sábado, 8 de outubro de 2016

O Amor

O que me importa mesmo é saber o que desperta o Amor em mim. Qual é gesto, o olhar, o sopro breve, a lua, o alinhamento astral ou, simplesmente, o bater de asas de uma borboleta que, sem aviso, me coloca perante a maravilha desse enlevo único, dessa ligação subtil a um ser que, a partir desse momento, é o meu Amor.

Consigo, nesta minha vida que já tem tempo suficiente para que se conte, identificar momentos únicos, em que brotou em mim essa emoção: o Amor. Não foi cedo, nem sequer foi suave a minha descoberta do Amor. Tive a sorte de nascer e crescer num ambiente de Amor, numa família onde o Amor é tão natural como o ar que se respira ou a água de corre das torneiras, que não tive qualquer consciência da sua existência e da falta que me poderia fazer, até ao dia em que perdi a minha Mãe. Soube o que era o Amor, quando perdi o seu Amor e o meu Amor por ela ficou perdido e veio aninhar-se no meu peito em forma de dor. Depois, o Amor-dor transformou-se em Amor-saudade e, com tempo, voltou a ser, apenas ,Amor.

Um dia, ainda eu não sabia quase nada sobre o Amor, um Rapaz disse que me amava. Foi a primeira vez que alguém disse amar-me.  Na minha família, nunca ninguém tinha sentido qualquer necessidade de manifestar o seu amor por mim, nem eu tivera tido qualquer necessidade de o ouvir. O Amor estava lá, era um património comum que servia todos, que pertencia a todos e que existia de forma ilimitada para todos. Achei muito estranhas aquelas palavras de amor, mas soube bem ouvi-las, ainda que não soubesse o que fazer com elas.

Um pouco mais tarde, o Amor entrou de rompante no meu corpo, tomou conta de tudo e quase não deixou espaço para os meus sonhos. Foi num bar de estudantes, eu era pouco mais do que adolescente e, do outro lado, havia um rapaz moreno, de óculos, rosto fechado, com um modo de olhar indecifrável, por vezes parado e vazio e, tantas vezes, trocista. Observei-o por algum tempo, mas foi a sua gargalhada que me prendeu. Guardei esse Amor por tantos anos, que cheguei a pensar que seria eterno. Até que houve um dia em que precisei dele, procurei-o dentro do meu peito, no sítio onde guardo o Amor, e não estava lá. Ainda hoje não sei como foi possível perder esse Amor e tenho saudades dele.

Depois o Amor veio por gestos, uma balada que me foi dedicada, um poema de Amor, uma serenata à janela numa noite de luar, o estremecimento romântico das paixões. Outra vez, foi um Homem maduro que me ofereceu um perfume, um ramo de flores, um jantar sofisticado e me levou pelos meandros secretos da sedução.

Por duas vezes, descobri que há uma forma especial de Amor, que veio e se instalou em cada pedacinho de pele, em todos os meus orgãos, em tudo o que sou, que penso, que sonho, que respiro, que como e que bebo. É um Amor que é muito mais do que Eu, é um Amor que se acrescenta ao Amor da minha infância, aquele que nunca precisou de ser dito, que estava lá, que está lá, que é tão nosso, tão natural como o ar que respiramos. Eu sei que esse Amor não se vai perder e que nem a mais bela ou mais louca das fantasias o poderá dizer.

Mas houve outros Amores, há mais Amores, guardo-os todos no mesmo pedaço secreto do meu peito. Eles vão chegando, às vezes vagarosamente, outras vezes de rompante, mas todos os dias os vou ouvindo, um dia uns, outro dia outros. Sempre lhes falo com carinho e ouço o que têm para me dizer. E todos me recordam, a todo o tempo, que há Amores que precisam de descansar e que outros precisam de partir. E eu aprendi que, onde há o Amor que não se diz, todos os outros Amores podem chegar e partir.

sábado, 13 de agosto de 2016

Desencontro




Ele estava ali, na minha frente, sentado, com os olhos postos na ementa. Ofereceu-me um copo de vinho, mas eu queria água. Ele olhou-me e sorriu. Eu vi que ele me olhava e não sorri. Ele fazia perguntas sobre a ementa e eu queria, apenas, uma salada. Ele escolheu e eu pedi sem escolher.

Ele disse-me que eu estava bonita. Eu disse-lhe que sempre tinha sido bonita. Ele sorriu... eu sorri...

Tinha passado muito tempo. Quantos anos? oito ou nove? não interessa, foram muitos...

Ele colocou uma preocupação no rosto e agradeceu por eu estar ali, com ele, ao fim de tanto tempo. Ele queria conversar, eu não sabia o que dizer...

Ele pediu-me para ficar e eu parti...

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Vamos para casa





Conheci a Maria quando éramos duas crianças e competíamos pelo primeiro lugar no quadro de honra da turma. Nunca perguntei à Maria porque queria ser a melhor aluna, limitava-me a vigiar as suas notas, a celebrar as minhas pequenas vitórias escolares e a enfurecer-me sempre que ela conseguia um resultado melhor que o meu. Passamos assim toda a escola primária, foram 4 anos de uma competição feroz. 

Eu queria provar à professora que era a melhor, que não era rica, que o meu nome de família era comum, não tinha nenhum antepassado ilustre e, apesar disso, eu era a melhor. Com a Maria era tudo diferente, ela tinha, aos meus olhos de criança, tudo. O seu pai era o Juiz da comarca, um dos tios era médico, a mãe era professora no antigo liceu, os avôs maternos exibiam um titulo de nobreza. 

Quando terminamos a escola primária a Maria entrou num colégio que ficava na cidade, eu continuei na vila, na escola pública. Raramente nos víamos, vivíamos na mesma localidade mas as nossas vidas eram distintas. Quando chegou o tempo da faculdade eu fui para Direito, em Coimbra e a Maria para Medicina, no Porto. 

Passaram mais de 30 anos sem saber da Maria, sem perguntar pela Maria, esquecida da Maria. Há pouco mais de duas semanas reencontrei a Maria, no Camboja, sentada, de pernas cruzadas, aos pés de uma majestosa estátua de Buda. Como turista, cumpria o ritual de receber duma monja uma tira de fios entrelaçados e coloridos que se íam fechando sobre o meu pulso com nós e orações. A monja era a Maria. Foi ela que me reconheceu. O seu rosto iluminou-se com um sorriso e chamou-me Cristina Paula. Abraçamo-nos e ficamos assim, a ouvir os nossos corações. Depois, afastamo-nos do Buda, dos monges e dos turistas e, de mãos dadas, sentamo-nos a conversar.

A Maria, serena, disse-me que era médica, tinha sido casada, tinha um filho com 27 anos e que vivia ali, numa comunidade religiosa budista, há 3 anos. Olhando-me nos olhos disse: - "estava há tua espera, há uma coisa que te quero contar."

Tudo à nossa volta se fez quieto e suave, até o calor se fez suportável para eu ouvir a Maria dizer-me porque queria ser a melhor aluna da turma.


- "Éramos duas crianças com a mesma necessidade de amor, de aceitação e de aprovação por parte daqueles que deveriam cuidar de nós, os nossos pais. Eu queria ser perfeita para o meu pai, um homem frio, de poucas palavras, que nunca me deu o afeto que eu desejava. Continuei, ao longo da vida, a querer ser perfeita porque acreditava que, sendo perfeita, seria amada. Aceitei e fui paciente perante a falta de amor. Tive medo de ser abandonada. Tive medo de não prestar para nada, de ninguém precisar de mim. Ao longo dos anos fui engordando, cheguei aos 90 Kg, com apenas um metro e sessenta. Tornei-me viciada em trabalho. O meu filho foi viver com o pai. Nenhum dos meus amantes esteve comigo mais de meio-ano e todos me exploraram ou enganaram. Escondi o meu sofrimento durante muito tempo, até ao dia em que decidi fazer a viagem que me trouxe até aqui. Agora sei que o meu pai não sabia amar e isso já não me doí."

Eu abracei a Maria, choramos juntas e dissemos uma à outra: "Vamos para casa."

domingo, 22 de maio de 2016

Silêncio


Tinha decidido que a minha vida iria tomar outro rumo, embora não soubesse qual. Apetecia-me viajar, voltar aquela sensação de intimidade comigo mesma, de partir para longe sem grandes planos.

Tinha planeado cuidar de mim, sair para comprar uma roupa nova, vaguear pelas montras do centro comercial, sem destino e sem desejo.

Tinha aprendido que não valia a pena ir a lado nenhum se não me levasse comigo, se não te deixasse contigo, se a cama ficasse por fazer e as roupas espalhadas pelo quarto.

Há muito que me apetecia mudar a pele que visto, cortar o cabelo, fazer uma tatuagem. Tudo em mim ansiava por liberdade e por distância. Não era uma fuga, não havia nada de que desejasse fugir, apenas afastar-me.

Apetecia-me um novo entendimento daquele sentimento que não te desejava por perto, nem te queria ausente.

Há em mim um espaço por preencher, preciso da solidão e do silêncio.

segunda-feira, 14 de março de 2016