sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O Jardim


Cada um de nós tinha um segredo guardado atrás de um qualquer banco daquele Jardim. Todos nós atravessavamos a rua, discretos, contornavamos a frente do jardim, aquela que se abria ampla para o Paço do Munícipo e, subindo a rua, procuravamos a pequena vereda que descia em direcção à parte de trás do coreto. Em tempos, nos idos anos de meados do século passado, por esse mesmo caminho desciam, todos os Domingos, os músicos da banda que animava a saída da missa e enchia de som e alegria as manhãs quentes e ensolaradas. Quando nós começamos a procurar a paz, a sombra e a magia do Jardim há muito que este tinha perdido a música dominical. O coreto envelhecia tristemente, as tábuas do palco, ora húmidas, ora ressequidas, não eram mais pisadas pelo aprumo dos músicos, apodreciam esquecidas da beleza do som. A cobertura já não o protegia das chuvas e o coreto acumulava a tristeza do abandono.

O Jardim não tinha sido a nossa primeira escolha. Tinhamos tentado os bancos de cimento no passeio junto ao Douro mas o rio, apesar de belo e mágico, era, também, quente e demasiado imponente para ser confortável.  Depois seguimos para outros locais, o Adro da Capela, a Alameda, mas o Jardim tinha outro encanto e o coreto atirava a nossa imaginação para o passado. Ninguém decidiu, não se discutiu qual o seria o nosso ponto de encontro apenas deixamos que o Jadim tomasse conta de nós e guardasse o segredo da nossa amizade naquele que seria o último verão da nossa adolescência.

As tardes quentes eram passadas entre a descoberta dos poemas que os nossos corações plenos de emoção nos ofereciam e os risos fáceis das nossas vidas triviais. Cada um tinha os seus sonhos, eu queria viajar e conquistar o mundo, mas a Joana só queria conquistar o coração do Mário. O Mário jogava xadrés e lia banda desenhada. Eu estava apaixonada pelo Paulo, mas o Paulo estava mais interessado na sua viola. O João confessava o seu amor pela prima do  Alfredo que vivia na Figueira da Foz e passara connosco as duas primeiras semanas de férias. Nenhum de nós estava feliz com a sua própria existência, partilhavamos as nossas angústias e ensaiavamos as dores dos adultos. Numa noite desse verão o Paulo levou a sua viola para o Jardim e juntou o seu som às nossas vozes. Em breve todos partiriamos, o tempo das vindimas estava a chegar ... Um novo começo para muitos, o fim da inocência para nós, os amigos do Jardim.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Silêncio


Eu fiquei de olhos fechados a ouvir a água do teu banho a correr. Deixei-me ficar ali, acordada mas de olhos fechados, a procurar na memória cada detalhe do quarto. Estava deitada, o teu cheiro estava por todo o lado e conhecia-o demasiado bem, tudo o resto me era estranho. Não tinha vontade de acordar, nem tinha vontade de ficar alí, se ao menos tu cantasses no duche ... mas não, tudo é silêncio entre nós.

Levantei-me quando te vi chegar, forçaste um sorriso que eu retribui com mais silêncio. Era a minha vez de usar a casa-de-banho e o cheiro do teu perfume invadia tudo. Apesar de intenso, eu sabia que aquele cheiro não me acompanharia, não se colaria à minha pele, nem à minha roupa e não deixaria qualquer impressão na minha memória. Também não guardaria recordações daquele local, não saberia dizer a cor das paredes, a disposição dos móveis ou sequer o nome das flores de que gostei tanto. Também não guardei as tuas palavras, nem os teus desejos, nem o toque dos teus lábios na minha pele, não tenho nada de teu.

Só guardo, precioso, o silêncio.

sábado, 22 de outubro de 2011

Não Venhas




Estou sentada num pequeno muro em frente ao mar e, entre nós, a praia de um fim-de-tarde de Maio. O vento fraco e frio arrefeceu o meu nariz e um ligeiro desconforto percorreu o meu corpo. Não sei há quanto tempo estou aqui, o mar é tão bonito, as ondas a baterem nas rochas que rodeiam a pequena praia acalmam os meus pensamentos. Vim até aqui para pensar, para organizar os meus pensamentos e para decidir a minha vida, mas o mar, o vento, o barulho e o cheiro deste local tomaram conta de mim, do meu corpo e da minha mente. Não sobra espaço para o pensamento. Não sei ao certo que horas são, fico por mais alguns minutos, não reflecti sobre os meus problemas nem tomei nenhuma decisão, continuo sem saber o que fazer  mas estou tranquila, há em mim uma rara harmonia. Entro no carro e pela primeira vez em muitos dias sinto fome, uma vontade enorme de me sentar em frente de um bife com batatas fritas e uma cerveja preta. 

Há momentos em que nada é mais importante do que um bom bife com batatas fritas e uma cerveja preta. Como sozinha, sentada na mesa mais central da cervejaria, ali estou no local onde tudo acontece, onde os amigos se encontram, onde se realizam os pedidos e se formulam os desejos. Reparo nas famílias, nos grupos de amigos, nos casais e sinto a estranheza dos outros ao perceberem que estou sozinha. Sorrio para as pessoas, falo com uma criança que se aproxima de mim, pago a minha conta e vou para casa.

Estou cansada, tenho sono, quero chegar à minha cama, deitar-me e dormir um sono sem sonhos. Tudo acontece segundo o meu desejo, chego a casa, deito-me na cama desfeita sem tirar a roupa, adormeço profundamente e sou acordada a meio do meu sono pelo toque do telemóvel: - "Hoje chego tarde." Eu respondo: - " Não venhas."  

sábado, 8 de outubro de 2011

TEATRO



Sempre gostei de teatro, tenho pelo teatro um profundo amor, um amor confortável, sereno, seguro, que não me decepciona nem me desilude. Não é uma paixão é mesmo um grande amor. Amar desta forma significa que não saio decepcionada de um espectáculo. Os actores podem ser canastrões, o texto ser mau, não se dar conta da encenação, a sala estar demasiado quente ou fria, ainda assim eu gosto de ir ao teatro. Há alturas que me afasto, fico longe por muito tempo e regresso, como só um grande amor permite regressar. Mas também há alturas que ao meu amor se soma a paixão. Saio arrebata de um espectáculo. As palavras das personagens perseguem-me durante dias, ao menor descuido instalam-se na minha imaginação, tomam conta dos meus momentos ausentes. 

Algumas pessoas, sabendo que vou muito ao teatro, fazem-me perguntas sobre actores, sobre peças, sobre dramaturgos, raramente sei as respostas. Quanto aos actores apenas conheço os nomes dos meus amigos ou, muito excepcionalmente, algum cujos personagens me marcaram mais profundamente. Mas afinal quem quer saber dos actores se temos os personagens? São os personagens que me apaixonam, com eles posso construir novas histórias e enriquecer o meu mundo.  

Tenho alguns livros de teatro, não tanto sobre teatro mas textos de teatro, dramaturgia. Todos oferecidos. Com excepção de uma "história do teatro" não devo de ter lido nenhum, não tenho imaginação suficiente para isso, eu preciso que tudo me seja servido num palco e anseio, sobretudo, por pessoas que encarnem  os meus fantasmas, me digam o que sentem e me façam sentir.

Esta semana fui duas vezes ao teatro e estou de novo apaixonada. 

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

RITA



Era sexta-feira, a primeira sexta-feira de Setembro, um vento quente e seco deixava em desalinho o cabelo que ia afastando da frente da cara enquanto pensava se não seria melhor esperar pela Rita dentro do bar. Mas fui ficando, com uma mão segurava o cabelo, com a outra segurava as páginas do livro que há vários dias me acompanhava. Parecia não ter fim ... ou era eu que não lhe dedicava a atenção suficiente para lhe ver o fim. Finalmente a Rita chegou. Sorridente, de passo apressado, maquilhagem quase apagada, a sua enorme carteira e os sapatos de meio salto. Nem sei há quanto tempo conheço a Rita, lembro-me da Rita na faculdade, mas antes disso já nos havíamos encontrado numa festa, em casa de uma prima (minha ou dela). Nunca fomos amigas intimas mas o tempo e as circunstâncias, que ora nos aproximavam, ora nos afastavam, teceram entre nós uma relação confortável, afectuosa, de mútua admiração e compreensão. 

- Estou atrasada. Desculpa-me.
- Não faz mal, estava a ler.
- Aproveitas sempre o tempo. É isso que admiro em ti, não te deixas vencer pelo tédio.
- O tédio é realmente o que mais me preocupa - Respondi-lhe enquanto me levantava para lhe dar um beijo e a empurrava para dentro do bar. O vento estava insuportável. 

A Rita sentou-se ao meu lado, segurou a minha mão e pela primeira vez vi medo no seu olhar, um medo estranho, o medo de quem não sabe para onde ir. Perguntei-lhe se estava tudo bem, se tinha algum problema, se os filhos estavam bem. Ela abanava a cabeça afirmativamente a cada pergunta minha, mas não largava a minha mão, ficava ali a segurar-me a mão numa carícia e a olhar-me como quem procura as palavras.

- Estou apaixonada ... 
Eu disse: - Mas isso é bom ...
- Não é nada bom. Ele é mais novo do que eu e trabalha numa pizzaria.
- Qual é o problema? A esta altura da vida uma aventura estonteante não vai fazer-te mal. 
- E se não for uma aventura? 
Senti medo nesta pergunta. Nada mais me restava do que afirmar a minha certeza: - É uma aventura e uma mulher de 45 anos, divorciada, independente e com dois filhos tem direito a ter uma aventura. 
- Achas que não devo preocupar-me?
- Sinceramente acho que não. Vamos brindar à tua aventura. Espero que ele seja realmente jovem, fresco, descontraído e que o sexo seja fantástico.
A Rita sorriu-me, sentia-se aliviada, eu não tinha dito exactamente o que ela espera ouvir mas sim o que ela  mais gostaria de ouvir. Despedimos-nos com um abraço e um beijo, ela entrou no seu carro e eu no meu.

Enquanto conduzia até casa recordei cada uma das palavras da Rita, o seu entusiasmo com o novo namorado e o sorriso aberto quando eu a apoiei. Pensei em como a Rita era corajosa e bonita, como a sua vida tinha sido tantas vezes difícil e como ela sorria sempre. A Rita merece viver este amor. 


terça-feira, 4 de outubro de 2011

"Tradições que Vivem"



 Fundação INATEL, que se encontra acreditada como Organização Não-Governamental apta a prestar serviços de consultoria ao Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da UNESCO, organiza em conjunto com a Comissão Nacional da UNESCO, um Encontro sobre Património Cultural Imaterial onde as associações culturais que desenvolvem trabalho na área do PCI, representando as suas comunidades, e os académicos (antropólogos, etnomusicólogos, etc.) se possam reunir num diálogo aberto sobre o Património Cultural Imaterial e sobre a Convenção para a sua salvaguarda.
Neste Encontro, as colectividades associadas à Fundação e outras instituições da sociedade civil terão o seu espaço para mostrar e apresentar o seu trabalho em termos de salvaguarda do seu PCI, promovendo a reflexão e sensibilização para o tema.
O Programa do Encontro compreenderá quatro painéis (“As Instituições e a Convenção para a Salvaguarda do PCI”, “Tradições Orais”, “Artesanato e o Saber Fazer”, “Passados no Presente”), que serão constituídos por um moderador e três ou quatro oradores, em representação de entidades com actuação nessas áreas, e dois Estudos de Caso (“Bonecos de Santo Aleixo” e “Candidatura do Fado à Lista Representativa do PCI da Humanidade”), que terão uma vertente mais prática. Após cada painel haverá um espaço alargado de debate aberto ao público.
Haverá ainda lugar à apresentação de três comunicações que serão previamente seleccionadas pela Fundação INATEL e pela Comissão Nacional da UNESCO.
Complementando este Encontro, será elaborado um programa de animação cultural com música tradicional, exposições temáticas, exibição do filme Sinfonia Imaterial e uma visita facultativa ao Museu da Cerâmica das Caldas da Rainha.
Informações:

Calçada de Sant’Ana, 180 - 1169-062 Lisboa
Tel: 210 027 141
E-mailpatrimonioimaterial@inatel.pt



"Tradições que Vivem"

Sangue jovem


Sigrid, uma mulher só, na casa dos sessenta, sem vida pessoal e uma carreira artística congelada, sente-se envelhecer e decide libertar-se de fantasmas do passado.
A sua relação com duas amigas de escola impediram-na de ser mulher e é hoje vivida como uma prisão. A reunião anual entre as três mulheres tornou-se num ritual insuportável para Sigrid, a cada reunião retoma-se a dinâmica infantil e cruel, e o confronto “entre as feridas antigas e as dores do presente” é-lhe cada vez mais violento. Este ano, Bet e Lily são postas à prova quando Sigrid, farta de ser a Sigge, a “amiguinha estranha”, paga ao filho dos vizinhos, um jovem ator chamado Allan, para se fazer passar por seu amante. Allan, fascinado pelo mistério que envolve Sigrid, aceita a proposta. Perante a notícia da doença de Bet, Sigrid hesita em levar o plano a avante e é Allan quem assume o papel de vingador, crente, por momentos, na possibilidade de um amor entre os dois.

Sangue jovem