quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Alimentaçâo, Património Cultural Imaterial






"Os melhores petiscos são aqueles que não podem ser comprados - por muito dinheiro ou amor que se tenha - mas somente adquiridos por ter nascido e vivido num determinado lugar; por ser filho, sobrinho ou compadre de determinadas pessoas"

Miguel Esteves Cardoso

Não há nada de mais gratificante do que descobrir que fomos importantes para alguém, que num determinado momento, um gesto, uma palavra, um sorriso ou uma escuta mais atenta fizeram a diferença. Disse-me o Antero que, um dia, uma conversa que tivemos foi, para ele, o ponto de partida para a escolha do tema da sua tese de mestrado e, depois, para a publicação do seu livro "Alimentação, património cultural imaterial". Confesso que não recordo o teor dessa nossa conversa, mas se graças a ela se acendeu uma centelha de inspiração, se veio perene de significado e sentido então foi, com certeza, uma boa conversa.

É este o ponto de partida para a tarefa que me espera; vou apresentar este livro e, sinceramente, não sei por onde começar. O facto de o autor ser meu primo e de, na nossa família, os primos serem irmãos que tratam os nossos pais como tios, dificulta, em muito, esta tarefa; assumo a minha parcialidade e o meu enorme orgulho no seu trabalho. Eu sei que escrever uma tese de mestrado não é fácil e publicar um livro é verdadeiramente uma aventura. Aqui se resumem muitas horas de trabalho, investigação, análise, escrita. Neste livro está uma parte importante da vida do seu autor, mas, também, um testemunho daquilo que, nas nossas mesas, reflecte a nossa cultura, o nosso modo de estar na vida enquanto povo.

Falar de comida (ou de alimentação) é importante por inúmeras razões, que vão desde a  saúde à ética, da economia ao desenvolvimento e, sem dúvida como traço de cultura.  Neste livro, vamos pelos caminhos da cultura e percebemos como, alimentos comuns - a castanha, o porco e o pescado - se nos revelam perenes de significado, como repositórios de práticas e de memórias que se afirmam como um importante património cultural que urge preservar e divulgar. A partir da leitura deste livro é possível, de tempos a tempos, mergulhar nas memórias de infância, nas tradições familiares, nas receitas herdadas e até nas manifestações mais contemporâneas inspiradas nestes alimentos. 

Não resisto a partilhar aqui, com imagens, algumas dessas memórias.

O Homem das Castanhas





Sardinha de Lisboa

Mesa de Enchidos




terça-feira, 5 de agosto de 2014

O Livro




"O Livro é um animal vivo."

Aristoteles



Em Outubro de 2006 publiquei uma monografia sobre direito das fundações. Com este trabalho pretendi, essencialmente, abordar de um modo prático as principais questões jurídicas que se colocavam em matéria de instituição, reconhecimento, organização e funcionamento das fundações ao abrigo da legislação portuguesa. 

Desde então, muitas coisas se alteraram em matéria de legislação de fundações - realizou-se o censo das fundações, foi publicada a Lei-quadro das Fundações e instituído o Conselho Consultivo das Fundações. Estas alterações na legislação há muito que justificavam uma 2ª edição, revista e actualizada, deste meu livro, o que só não aconteceu porque outros compromissos se impuseram como mais urgentes. Mas esse projecto continua bem vivo nas minhas intenções e sei que, em breve, o concretizarei.


Vem esta reflexão a propósito de uma mensagem, de email, que recebi hoje de um investigador e autor brasileiro, o Dr. Daniel Dias, autor do livro "Negócio Fundacional - Criação de Fundações Privadas". O Dr. Daniel Dias, diz-me nesse email que lhe foi muito útil, no desenvolvimento da sua pesquisa, o meu livro e que pretende enviar-me a sua obra, recentemente publicada. 


Mas, não é esta a primeira vez que este meu livro me traz surpresas e felicidade.  Uma amiga do FB disse-me que, no seu trabalho, usavam o livro regularmente, na instrução de processos relativos a fundações; o mesmo é citado em trabalhos e teses de mestrado; e, o Tribunal de Contas, num Relatório de Auditoria, também o cita.


De facto, citando Aristoteles "O Livro é um animal vivo", depois de criado, não poderemos saber até onde ele vai e até onde nos pode levar.



segunda-feira, 5 de maio de 2014

Poema de Todos os Dias


Lígia Reyes
(Para a minha Mãe)

Quero escrever para te celebrar.
Porque um poema não morre e
Só a tua primavera me compõe
De todos os invernos, mãe.
Chega atrasado, mas o que há-de chegar a horas
Quando a casa onde chego é tua
E um singelo poema pelo dia da mãe
Não chega para alimentar duas bocas,
Trocar fraldas, cuidar.
Muitas vezes chorando no silêncio
Porque se está só e as miúdas
Teimam em não crescer, fazem asneiras
Ficam doentes.

E quando crescem, fazem asneiras,
Ficam doentes - Fazem poemas,
Lêem os livros da tua juventude,
Furam a carne por diversão,
Aparecem rapazes lá em casa,
Viajam pela noite, pelo dia,
Muitas vezes para longe.
Estudam coisas que entendes bem demais,
Vão para os lugares onde já estiveste -
É aí que o coração aperta mais.
Deixou de funcionar a famosa palmada -
Agora só a vida é mãe, muitas vezes,
Madrasta, e lá chega um "bem te avisei",
Uma conversa,
um abraço no final.

Mãe, a poesia é forte como tu -
Sofre de dúvidas, instintos,
Gritos de manifestação.
Parece que as palavras
batem em fundo raso,
Mas a verdade
É que o mundo te lê em segredo - como um poema:
E o teu poema é de intervenção
Para todos os dias
Em todas as lutas.

Como só tu dirias: "com as minhas companheiras de luta".


Lígia Reyes

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Felicidade

Obra de Arte de Ernesto Neto no Museu Guggenheim, Bilbao.



No começo de cada ano, pelo dia do nosso aniversário, quando nasce uma criança ou quando mudamos de emprego ou de casa, são tantas as situações em que nos desejamos, mutuamente, felicidades. Todos queremos ser felizes, cada um à sua maneira vai enumerando uns quantos requisitos para ser feliz. Quero, ter saúde, que não me falte o trabalho, que os meus filhos tenham sucesso na escola, no desporto, nas suas realizações. Quero viajar, quero um carro, quero roupa nova, quero .... quero .... há tanta coisa que queremos, que, de conquista em conquista, vamos vivendo os momentos fugazes de felicidade.

Mas eu quero é ser feliz, e o meu amigo deu-me o livro que eu queria ler, e o meu namorado adivinhou o meu desejo e levou-me a jantar naquele restaurante, e eu fui feliz. São pequenas coisas... eu própria as poderia ter obtido sem eles, mas é esta dádiva, a felicidade de me verem feliz, que faz  a felicidade ou como diz o poeta "é impossível ser feliz sozinho".

Ser feliz é o designío da humanidade. Todas as histórias humanas são a história da felicidade, da sua presença e da sua ausência, das estratégias para a conquistar, para a cultivar, para a fazer crescer. Para cada um de nós a busca da felicidade pessoal é um percurso muito próprio, feito de alegrias e tristezas, num momento somos felizes, em outro quase felizes e guardamos para sempre a infelicidade de uma perda, de um abandono, de uma derrota. Não há nada de misterioso na infelicidade, ela impõe-se solene e grave e toma conta de tudo. Já a felicidade é subtil e sofisticada, faz-se anunciar, ludibria os sentidos, confunde-nos com muitos prazeres, faz-nos desejar mais e mais. 

Eu quero ser feliz, não desejo a felicidade, quero apenas estar nesse estado de alma que me permite apreciar cada momento e desejar sem limites. É o desejo que me alimenta, que alimenta os meus sonhos, mas é a felicidade que me aconchega, que me guarda. Nada nos meus desejos é inocente, puro ou belo, só o prazer hedonista os satisfaz. Não posso viver sem o desejo por isso preciso de ser feliz.