quinta-feira, 7 de julho de 2016

Vamos para casa





Conheci a Maria quando éramos duas crianças e competíamos pelo primeiro lugar no quadro de honra da turma. Nunca perguntei à Maria porque queria ser a melhor aluna, limitava-me a vigiar as suas notas, a celebrar as minhas pequenas vitórias escolares e a enfurecer-me sempre que ela conseguia um resultado melhor que o meu. Passamos assim toda a escola primária, foram 4 anos de uma competição feroz. 

Eu queria provar à professora que era a melhor, que não era rica, que o meu nome de família era comum, não tinha nenhum antepassado ilustre e, apesar disso, eu era a melhor. Com a Maria era tudo diferente, ela tinha, aos meus olhos de criança, tudo. O seu pai era o Juiz da comarca, um dos tios era médico, a mãe era professora no antigo liceu, os avôs maternos exibiam um titulo de nobreza. 

Quando terminamos a escola primária a Maria entrou num colégio que ficava na cidade, eu continuei na vila, na escola pública. Raramente nos víamos, vivíamos na mesma localidade mas as nossas vidas eram distintas. Quando chegou o tempo da faculdade eu fui para Direito, em Coimbra e a Maria para Medicina, no Porto. 

Passaram mais de 30 anos sem saber da Maria, sem perguntar pela Maria, esquecida da Maria. Há pouco mais de duas semanas reencontrei a Maria, no Camboja, sentada, de pernas cruzadas, aos pés de uma majestosa estátua de Buda. Como turista, cumpria o ritual de receber duma monja uma tira de fios entrelaçados e coloridos que se íam fechando sobre o meu pulso com nós e orações. A monja era a Maria. Foi ela que me reconheceu. O seu rosto iluminou-se com um sorriso e chamou-me Cristina Paula. Abraçamo-nos e ficamos assim, a ouvir os nossos corações. Depois, afastamo-nos do Buda, dos monges e dos turistas e, de mãos dadas, sentamo-nos a conversar.

A Maria, serena, disse-me que era médica, tinha sido casada, tinha um filho com 27 anos e que vivia ali, numa comunidade religiosa budista, há 3 anos. Olhando-me nos olhos disse: - "estava há tua espera, há uma coisa que te quero contar."

Tudo à nossa volta se fez quieto e suave, até o calor se fez suportável para eu ouvir a Maria dizer-me porque queria ser a melhor aluna da turma.


- "Éramos duas crianças com a mesma necessidade de amor, de aceitação e de aprovação por parte daqueles que deveriam cuidar de nós, os nossos pais. Eu queria ser perfeita para o meu pai, um homem frio, de poucas palavras, que nunca me deu o afeto que eu desejava. Continuei, ao longo da vida, a querer ser perfeita porque acreditava que, sendo perfeita, seria amada. Aceitei e fui paciente perante a falta de amor. Tive medo de ser abandonada. Tive medo de não prestar para nada, de ninguém precisar de mim. Ao longo dos anos fui engordando, cheguei aos 90 Kg, com apenas um metro e sessenta. Tornei-me viciada em trabalho. O meu filho foi viver com o pai. Nenhum dos meus amantes esteve comigo mais de meio-ano e todos me exploraram ou enganaram. Escondi o meu sofrimento durante muito tempo, até ao dia em que decidi fazer a viagem que me trouxe até aqui. Agora sei que o meu pai não sabia amar e isso já não me doí."

Eu abracei a Maria, choramos juntas e dissemos uma à outra: "Vamos para casa."