quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O Tédio



Há alguns dias que não escrevo, nem aqui, nem nos cadernos de papel, não me tem apetecido escrever. Há demasiado tédio para que me apetecer escrever. Também não me apetece trabalhar, não me apetece estar em casa e não me apetece sair. Fico, por vezes, a olhar para o ecrã do PC á espera que algo aconteça, que me chegue algo de novo, ou estimulante, ou verdadeiramente revolucionário. Alimento essa quimera de uma mensagem inesperada, alguém que se lembre que eu existo, que eu estou aqui, à espera de algo que não sei o que é. Alguém que me interprete, me adivinhe. 

A vida segue igual, muito embora a minha vida nem seja assim tão igual a outras vidas. Tenho este condão de ir realizando alguns sonhos, de ir adiando outros e de, invariavelmente, me sentir vazia, sem nada de verdadeiramente substancial. Gosto de pessoas autónomas, cada um a viver a sua vida tal, como eu vivo a minha. 

Temos um destino comum: o de cada um ter de tratar dos seus próprios sonhos e dos seus fracassos, isto é mesmo assim. As nossas histórias pessoais fazem-se com meia dúzia de dias interessantes, marcantes e memoráveis e milhares de dias de rotinas e tédio.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Eu e Deus







"Haja ou não Deuses, deles somos servos."
Fernando Pessoa


Nas situações dramáticas, em que tudo parece perdido, em que o desespero parece ser a única resposta possível há uma força que se abriga dentro de nós, há um jardim onde nos podemos refugiar e que realmente é um local de paz e de tranquilidade. Ser capaz de encontrar esse jardim é o grande desafio e é realmente a grande busca da vida. Não fui ensinada a encontrar esse lugar em mim e talvez por isso tenha sido tão difícil crescer. Todos os consolos que conhecia eram exteriores, estavam fora de mim e aceder a eles era algo que, na maioria das vezes não dependia de mim. Mesmo quando rezava e invocava Deus era sempre a invocação de um estranho, que, de algum modo, haveria de aparecer de qualquer lado para me salvar. É certo que, de uma forma ou de outra, acabei sempre por encontrar essa salvação, mas não a procurava onde realmente deveria procura-la, num Deus que habitasse em mim, que me fosse intimo, que me conhecesse e em quem eu realmente confiasse de maneira incondicional. Um Deus que tomasse conta de mim enquanto eu descansava e que gostasse sempre de mim, mesmo quando eu não era a melhor rapariga do mundo. Só quando se encontra um Deus assim é que é possível o abandono, é que é possível acreditar que tudo é como tem que ser, que tudo está bem e que é possível ter paz e esperança. Não sei se algum dia serei verdadeiramente íntima desse Deus, mas sei que já me encontrei com ele por diversas vezes e que os nossos encontros são cada vez mais frequentes. A verdade é que sempre que o chamei ele veio ao meu encontro e abriu portas e janelas onde eu pensava que havia apenas caves escuras e muros impenetráveis pelo sol. Por várias vezes deu-me forças para derrubar os muros, outras vezes ele próprio os derrubou por mim. Todos estes meus encontros com Deus são bem-humorados, tenho a certeza que Deus se ri dos seus próprios milagres, afinal para ele os milagres são brincadeiras de criança.


Quando eu era criança, as crianças não estabeleciam qualquer relação directa com Deus, entre Deus e uma criança há sempre um intermediário adulto, um pai, uma mãe, uma tia, alguém. É como se Deus não se interessasse por crianças, das crianças tratam os adultos, dos adultos trata Deus. Estava tão convencida disto que sempre que rezava para pedir alguma coisa a Deus não esperava que fosse ele a dar-ma. Certa vez, no Natal, eu queria muito receber de presente um boneco nenuco que todos me diziam ser demasiado caro e que só as meninas ricas poderiam ter. Decidi então pedir a Deus que desse dinheiro à minha família para me comprarem o nenuco. Deus respondeu-me dando-me o nenuco sem dar mais dinheiro à minha família. Recebi o boneco como prenda de Natal da empresa onde o meu trabalhava. Ainda hoje não sei se Deus tivesse acedido ao meu pedido de dar dinheiro à minha família, eles o gastariam para me oferecerem o nenuco. Desta vez aprendi uma coisa, o melhor é pedir directamente o que quero, expressar apenas os meus desejos e deixar a Deus o trabalho de descobrir como os realizar.

sábado, 12 de novembro de 2011

Avó



Hoje vieram-me à memória os passeios de Verão com os meus avós. Saímos de carro, não íamos muito longe até porque Portugal é um país pequeno, mas descobríamos muitas coisas novas. Os meus avós eram pessoas alegres. A minha avô era uma mulher encantadora, fazia amizade com toda a gente, por onde quer que andássemos ela sempre encontrava alguém com quem conversar e as pessoas correspondiam facilmente ao seu desejo de conversa. Falava com todos, o que lhe permitiu adquirir uma sabedoria imensa. Para ela as pessoas eram todas basicamente iguais e o modo como os defeitos e virtudes se repartiam pela humanidade não lhe despertavam qualquer paixão. Era uma mulher que gostava de pessoas e as pessoas gostavam dela. A sua simpatia e a atenção que dedicava aos outros, movida pela sua imensa curiosidade, faziam dela uma amiga desejada. Nunca me pareceu que a minha avó necessitasse de qualquer companhia em especial, era independente, vivia segundo as suas próprias regras e tinha a sua própria leitura da sociedade. Era uma mulher tolerante, dentro dos limites daquilo que, para ela, representava a decência. Gostava de estar sozinha, a solidão era uma espécie de bênção. Dedicava-se aos seus gatos quase todos amarelos e gordos e ao seu magnífico jardim de rosas que sempre me pareceu demasiado selvagem. Isto no tempo em que ainda havia um jardim, uma pequena vinha, árvores de maça bravo-de-esmofo, dois limoeiros atrás da casa, uma laranjeira em frente ao galinheiro, uma figueira atrás do galinheiro e dois ou três pessegueiros que faziam sombra às videiras. O jardim organizava-se em estreitos canteiros, delimitado por um labirinto de estreitos corredores de cimento. Num desses canteiros habitavam os morangos. Não eram morangos como os que se compram hoje no supermercado, eram morangos pequeninos e grandes, vermelhos e saborosos. Eu sentava-me na berma do canteiro e pesquisava por entre as folhas os morangos maduros. Nessa altura estava certa de não ser possível existirem dois morangos iguais, hoje parece-me estranho quando, numa caixa de morangos, algum se distingue dos seus companheiros.     

Sempre gostei de morangos, mal começavam os primeiros raios de sol eu debruçava-me sobre o canteiro e dava início à minha busca. Apreciava as flores, sem lhes tocar para não magoar os moranguinhos que aí começavam a formar-se. Depois via as pétalas caírem e lá no meio aparecia uma bolinha que começava por ser verde e que em breve seria branca. Essa bolinha crescia mais ou menos conforme a sua vontade e ganhava cor, vermelha e apetitosa. Com os morangos coabitavam caracóis, a minha avó retirava os caracóis do canteiro dos morangos e colocava-os junto ao muro que sustentava aquele calço, mas eles voltavam, gostavam de morangos e secretamente eu sabia que os morangos também gostavam deles.

Quando os meus avós se mudaram para um apartamento eu já estava na Universidade e não me apercebi da terrível mudança que estava a acontecer na minha família. Eu tinha saudades dos morangos, das rosas, dos gatos, mas não conseguia expressar os meus sentimentos e também não teria valido de nada fazê-lo. Eu já não pertencia aquele lugar, o meu desejo de fugir, de ser Eu, de conquistar, de conhecer e de saber já me tinha empurrado para fora dali. Fiz como todos, disse duas ou três coisas que me pareceram oportunas acerca das vantagens de morar num apartamento e segui com a minha vida, os meus sonhos, os meus desejos.

Isto vem a propósito da minha avô. Ela era realmente alegre, uma alegria inteligente, com um sentido de humor muito próprio. Desde que me lembro de mim como pessoa que me lembro da cozinha da casa dos meus avós. A cozinha era, verdadeiramente, a serventia da casa. A porta da cozinha era a entrada principal e o que era realmente importante acontecia na cozinha, começava ou acabava na cozinha. Até era na cozinha que o Pai-Natal deixava os presentes. Era uma cozinha vulgar, pequena, de forma rectangular com balcões e armários ao longo de cada uma das paredes. Na cozinha havia uma porta que franqueava o acesso a toda a casa e sobre essa porta um prato de louça com um dito popular: “cá em casa manda ela e nela mando eu” a esta frase a minha avó tinha por hábito acrescentar “diz o Baptista assim, com uma cara de judeu”. Hoje não seria politicamente correcto invocar os judeus desta maneira, mas na altura era apenas mais um motivo para nos rirmos.

Quando eu era criança o riso era fácil, sobretudo com os meus avós. A minha avó tinha um especial talento para encontrar piada nas coisas mais simples do dia-a-dia, fazia piadas com quase tudo, gostava de “gozar” com as situações mas não me recordo de que alguma vez tenha sido incorrecta ou ofensiva para alguém. A verdade é que tinha sempre histórias divertidas para nos contar, embora raramente tais histórias fossem relatos fidedignos de qualquer acontecimento, haveria sempre que contar com a imaginação da vovó.