domingo, 17 de junho de 2012

Piodão




Um dia chegou aqui um homem, as suas roupas esfarrapadas guardavam ainda a memória de um soldado, vinha esfomeado, no rosto tinha estampado o medo e a vergonha e, nos olhos castanhos, o remorso. Quem o perseguia há muito que tinha desistido, acreditando que ele estaria morto. Escapara à fúria de Pedro mas sabia que não escaparia à fúria dos seus próprios sentimentos. Um homem não pode matar cobardemente uma mulher. Os gritos de desespero de Inês soariam para sempre na sua cabeça. Nesta aldeia aninhada no fundo de uma montanha ninguém o conhecia, a sua história e a sua culpa seriam a sua única companhia.

Hoje chegamos nós, descemos pela estrada da montanha, ingreme, com curvas perigosas, mas com bom piso e bem sinalizada. De Inverno, o gelo e neve cobrem estas paragens, são necessárias cautelas acrescidas na estrada, mas estamos no final da primavera, está um dia lindo e o sol começa a pôr-se, num jogo de luz e sombra, de montes escuros e claros. Capto na memória, por instantes a paisagem que se desvenda para mim. É muito mais do que bela, é de um infinito verde feito de muitos verdes. Entra-me pela pele, toca-me, faz-me sentir especial, na natureza tudo é único e irrepetível, não me canso de olhar apenas para guardar aquela emoção do instante em que uma folha, translucida, deixa passar a luz do sol.

Todo o caminho é maravilhoso, a estrada contorna a Serra do Açor, olhando o céu descubro uma ave de rapina no seu voo elegante, deve ser um açor, também pode ser uma águia. Uma cobra negra atravessa a estrada, vamos mais devagar, dar tempo ao animal para passar em segurança e seguir a sua vida. Tudo ali é vida e foi em busca dessa vida que viemos.

Na curva da estrada avistamos um edifício em xisto com telhado de laje, é grande, destaca-se na paisagem da montanha, é o hotel e, ali, esperam por nós. Gosto de paisagens, mas gosto sobretudo de pessoas, de pessoas felizes, a rapariga da recepção é uma dessas pessoas. Feliz. Trocamos um olhar cúmplice, perguntamos sobre os restaurantes da aldeia, ficamos a saber que há, pelo menos, dois restaurantes abertos e, é claro, há sempre o restaurante do hotel. É um dia de semana mas o hotel está praticamente cheio e há turistas na aldeia. São portugueses, na maioria pessoas com mais de sessenta anos, provavelmente reformados, mas também há turistas brasileiros e casais jovens com filhos pequenos. Desistimos da ideia de ir jantar à aldeia, vamos ficar pelo hotel, desfrutar da vista nocturna sobre a aldeia, um presépio lindo, escuro, apenas matizado pelo azul que contorna as umbreiras das portas e janelas. A pequena igreja pintada de branco presta homenagem a Nossa Senhora da Conceição. Foi aos pés dessa imagem de Nossa Senhora que rezou o assassino de Inês de Castro, pedindo a Deus a paz que não encontrava no seu coração.

Pela manha passeamos na aldeia, aventuramo-nos por um caminho estreito, quase chegamos ao Chão D’Égua mas o objectivo não era chegar a lado algum, era apenas caminhar, captar a luz do sol através das folhas das árvores, colher cerejas no caminho, apreciar o porte dos castanheiros, cheirar as ervas, afastar as urzes e giestas que invadem o pequeno trilho. Depois regressar à aldeia, ficar sentado na esplanada de um restaurantes, apreciar um copo de vinho, comer uma morcela.

Viemos pelos pequenos prazeres e levamos o prazer maior do deslumbramento. 

terça-feira, 8 de maio de 2012

Emoções Tecidas Neste Lugar


O meu amigo Alfredo Almeida pediu-me que escrevesse sobre os Bombeiros Voluntários da Régua, de imediato aceitei o seu convite. Reconheço agora que a minha atitude foi impulsiva e motivada por razões afetivas, pela minha paixão pela terra que me viu crescer e por esta imperiosa necessidade de invocar as raízes numa altura da vida em que já espalhamos ramos e perdemos folhas em tantos locais diferentes. Se tivesse sido mais ponderada teria, diplomaticamente, agradecido a distinção e declinado o convite. Perdi a oportunidade, nada mais me resta do que invocar as minhas memórias esparsas e cheias de fadas e duendes míticos para testemunhar o que os bombeiros foram para mim.
Em casa dos meus avós ouvíamos a sirene dos bombeiros, era um grito desesperado de socorro, atormentava o meu coração de criança e conduzia a minha imaginação para cenários terríveis de fogo e calor. Lá em casa todos se agitavam, “onde é o fogo? onde é o fogo?” A Maria descia a correr as escadas que nos ligavam à Régua, ia embrulhando o avental numa rodilha com que secava o suor que lhe escorria do rosto e regressava, alguns minutos depois, com a notícia, “o fogo é em Loureiro”. Nessa altura já a minha avó tinha telefonado para a irmã que vivia em Loureiro, assegurava-se de que estava tudo bem, que a família e os bens estavam a salvo do fatídico fogo. No entremeio das considerações da vida, lá vinha a invocação a São Marçal, que o seu cajado ajudasse os bombeiros a combater o fogo, mas também de Sta. Barbara que tinha influência sobre trovoadas e raios. Naquele tempo havia santos e auxílio divino para tudo, pelo menos em casa dos meus avós.
O quartel dos bombeiros era perto da minha escola, um pouco mais acima, logo a seguir à Alameda. Nas tardes de verão, quando paravam as chuvas e os dias começavam a crescer, ir à biblioteca dos bombeiros era uma boa desculpa para sair de casa. Recordo bem a entrada pela porta da enorme garagem onde se alinhavam os maravilhosos carros vermelhos e logo à direita uma porta menor para uma escada de madeira escura que conduzia à biblioteca. A escada era o corredor mágico para um mundo muito mais interessante do que aquele em que eu vivia, o mundo fantástico dos livros. Uma das melhores recordações da minha infância é o cheiro da biblioteca, daquele soalho de madeira corrida, das paredes cobertas de estantes fechadas por portas de janela que protegiam os livros, da mesa escura onde repousava uma caixa metálica cheia de pequenas fichas manuscritas com letra miúda. Daqueles objetos desprendia-se um odor de cera, de limpeza, de madeira e de tempo. Tenho procurado esse mesmo odor em outros locais onde descansam os livros, nunca mais voltei a encontra-lo. Devo ter lido todos os livros juvenis da biblioteca, depois passei para os clássicos da literatura portuguesa. Comecei por Júlio Diniz, mas muito rapidamente cheguei a Eça. Não foi na biblioteca dos bombeiros que formei o meu gosto literário, a coleção era conservadora e não contemplava autores que são hoje a minha principal referência cultural, mas foi lá que encontrei a inspiração para muitos sonhos, foi ali que começaram muitas viagens que só muito mais tarde eu viria a fazer.
Os bombeiros eram uma referência da vida pública, o comandante dos bombeiros uma figura prestigiada e respeitada. Com o dealbar da democracia o debate político local passava pelos bombeiros, pelos jogos de poder em torno das escolhas para a direção e dos equilíbrios que era necessário gerar entre o poder político, essencialmente autárquico e a sociedade, basicamente resumida à associação dos bombeiros e à misericórdia. Eu estava a entrar na adolescência e a minha consciência social estava em formação, queria um mundo melhor e mais justo, com mais oportunidades para todos, com mais oportunidades para mim, nascida mulher numa família de classe média, numa pequena cidade do interior e com uma curiosidade imensa e mal compreendida.
Foi por esses anos que mais uma catástrofe se abateu sobre a nossa cidade, as cheias foram devastadoras e muitas famílias ficaram desalojadas. Numa noite fria e chuvosa eu estava na rua a ajudar quem precisava, guardo comigo os olhos desesperados de uma mulher com uma criança ao colo que via ir com o rio todos os seus bens. Os bombeiros estavam lá, garantiam o sucesso das operações de salvamento, eram jovens de rostos fechados, galochas de borracha e uma força sobre-humana que se impunha à água e ao desespero dos homens.  
Quando perdi um amigo e pela primeira vez o luto cobriu o meu coração foi atrás do carro dos bombeiros que, a caminhar, homenageei a sua curta vida e acalmei a minha dor.   
Com o calor também a festa chegou à cidade. Estalou o fogo-de-artifício sobre o rio, fez-se a feira franca e as ruas apinharam-se de gente para ver a Senhora passar. Engalanaram-se as janelas e as varandas e, a abrir a procissão, vinha a fanfarra dos bombeiros. O meu olhar ficava preso nas botas brancas das raparigas e o meu coração batia ao ritmo do som das caixas dos rapazes. A fanfarra dos bombeiros fazia despertar em mim o mistério do divino que, andor a andor, a procissão ia revelando até ao momento crucial em que perante Nossa Senhora do Socorro me ajoelhava e orava.
Há 30 anos que não vivo na Régua, tenho sobre a cidade e as suas gentes o olhar de quem “está fora”, raramente partilho os seus dramas e alegrias, mas o que levo comigo onde quer que eu vá são as emoções tecidas neste lugar, onde guardo as minhas raízes. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

É Dia de Amar ...



Sempre me recusei a aceitar essa ideia aristotélica de que chegamos ao mundo como sendo a metade de qualquer outra pessoa e que toda a busca da felicidade se traduz nessa procura incessante pela metade que nos falta. Nunca senti que me faltasse algo e também nunca encontrei ninguém que fosse capaz de completar o que quer que fosse de mim, talvez porque eu sempre me achei completa em mim mesma. Mas a verdade, é que crescer e viver como um ser uno num mundo em que a unidade é um par, nem sempre foi fácil. Mas como em tudo, com o tempo e a sabedoria, aprendemos a conviver com os outros sem abdicarmos de nós próprios e das nossas convicções. Vem isto a propósito das comemorações do dia dos namorados, dessa comemoração do amor romântico que mais não é do que a legitimação desnecessária da humana busca do sexo e dos afectos.

Sobre este dia eu tenho um olhar romântico, não recordo que me tenha acontecido algo de extraordinário ou verdadeiramente digno de nota no dia dos namorados, mas não sou indiferente ao "clima de amor" que se instala por todo o lado, às montras enfeitadas com corações, às rosas vermelhas da paixão, aos chocolates, aos ursos de peluche, às promoções nas sexshops e nos móteis. Há uma iconografia do amor que me fascina e que nesta data salta para a rua, para as conversas e, fruto dos tempos, para as redes sociais. Pessoas sisudas publicam poemas de amor, mulheres tristes homenageiam os maridos, homens solitários oferecem flores a mulheres de quem só querem os corpos e por um dia o amor é perfeito, a experiência da paixão acontece e torna suportáveis os silêncios.

Quanto ao amor .... que nunca se calem os poetas ... que se cante para sempre no fado ... que  seja o ponto de encontro imperfeito de pessoas inteiras ... que nunca morram os amantes ...

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Dia dos Namorados



Começou a contagem decrescente para o dia dos namorados que é já no próximo 14 de Fevereiro, falta exactamente uma semana. Nunca prestei muita atenção a estes dias comemorativos mas, este ano, recebi tanta informação sobre o dia dos namorados que dei por mim a pensar no que poderia ser o "perfeito dia dos namorados". Abri cada um dos e.mails, olhei atentamente as montras das lojas, os anúncios na TV, na rádio e na internet. O dia dos namorados está por todo o lado e não há como escapar-lhe. 

Começando pelo e.mail, fiquei a saber que este é o dia ideal para fazer um workshop de sushi, mas também para um outro de feng shui do amor. Nestas coisas do namoro também não pode faltar chocolate e aprender a fazer bombons é outra das doces sugestões. Já que falamos de comida, um jantar afrodisíaco com ostras e champanhe parece-me uma coisa com classe e a fotografia do anúncio é uma tentação. Mas a pizza com coca-cola também faz parte da ementa, esta pizza tem forma de coração, tomate e queijo parmesão. 

Quanto a presentes, alguém sugere que se ofereça um IPad2 à cara metade. A colecção de bonecos de peluche vai aumentar, há macacos com corações, ursos que dão beijos e pares de cães e de gatos enternecidos. A lingeri também está em alta, parece um presente feminino mas é mais do agrado dos homens, sobretudo aquela dentro da qual é impossível respirar (daí a pressa em despi-la!). Curiosamente não recebi nenhum e.mail com fotos de jóias, mas garanto que são uma boa opção, sobretudo nestes tempos de crise em que devemos acautelar o futuro. As jóias são sempre um belo presente, já eram quando não havia dia dos namorados. 

Mas o que realmente é importante no dia dos namorados é ir passar a noite num hotel, a dificuldade é escolher qual. Como estamos de preferências? Escolho o pack com jantar romântico à luz das velas e cozinha de autor ou aquele da massagem relaxante e meditação zen em ambiente perfumado com aromas da índia? Há umas opções mais económicas, mas não têm tanta piada. 

Com tantas coisas fantásticas o dia dos namorados até nos vai fazer esquecer o feriado do Carnaval, mas enfim, uma coisa de cada vez... 

Já agora, se eu sobreviver a um dia tão perfeito, vou apaixonar-me por quem me faça rir e amar eternamente quem me olhe nos olhos e sorria.