terça-feira, 14 de março de 2017

Longe do Mar (1)


A Teresa levou-me para a sua tribo. Depois do convite para o jantar de aniversário, no restaurante, veio o convite para jantar em sua casa, um grupo mais restrito, um ambiente mais intimo. Para além da Teresa, conhecia o seu companheiro, o Pedro, e o casal maravilha, Manuel e Raquel. Pareceu-me um grupo interessante e eu não tinha um programa melhor para essa sexta-feira à noite. A minha opção de vida celibatária, focada na profissão e na educação das minhas filhas nem sempre era um fardo fácil de levar e eu estava a sentir-me só. Creio que a Teresa se apercebeu disso, daí o convite para jantar, certamente estaria por lá um amigo solteiro. 

Cheguei a casa da Teresa já passava das 21horas, não consegui sair mais cedo do gabinete. Escovei o cabelo no carro e pintei os lábios, ainda assim não fui a última a chegar, faltava o amigo solteiro… Tal como previsto, havia uma amigo solteiro, mas eu estava mais interessada em conversar com a Raquel e o Manuel, do que em fazer novos amigos, ainda que solteiros. 

A noite foi agradável. A Teresa tem um encanto especial e sabe acolher os seus amigos com um gesto mágico e generoso, que nos leva a confiar nela e a querer agradar-lhe. Apesar de ser a minha primeira vez em casa da Teresa, lá fui parar à cozinha, para fazer caipirinhas na Bimby e ajudar a Raquel a cortar a picanha. Foi uma noite animada. A comida estava maravilhosa, os convivas alegres e a Teresa irradiava uma rara felicidade. Reparei no Pedro, um homem discreto, sensível e verdadeiramente empenhado em fazer feliz a Teresa. Cheguei a perguntar-me se seria possível a Teresa retribuir-lhe tal empenho. Acredito que sim. Haverá momentos em que, também, a Teresa ficará sozinha, entregue a si própria e com espaço para uma troca de olhares, um suave toque de mãos e um espaço aberto à ternura. Deve ser o momento em que a Teresa vê o Pedro, em que ambos se acomodam na banalidade dos seus pequenos sonhos partilhados.

Entre mim e a Raquel estabeleceu-se uma grande cumplicidade. Não era, apenas, o facto de nos termos conhecido nos tempos da faculdade, era a partilha de uma memória, a recordação do Simão e de tudo o que ele tinha representado para cada uma de nós. A Raquel não ignorava que eu tinha sido apaixonada pelo Simão, mas ela tinha sido a sua namorada e a sua mulher e, agora, tudo não passava de uma memória. Doce para mim, amarga para ela. 

O Manuel deixou-nos conversar, deu-nos espaço e tempo e, ainda, alimentou uma conversa animada com o amigo solteiro, que tinha um belo sorriso, mas um olhar demasiado inquieto. 

Foi uma noite divertida. Saí de casa da Teresa já passava das três da manhã, o que, numa sexta-feira, não deixa de ser uma proeza. Um pequeno grupo de resistentes, entre os quais o amigo solteiro, ficaram até ao nascer do sol.

No sábado recebi duas sms, uma do amigo solteiro, outra do Manuel, a convidar-me para almoçar. Aceitei o convite do Manuel e respondi ao amigo solteiro com uma citação de Oscar Wilde. O meu velho truque, quando não me ocorria nada de interessante para dizer, citava Oscar Wilde.

Quarta-feira, lá estávamos, o Manuel e eu, a almoçar num pequeno restaurante, em Campo de Ourique. Sentamo-nos frente a frente numa mesa de canto, pedimos o prato do dia, cozido à portuguesa, uma dose para os dois e meia-garrafa de um vinho tinto de que não recordo a marca, ou a região, mas que, na altura, me pareceu razoável. 

Quando ficamos apenas os dois, olhos nos olhos, o Manuel perdeu o sorriso e com voz baixa, disse: - Sei que és amiga do Simão. 

O Simão foi meu colega de curso e, sim, somos amigos. Ou melhor, fomos amigos… não sei nada dele há mais de 25 anos. Respondi com um sorriso e, entre as azeitonas que ía debicando contei-lhe a história da minha paixão pelo Simão.  É certo que foi uma paixão moderada e realista, nada que me tivesse impedido de viver outras paixões e, até, um grande amor, mas, ainda assim, não deixou de ser uma paixão.

O Manuel sorriu e disse-me que a Raquel havia imposto duas condições para casar com ele: nunca se apaixonarem e não fazerem festa de casamento. É claro que me ri e conclui que a segunda condição teria sido bem mais fácil de cumprir do que a primeira. O Manuel sorriu e garantiu-me que, ambas, tinham sido igualmente difíceis. Não tinha sido fácil explicar à família e aos amigos que não haveria festa de casamento e, para ele, tinha sido muito difícil, não se apaixonar. 

Eu tinha visto o Manuel e a Raquel juntos, a cumplicidade das trocas de olhares e de gestos carinhosos. Para mim eles eram o casal mais apaixonado que eu conhecia e isso era notável. Sorri e voltei ao tom ligeiro da conversa, afinal há condições que não são para cumprir e a paixão não se controla, não depende da vontade, simplesmente acontece. O Manuel não seguiu o meu tom divertido, voltou a fechar o rosto e atirou: - é exatamente isso, a Raquel não admite qualquer sentimento ou emoção que não dependa da vontade. Amar a Raquel não é uma obra do acaso ou da oportunidade, amar a Raquel é um ato de vontade, uma decisão que tomei e da qual não me é permitido afastar-me. A Raquel não se permite ser objeto de uma paixão, ou ser, ela própria, apaixonada. Com a Raquel só o amor é possível. 

A conversa estava a tomar um caminho que me era desconfortável. Eu poderia ficar horas a falar de paixões e estava firmemente convencida que o amor acontecia ao virar da esquina, numa troca de olhares, numa troca de sorrisos. O Manuel, que eu vi abraçar a Raquel, sorrir para Raquel, acariciar a mão da Raquel, o Manuel estava a dizer-me que amava a Raquel, mas que esse amor era o resultado de um ato de vontade, ou seja, da racionalidade de uma decisão, tomada a coberto de qualquer paixão. É claro que quase 25 anos de vida em comum e quatro filhos são mais do que suficientes para construir cumplicidades, alianças e um firme propósito de investir nessa empresa a que chamamos família, mas recusava-me a acreditar que isso seria possível sem paixão, sem aqueles momentos de louca felicidade que aquecem o coração e inquietam a alma. 


Discutir estas questões entre a chouriça, as couves, a farinheira (de que eu não gosto) e outras iguarias do cozido-á-portuguesa levou-nos à segunda meia-garrafa de vinho tinto, o que muito ajudou a cimentar a nossa amizade e a deixar fluir as confidências. Quando terminamos o almoço, eu sabia que a Raquel tinha escolhido o Manuel para pai dos seus filhos e que ser mãe era o seu grande projeto de vida. É claro que dei o devido desconto às confissões do Manuel, afinal a Raquel era uma profissional brilhante e reconhecida e o Manuel era um marido amado, ainda que sem paixão, como ele me queria fazer crer. 

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