segunda-feira, 26 de setembro de 2011

FIM-DE-SEMANA


Olá! Disse-me Maria sem tirar os olhos do computador.
Olá! Respondi mecanicamente. Quando me sentei na secretaria em frente, reparei que Maria tinha o olhar de uma criança assustada, que o seu corpo era frágil e que o seu sorriso escondia uma profunda tristeza. De onde vinha aquela tristeza de Maria? Provavelmente de lugar nenhum, seria apenas a minha imaginação em busca de histórias tristes e complexas nos rostos de pessoas simples.

Maria interrompe os meus pensamentos com uma pergunta trivial: - Como foi o fim-de-semana? Normal, como todos os outros, fiquei em casa a arrumar o quarto dos miúdos, a passar a ferro, a cozinhar para toda a semana.... ainda tive tempo para pintar o cabelo e arranjar as unhas – respondo de rajada. Não lhe pergunto nada, mas Maria diz-me: - Passei o sábado no hospital com o Raul, a mudança de tempo é terrível para os asmáticos, o Raul teve falta de ar e passamos uma boa parte da tarde de sábado na urgência do hospital, nos aerossóis. Finjo interessar-me pela asma do filho de Maria. É fácil estabelecer conversa quando o tema são os filhos, todas as mulheres gostam de falar dos seus filhos e todas as mulheres fingem interessar-se pelos problemas dos filhos das outras.
 
O computador está agora a funcionar, dou uma vista de olhos no outlook à procura de alguma mensagem diferente, à espera de algo realmente novo, continuo a acalentar uma certa esperança de que uma revelação mágica chegue num e.mail, mas ainda não é hoje. Lá estão os habituais anúncios a uma nova pílula que promete uma sexualidade vibrante e apaixonada, publicidade a um novo PC e algumas mensagens de amigos e conhecidos, umas com fotografias, outras com histórias divertidas ou com pensamentos profundos. Pergunto-me acerca do tipo de pessoas que se dedicam a produzir estes e.mails, a verdade é que os há maravilhosos e, também, horríveis, alguns chegam na hora certa e ficam guardados por muito tempo, outros têm como destino imediato o “caixote do lixo” electrónico.

Na sala ao lado os meus colegas conversam animadamente, apenas eu e Maria estamos no nosso sítio numa aparência de trabalho, ela bate rapidamente no teclado e eu finjo concentrar-me numa mensagem importante, numa informação decisiva que acabo de obter. Nem ela, nem eu estamos interessadas na conversa dos nossos colegas. Os risos soam alto na sala ao lado, as vozes sobrepõem-se e apesar da proximidade, apenas uma parede nos separa, não é possível destinguir o que cada um diz. Não há telefones a tocar, nem dossiês a passar de mão em mão, nem assuntos para tratar, nem projectos novos, só risos na sala ao lado e a inconsciência de quem se sente seguro, seguro de si, seguro do lugar que ocupa na organização.

De repente, uma insegurança profunda invade-me, sinto a precariedade dos dias, sinto a necessidade de um sorriso autêntico e de uma preocupação sincera. Pergunto a Maria como acordou hoje o seu filho. De novo, o sorriso triste invade o seu rosto e responde: - “bem, graças a Deus bem”. A conversa fica por aqui, espero que Maria tenha percebido a minha preocupação sincera com o estado de saúde do seu filho. Digo para mim mesma que incluirei Raul no rol das pessoas por quem rezo todas as noites. Na sala ao lado os risos desapareceram, agora são as vozes que soam mais alto, algumas altercadas e duras, uma discussão, um desentendimento entre eles e rapidamente os risos deram lugar às palavras duras, a uma desmedida agressividade. Cada um volta ao seu gabinete, amargo, mais sem vontade de fazer nada. E a manha corre lenta, é quase meio-dia.

Finalmente seis da tarde, finalmente sexta-feira. Olho por cima do écran do computador e através da janela vejo a rua, uma nesga de vida fora das paredes do gabinete. Maria penteia o cabelo descolorado, o seu rosto abre-se num sorriso menos triste, este fim-de-semana vai ao Fundão, à terra da sua infância, vai ver os pais, o irmão, a cunhada e os dois sobrinhos. Sai apressada, ainda tem tantas coisas para preparar e o fim-de-semana é tão curto.... Volto a olhar para a rua e penso no que vou fazer para o jantar, ainda tenho que passar no supermercado, depois penso na roupa pendurada no varal, na chuva que não a deixou secar, no quarto desarrumado dos miúdos, no almoço que tenho de retribuir, nas embalagens de alumínio onde congelo comida para toda a semana, finalmente penso que o fim-de-semana chegou, é, finalmente, sexta-feira.

(Escrito em 2 de Nov.2005)

sábado, 24 de setembro de 2011

(2) O AMOR



"Nunca ter desilusões no amor é um privilégio dos imbecis."
Provérbio 

Nunca esperei pela minha história de amor, estava tão certa que ela me apanharia, que era tão inevitável, que o melhor mesmo seria aproveitar o tempo de que dispunha. Nesta certeza crescer foi fácil, com o encanto das roupas para bonecas, das camisolas de lã e dos livros. Não gostava de "bonecos chorões", que pareciam bebés, interessavam-me especialmente as bonecas elegantes, que eu podia vestir, despir e pentear. A minha boneca predilecta falava, apertava-lhe a barriga e ela dizia: - "buenos dias, habla comigo". Era espanhola. Um dia o meu irmão decidiu desvendar o mistério da boneca falante e arrancou-lhe do peito um pequeno disco de plástico e duas pilhas. Quebrou-se o encanto, deixei as bonecas e dediquei-me definitivamente aos livros.

Os livros faziam parte da decoração lá de casa, havia livros bonitos, encadernados, que o meu pai comprava em colecções, por autores. Não eram esses os livros que me interessavam, eram outros, pequenos, de capa mole, que comprava no Porto. Nos meus aniversários todos os meus amigos me ofereciam livros, a família oferecia-me roupa e sapatos. O meu interesse pela leitura era apreciado lá em casa o que facilitava a compra dos livros, isto apesar de nenhum deles mostrar qualquer interesse especial por ler.

Comecei pelos livros juvenis, a série "Os Cinco", mas rapidamente passei para os livros de aventuras que lia com a ajuda de um atlas gigante do Circulo de Leitores. Depois foram os romances, os clássicos portugueses e quase por acaso descobri Pearl Buck. Li todos os seus livros, os traduzidos e apaixonei-me por todos os lugares distantes e exóticos dos seus romances. Mais do que nunca o atlas era imprescindível. O meu gosto pelas viagens começou nos livros, sonhava percorrer o mundo.

Teria 14 anos quando começou o meu interesse pela política. Não foi uma opção, foi uma imposição. A minha verdadeira paixão era o teatro, mas naquela pequena cidade não havia teatro. Não havia grupos de teatro e o cine-teatro raramente recebia companhias. Ali nada mais restava do que a política e o atletismo, dediquei-me a ambos. Entre os 15 e os 17 anos tive um único objectivo: conhecer o mundo e dar-me a conhecer ao mundo. A militância numa organização política de juventude deu uma ajuda: havia reuniões em outras cidades, novos conhecidos, jovens que vinham de Lisboa, era uma janela para o mundo.

Foi nessa altura que a minha história de amor me apanhou, pelo menos foi isso que pensei durante as férias de verão. Quando o outono chegou e a vida regressou à normalidade eu não senti a ausência do meu amor, não senti que me faltasse alguma coisa e admiti que, a ser assim, eu não o amava. Foi a minha primeira desilusão de amor. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

(1) O AMOR



"Parece-me fácil viver sem ódio, coisa que nunca senti. Mas viver sem amor acho impossível."
Jorge Luís Borges



Cresci no meio de histórias de amor, cada uma das pessoas do meu mundo tinha uma história de amor para contar, eu própria era o resultado de uma bela história de amor. Todos à minha volta estavam condenados a viver as suas histórias de amor. A Maria, que logo pela manhã chegava com o pão ainda quente e se sentava num banco, encostada ao balcão da cozinha, a comer as sopas de café com as sobras de pão da véspera, aceitava o mau vinho do José, porque, tirando isso, ele até era bom homem e ela prometera, perante Deus e os homens, amá-lo. Quando o José bebia e a Maria chegava com os olhos inchados e o corpo negro, as mulheres da casa confortavam-na e não raras vezes ouvi a minha avô a ralhar com o José: - "que isto não podia ser" "que a Maria não merecia." O José ouvia calado, com os olhos marejados de lágrimas, implorando um silencioso perdão. - "Vá lá homem tens que saber beber". Gritava-lhe o meu avô do fundo do corredor. E o José murmurava: -"Eu gosto dela, não poderia viver sem ela, mas tenho mau vinho ..." Também o José tinha a sua história de amor.

A história de amor dos meus avós era a mais antiga história de amor lá em casa. Havia outras, ainda mais antigas, mas dessas eu só ouvira falar. Por amor a minha avó até tinha trabalhado durante algum tempo, nos primeiros anos de casada. A vida era difícil, o mundo estava em guerra e ela tinha que ajudar o marido. Felizmente as coisas melhoraram e por amor ela dedicou a sua vida a cuidar da sua casa, dos seus filhos, do seu marido e das suas maravilhosas roseiras. Mas o seu amor não era em vão, como me parecia ser o amor da Maria. O meu avô era atencioso, um bom "chefe de família", homem trabalhador, temente a Deus e respeitado. O meu avô  não falava de amor como as mulheres, mas eu sabia que quando ele chegava a casa com o queijo da serra, com uma bola-de-lamego ou com as primeiras cerejas da época isso era por amor à minha avó.

A mais fascinante e bela história de amor, aquela que apenas a minha avó testemunhara e da qual nos dava vagas noticias, era a história de amor da sua irmã, a minha tia-avó. Há muitos anos tinha jurado amor eterno a um jovem estudante de Coimbra que morrera tuberculoso. Foi fel à sua promessa e por amor dele viveu dedicada aos irmãos, aos sobrinhos e a si própria. Morreu num lar, muito velhinha,  três dias antes de completar 100 anos, agradecendo a Deus a sua longa vida. Herdei dela um guarda-jóias, uma pequena peça de madeira, decorada a madrepérola e prata. Gosto de imaginar que aquele guarda-jóias terá sido um presente do seu amado, um testemunho desse amor distante.

Desde cedo soube que também eu teria a minha história de amor.

(Continua)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

POLÍTICA E JUSTIÇA

"O meu ideal político é a democracia, para que todo o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado."
Albert Einstein

Quase que prometi a mim mesma não escrever sobre política, afinal queria que este espaço fosse intimista e que tocasse as nossas emoções mais profundas. Erro meu pensar que seria possível a emoção sem a política, afinal como nos diz André Chamson "todos os nossos pensamentos tocam na política."

O facto que tem estado no centro da discussão política nacional nos últimos dias tem sido a ocultação da dívida pública da Região Autonoma da Madeira, cujas consequências para as contas nacionais e para a credibilidade de Portugal perante os seus credores e parceiros internacionais, dentro e fora da Europa, estão ainda por avaliar em todas as suas dimensões. Perante esta situação levantaram-se logo as vozes exaltadas dos que gritavam: "- Prendam-no!". E, como não podia deixar de ser, reclamava-se já a prisão de mais uns quantos políticos.

Mas, em que condições podem os políticos ser julgados e punidos criminalmente? A resposta é aparentemente simples: - sempre que a sua acção ou omissão corresponda á prática de um crime, previsto e punido pela lei. Sendo que "nullum crimen sine lege", ou seja, para que a prática de um determinado acto seja considerada crime terá que existir uma lei prévia que a preveja e a qualifique como tal. Este é o princípio da responsabilidade criminal que se aplica a todos os cidadãos, incluindo os políticos. 

A responsabilidade política é algo de diferente, tem a mais a ver com o modo como se prossegue a acção política. A responsabilidade política tem a ver com a capacidade de defender o bem comum e o bem estar de toda a sociedade, seguindo um programa político transparente tendo em vista atingir determinados objectivos. O político tem de ser capaz de se preocupar com o bem público e mostrar aos demais membros da sociedade que assume a responsabilidade pela consecução destes objetivos. É isto que é avaliado em eleições. Isto é que é a responsabilidade política.

Num Estado de Direito e numa sociedade democrática, responsabilidade política e responsabilidade criminal não se afastam mutuamente, antes pelo contrário. O equilibrio entre o domínio da política e o da justiça nem sempre é fácil de obter, mas dele depende, em grande medida, a sobrevivência das democracias. É  tão grave a existência de um poder político que se intrometa na justiça, como de um poder judicial que se intrometa na política.

Quanto ao caso da Madeira e do Presidente do Governo Regional funcionem as instâncias políticas, em especial o Presidente da República com responsabilidades constitucionais quanto ao funcionamento das instituições democráticas e apurem-se as eventuais responsabilidades criminais. Mas, não misturem as duas coisas.




O ENCONTRO



"Quem é um amigo? - Um outro Eu"
Zenão Eléia

Ontem uma amiga disse-me: - "Quero agradecer-te. Faz hoje 5 anos que me levaste a conhecer um amigo teu, que é hoje meu grande amigo." Recordei exactamente esse dia, como lhe falei do meu amigo e como me parecia importante que ela o conhecesse. E lá fomos as duas a casa dele.

Como sempre, o Alfredo recebeu-me calorosamente. Abraçou-me e abraçou a minha amiga como se a conhecesse há muitos anos. Ficamos ali os três, era uma tarde de fim-de-verão mas ainda não se ouvia a chegada do outuno. Eu falei de mim, informações gerais sobre o trabalho, as minhas filhas, os meus projectos, o Alfredo ouviu-me com atenção e alegrou-se com as boas notícias. Depois a minha amiga falou da sua tristeza, trazia com ela as dores dos filhos, as duvidas sobre o trabalho, as mágoas de velhos amores. E ele olhou-a e deu-lhe conselhos, recomendou-lhe coisas simples - "dorme bem", "come bem, legumes, cereais integrais", "descansa e medita". Enquanto lhe falava num tom de voz suave e baixo, pegou-lhe nas mãos e acariciou-as. Eu prendi-me naquele gesto suave e terno, fiquei a vê-la sorrir. Por fim, o Alfredo pediu-nos silêncio, fechamos os olhos, meditamos (eu pensava no que ainda tinha que fazer até ao final do dia) e cantamos, ou melhor, recitamos em voz alta um mantra melodioso.

Na viagem de regresso a minha amiga estava em paz, mas também estava fascinada com aquele homem bonito, alto, de barbas e cabelos brancos, no final dos cinquentas ... Um homem belo e fascinante. Eu perguntava a mim mesma porque razão não havia ainda reparado na sua beleza e sensualidade. Admirava a sua inteligência, dava-me prazer a sua gargalhada sonora que se soltava do funda da alma e me contagiava de alegria. Tinha conversado com ele durante horas e nunca me havia faltado assunto, mas faltou-me aquele sentimento de femea que reconhece um macho. E foi exactamente essa emoção que a minha amiga sentiu, a primeira, a mais visceral das emoções humanas, aquela que, num relance, nos desperta para a existência de nós mesmos.

Prometi a mim mesma procurar na arca dos sentimentos aprisionados aquele que estava a fazer-me falta. A minha amiga prometeu ajudar-me, foi-me falando como mulher, contou-me histórias sagradas de deusas antigas e depois contou-me histórias de outras mulheres como se fossem a sua própria história. Eu ouvia as histórias e a minha imaginação tornava-as ainda mais fantásticas, mais misteriosas e mais maravilhosas. 

Passaram cinco anos e nenhuma de nós esqueceu esse encontro. Ela ganhou um grande amigo, que mudou para sempre a sua vida. Eu ganhei um pouco mais de mim mesma, o que também mudou a minha vida. Falta-me saber o que ganhou o Alfredo ...

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A LANTERNA

"Se o homem carrega a sua própria lanterna, não precisa de ter medo do escuro."
Provérbio Judaico

Desde criança que escrevo. Escrever foi a formula secreta de vencer o medo, ou melhor, de ir vencendo os meus medos. Escrever é a minha maneira de avaliar e meditar sobre as coisas que vão acontecendo, mas é também a melhor forma de fazer as coisas acontecer. Ao longo dos anos escrevi dezenas de cadernos a que chamei "diários", muitos se perderam (da minha infância e da juventude não resta nenhum) mas nos últimos tempos tenho tido alguma preocupação em conservá-los, cuidar deles. 

Nas longas noites da vida a escrita tem sido a minha lanterna e foi ela que muitas vezes me salvou das trevas. Escrever obriga-me a corrigir os pensamentos, a prespectivar as emoções, a avaliar os meus muitos medos e a perceber que há sempre, pelo menos, duas opções: a minha e a outra, que eu invento.

Decidi começar este blog porque me tornei leitora dos meus "diários" e há neles uma lição: "Nada Temer". Aqui vou contar histórias, umas verdadeiras outras nem tanto, vou partilhar as minhas opiniões sobre vários assuntos e deixar que as emoções vividas transpareçam na escrita. É um projecto pessoal que não tem qualquer objectivo literário, político ou social. O meu objectivo é escrever e deixar em aberto a possibilidade de alguém ler o que eu escrevo. Não será nunca uma escrita intíma (essa está reservada aos diários) mas será intimista.

- Porque escreves? - perguntou um dia a minha mãe.
- É para vencer o medo.