segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Longe do Mar (2)



A Luisa estava a chegar. Eu esperava na plataforma pelo comboio que trazia a Luísa. Os últimos dias tinham sido estranhos, quase por magia recuperei o contacto com muitos dos meus colegas e amigos de Coimbra, gente de quem não sabia praticamente nada há mais de 20 anos. Ao contrário da Luísa, que sempre manteve o contacto com os colegas de faculdade, o meu percurso tinha sido bem diferente e, quando terminei o curso, iniciei uma nova vida longe daquela que tinha tido na faculdade. O casamento, a mudança para uma cidade de interior, fria e austera, a maternidade, a minha necessidade de afirmação profissional e, depois, o divórcio, foram tomando todo o meu tempo interior deixando um quase nada de espaço onde apenas coube o que ainda restava de mim. Agora, quase sem eu querer, tudo estava a voltar e, por muito estranho que me parecesse, tudo voltava exatamente a partir do ponto em que eu me tinha afastado. Atribui estes mistérios a um milagre chamado facebook.

A Luísa chegou com as suas roupas coloridas, os olhos claros e alegres, o riso exuberante e muitas coisas para contar. Abraçamo-nos, há alguns anos que não nos víamos, mas ela era exatamente a Luísa das minhas memórias e a conversa entre nós fluía livremente. Saímos da plataforma, descemos de elevador para o piso inferior. A Luísa vinha passar o fim-de-semana, trazia uma mala que faria adivinhar uma estada mais longa e que dificilmente conseguiríamos arrastar pela escada rolante. O elevador deixou-nos em frente da esplanada de um café e sentamo-nos. A Luísa bebeu uma água e eu um café.

- “Então? Estás preparada para o reencontro com o Simão?” - atirou a Luísa. Eu soltei uma gargalhada:
- “A esta altura do campeonato eu estou preparada para me encontrar com um alien.”

A Luísa riu e começou a falar do Simão. Há alguns anos que não o via, ele tinha deixado de ir aos jantares  da Queima, em Coimbra. Alguém lhe tinha dito que ele deixara de advogar e que, desde a morte da mãe, se dedicava a administrar a quinta, onde vivia. Parece que a mãe lhe deixou bastante dinheiro, uma pequena fortuna que o próprio Simão desconhecia. Uma coisa era certa, ele continuava a tocar e, nessa noite, estaria na “Taberna” a tocar e a cantar com outros antigos estudantes de Coimbra. Ele era o convidado especial e não faltariam as suas canções. Nas últimas semanas eu tinha trocado muitas mensagens com o Simão e aguardava com expectativa por esta noite de sexta-feira. Confesso que era algo mais do que expectativa, eu queria impressionar o Simão e tinha passado a tarde do último sábado num centro comercial, de loja em loja, até encontrar o vestido perfeito para a ocasião. 

No caminho para casa contei à Luísa que tinha encontrado a Raquel, que ela era casada com o Manuel, um homem maravilhoso e que tinham quatro filhos. Ao correr da conversa a Luísa referiu que o filho mais velho, provavelmente um rapaz, seria o filho do Simão. A Luísa estaria certamente errada, a mais velha dos quatro filhos da Raquel era uma rapariga, que não teria mais do que 23 anos e os três mais novos eram rapazes, o último teria 14 anos. A Luísa abriu os olhos de espanto, certamente que faltava um, quase de certeza um rapaz, que deveria ter entre os 25 e os 26 anos. As contas eram fáceis de fazer, a Luísa tinha sido colocada nos Açores em finais de 1989, durante um inverno especialmente rigoroso e tinha encontrado a Raquel, no aeroporto de S. Miguel, “muito grávida”. Falaram pouco, a Raquel estava triste porque tinha morrido a sua madrinha, ela tinha vindo para o funeral.

A história que se seguiu era verdadeiramente fantástica. A madrinha da Raquel era, na verdade, a sua avó, mãe do pai, que se suicidou pouco tempo depois de ter chegado da Guerra do Ultramar, quando a Raquel era ainda bebé. A mãe da Raquel era empregada doméstica ou, como então se dizia, criada, em casa dessa senhora, quando o seu filho, jovem estudante de Coimbra, se perdeu de amores por ela e a engravidou. Estávamos no início dos anos sessenta e muitos jovens combatiam no Ultramar. O pai da Raquel foi incorporado em finais de 1964 e poucos meses depois nascia a Raquel. A Maria do Rosário, sua mãe, continuou a trabalhar em casa da Senhora Dona Piedade e aí teve a sua filha. Todos sabiam que aquela criança era filha do “menino” e, apesar de ninguém acreditar que ele viesse a casar com a criada, nunca se duvidou que reconhecesse a bebé como sua filha. 

Quando o “menino” regressou tinha perdido o encanto da juventude e no seu peito já não batia um coração apaixonado. A Senhora Dona Piedade chamou médicos e a Maria do Rosário observava-o de longe, por trás das lágrimas. Ele tinha o olhar perdido num horizonte que elas não conheciam, vagueava durante o dia e gritava durante o sono. Em poucos dias toda a casa estava triste, vagueava e chorava a perda do seu “menino”, que se fez homem na guerra e que seguiu o chamamento das sereias indo pelo mar adentro. A Maria do Rosário veio sentar-se na areia negra com a sua menina, chorou e esperou pelo “menino-soldado”, mas o seu corpo procurou as rochas e só foi a enterrar muitos dias depois. A Raquel cresceu naquela casa, como filha da criada e afilhada da Senhora D. Piedade. Teve tudo o que era necessário à sua educação e, quando chegou a altura, percorreu o caminho que o seu pai já havia percorrido e foi estudar para Coimbra. Todos sabíamos que a Raquel era pobre, filha de uma criada, com uma madrinha rica que ajudava na sua educação. Na verdade, uma avó amarga, sem outros filhos ou netos, para além da Raquel. 

- “Quando cheguei aos Açores a Senhora Dona Piedade tinha morrido há poucos dias e o assunto mais comentado era o testamento da velha. O estupor tinha deixado todos os seus bens e dinheiro aos filhos de um primo, que viviam em Boston. Os americanos lá vierem a S. Miguel reclamar a sua herança e expulsaram a Maria do Rosário da casa onde elas sempre viveram. Nessa altura volto a encontrar a Raquel, na Conservatória, acompanhada de um conhecido Advogado de Lisboa. As certidões destinavam-se a instruir as ações judiciais de investigação da paternidade da Raquel e de reclamação da herança que lhe cabia por morte do seu pai. Nessa altura disse-me que se tinha divorciado do Simão e não me recordo de termos falado da criança que, entretanto, já deveria de ter alguns meses” - concluiu a Luísa.

Eu estava verdadeiramente fascinada com aquela história, mas de uma coisa estava certa, a Raquel e o Simão não tiveram filhos, isso mesmo me tinha dito o Simão: "não tenho filhos." Durante o último mês, tínhamos trocado mensagens praticamente todos os dias. Eu contava-lhe os meus dias e a minha vida, falei-lhe das minhas filhas, do meu trabalho, do pai das minhas filhas, que ele conhecia de Coimbra, do meu divórcio. Ele contou-me pequenos segredos. Que a Raquel tinha sido a mulher da sua vida, mas que a vida em comum era impossível porque a Raquel era oportunista e mentirosa. Falou-me dos presentes que ofereceu à Raquel e das viagens. Eu não lhe disse que tinha reencontrado a Raquel, não lhe falei do Manuel nem dos filhos deles. Depois da Raquel o Simão tinha tido mais dois casamentos, esses tinham acabado por falta de amor, por se sentir incompreendido e por serem mulheres de pouca cultura. Mas o Simão mantinha a esperança de encontrar o seu grande amor, a mulher ao lado de quem passaria os anos que ainda tinha por viver, um amor perfeito. 


Enquanto nos vestíamos para o jantar fui dizendo à Luísa que tinha uma sensação estranha, que este reencontro com o Simão estava a perturbar-me. Todas as noites trocávamos mensagens e eu estava a dormir menos do que o habitual. Durante o dia distraía-me facilmente, as recordações de Coimbra passaram a fazer parte do meu dia e em todas estava o Simão. Quando ele cantou para mim na Democrática, quando eu lhe fiz uma leitura de tarot no Museu, quando lhe emprestei os meus apontamentos de Reais, quando ele me esperou na Porta Férrea depois da minha última oral. As minhas memórias estavam presas a esse tempo e povoadas pelo Simão. Havia qualquer coisa de dramático em tudo isto, afinal eu ainda era aquela rapariga de dezoito anos, que se sentou ao lado do Simão na aula de Introdução ao Estudo do Direito.

A Luísa soltou uma gargalhada:
- "Que tu és essa rapariga não há dúvida, estás linda e elegante. Vamos lá a ver se o Simão ainda é o mesmo ou se as fotos no facebook têm todas mais de 20 anos."  

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