do Simão para ir à Taberna, onde ele estaria a tocar com o seu grupo de fado. Falei com o Pedro e ficou combinado que iríamos. Como a Raquel estudou em Coimbra e o Manuel gosta tanto de um bom serão entre amigos, pensamos que seria boa ideia convidá-los. Quando liguei ao Manuel, ele  disse-me, apenas, que nesse dia já tinham um outro compromisso. Mas, dois dias depois, apareceu em minha casa e contou-nos que a Raquel tinha sido casada com o Simão. Também nos disse que tu és amiga do Simão e que até estiveste no casamento deles.” 

À medida que a Teresa falava eu tinha um único pensamento em mente, um pensamento banal, a confirmação de que Portugal é um país pequeno e que todos nos conhecemos. Não sabia o que dizer, olhei para o relógio e faltavam apenas cinco minutos para as dez horas, tinha uma reunião às dez e trinta e tinha que me despachar. Levantei-me apressada e convidei a Teresa para almoçar, queria falar-lhe tendo um prato de comida à minha frente, aquela mesa vazia intimidava-me. 

Lisboa, subitamente, encheu-se de hamburguerias gourmet. Fomos submetidos à tirania da carne ralada, moldada em rodelas mais ou menos espalmadas que se fazem acompanhar dos mais tradicionais ingredientes que a imaginação de um jovem chef empreendedor possa criar: alheira de caça, queijo da serra, figos do Algarve, batata doce frita, presunto de porco preto. Eu olhava para o prato, demasiado grande e demasiado cheio, mentalmente selecionava o que comeria e o que deixaria ficar. A Teresa olhou-me, sorriso amplo, um convite às confidências.

- “Conheci o Simão no meu primeiro dia em Coimbra, na fila para as matrículas e tornamo-nos amigos inseparáveis. Confesso que alimentei por ele um amor platónico, mas ele namorava a Raquel. Para além da Raquel o Simão ía mantendo outros namoros, rápidos e fugazes. Nunca quis ser uma dessas namoras em coexistência com a Raquel e, talvez por isso, nunca existiu entre nós nada mais do que uma boa amizade, feita de muitas cumplicidades. Depois conheci o pai das minhas filhas por quem tive uma imensa paixão e as nossas vidas seguiram diferentes rumos. O Simão casou com a Raquel e foram viver para Viseu. Eu também me casei. Nunca mais nos vimos. Quando conheci o Manuel, no dia do teu aniversário e ele mostrou as fotos da família reconheci a Raquel. Nessa mesma noite, enviei-lhe uma mensagem. Marcamos um encontro e ela contou-me que só esteve casada com o Simão durante alguns meses, menos de um ano. Parece que o Simão perdeu todo o seu encanto e fez-lhe a vida num inferno ao ponto de a mandar para o psiquiatra com um grave depressão.”  A Teresa franziu a testa, eu encolhi os ombros e prossegui.

- “Alguns dias depois fui adicionada ao grupo de facebook do meu curso e é aí que reencontro o Simão. Trocamos mensagens durante mais de um mês e ele convidou-me para a Taberna. O fim-de-semana foi alucinante, acho que estou a apaixonar-me pelo Simão e ele por mim.” A Teresa soltou uma gargalhada sonora e concluiu a conversa.
-“Finalmente uma boa notícia. Aproveita. Tira a tarde e vai para casa dormir.”

Segui o conselho da Teresa, doía-me a cabeça, mal conseguia manter os olhos abertos. Cheguei a casa às quatro da tarde, tomei um ben-nu-ron e deitei-me. Acordei às duas da manhã e tinha duas mensagens do Simão. Confirmei que ele estava online e respondi-lhe. Esperei algum tempo pela resposta dele, enviei uma segunda mensagem que, também, ficou sem resposta. Voltei a adormecer. Acordei no dia seguinte, refeita das emoções do fim‑de‑semana e  das revelações da Teresa, pronta para retomar o trabalho. O Simão ainda não tinha respondido às minhas mensagens. 

Depois de almoço decidi ligar ao Simão, afinal era estranho que não tivesse respondido às minhas mensagens. Atendeu-me um Simão inquieto, magoado comigo sem que eu entendesse o motivo. Pedi-lhe desculpa sem saber bem porquê, talvez um mal-entendido, alguma dificuldade de comunicação. Naquele momento tudo o que desejava era acalmar o Simão, fazer com que ele se sentisse melhor e, de algum modo, recuperasse a confiança em mim. Com o passar do tempo perdi a conta às vezes em que lhe pedi desculpas por coisas que não fiz e por palavras que nunca disse. O Simão vestia de estranhos significados os meus gestos e as minhas palavras. Nunca lhe bastou a certeza de que eu nunca o magoaria e que o meu amor por ele era exatamente isso, um lugar de segurança e conforto. 

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