quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O Tédio



Há alguns dias que não escrevo, nem aqui, nem nos cadernos de papel, não me tem apetecido escrever. Há demasiado tédio para que me apetecer escrever. Também não me apetece trabalhar, não me apetece estar em casa e não me apetece sair. Fico, por vezes, a olhar para o ecrã do PC á espera que algo aconteça, que me chegue algo de novo, ou estimulante, ou verdadeiramente revolucionário. Alimento essa quimera de uma mensagem inesperada, alguém que se lembre que eu existo, que eu estou aqui, à espera de algo que não sei o que é. Alguém que me interprete, me adivinhe. 

A vida segue igual, muito embora a minha vida nem seja assim tão igual a outras vidas. Tenho este condão de ir realizando alguns sonhos, de ir adiando outros e de, invariavelmente, me sentir vazia, sem nada de verdadeiramente substancial. Gosto de pessoas autónomas, cada um a viver a sua vida tal, como eu vivo a minha. 

Temos um destino comum: o de cada um ter de tratar dos seus próprios sonhos e dos seus fracassos, isto é mesmo assim. As nossas histórias pessoais fazem-se com meia dúzia de dias interessantes, marcantes e memoráveis e milhares de dias de rotinas e tédio.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Eu e Deus







"Haja ou não Deuses, deles somos servos."
Fernando Pessoa


Nas situações dramáticas, em que tudo parece perdido, em que o desespero parece ser a única resposta possível há uma força que se abriga dentro de nós, há um jardim onde nos podemos refugiar e que realmente é um local de paz e de tranquilidade. Ser capaz de encontrar esse jardim é o grande desafio e é realmente a grande busca da vida. Não fui ensinada a encontrar esse lugar em mim e talvez por isso tenha sido tão difícil crescer. Todos os consolos que conhecia eram exteriores, estavam fora de mim e aceder a eles era algo que, na maioria das vezes não dependia de mim. Mesmo quando rezava e invocava Deus era sempre a invocação de um estranho, que, de algum modo, haveria de aparecer de qualquer lado para me salvar. É certo que, de uma forma ou de outra, acabei sempre por encontrar essa salvação, mas não a procurava onde realmente deveria procura-la, num Deus que habitasse em mim, que me fosse intimo, que me conhecesse e em quem eu realmente confiasse de maneira incondicional. Um Deus que tomasse conta de mim enquanto eu descansava e que gostasse sempre de mim, mesmo quando eu não era a melhor rapariga do mundo. Só quando se encontra um Deus assim é que é possível o abandono, é que é possível acreditar que tudo é como tem que ser, que tudo está bem e que é possível ter paz e esperança. Não sei se algum dia serei verdadeiramente íntima desse Deus, mas sei que já me encontrei com ele por diversas vezes e que os nossos encontros são cada vez mais frequentes. A verdade é que sempre que o chamei ele veio ao meu encontro e abriu portas e janelas onde eu pensava que havia apenas caves escuras e muros impenetráveis pelo sol. Por várias vezes deu-me forças para derrubar os muros, outras vezes ele próprio os derrubou por mim. Todos estes meus encontros com Deus são bem-humorados, tenho a certeza que Deus se ri dos seus próprios milagres, afinal para ele os milagres são brincadeiras de criança.


Quando eu era criança, as crianças não estabeleciam qualquer relação directa com Deus, entre Deus e uma criança há sempre um intermediário adulto, um pai, uma mãe, uma tia, alguém. É como se Deus não se interessasse por crianças, das crianças tratam os adultos, dos adultos trata Deus. Estava tão convencida disto que sempre que rezava para pedir alguma coisa a Deus não esperava que fosse ele a dar-ma. Certa vez, no Natal, eu queria muito receber de presente um boneco nenuco que todos me diziam ser demasiado caro e que só as meninas ricas poderiam ter. Decidi então pedir a Deus que desse dinheiro à minha família para me comprarem o nenuco. Deus respondeu-me dando-me o nenuco sem dar mais dinheiro à minha família. Recebi o boneco como prenda de Natal da empresa onde o meu trabalhava. Ainda hoje não sei se Deus tivesse acedido ao meu pedido de dar dinheiro à minha família, eles o gastariam para me oferecerem o nenuco. Desta vez aprendi uma coisa, o melhor é pedir directamente o que quero, expressar apenas os meus desejos e deixar a Deus o trabalho de descobrir como os realizar.

sábado, 12 de novembro de 2011

Avó



Hoje vieram-me à memória os passeios de Verão com os meus avós. Saímos de carro, não íamos muito longe até porque Portugal é um país pequeno, mas descobríamos muitas coisas novas. Os meus avós eram pessoas alegres. A minha avô era uma mulher encantadora, fazia amizade com toda a gente, por onde quer que andássemos ela sempre encontrava alguém com quem conversar e as pessoas correspondiam facilmente ao seu desejo de conversa. Falava com todos, o que lhe permitiu adquirir uma sabedoria imensa. Para ela as pessoas eram todas basicamente iguais e o modo como os defeitos e virtudes se repartiam pela humanidade não lhe despertavam qualquer paixão. Era uma mulher que gostava de pessoas e as pessoas gostavam dela. A sua simpatia e a atenção que dedicava aos outros, movida pela sua imensa curiosidade, faziam dela uma amiga desejada. Nunca me pareceu que a minha avó necessitasse de qualquer companhia em especial, era independente, vivia segundo as suas próprias regras e tinha a sua própria leitura da sociedade. Era uma mulher tolerante, dentro dos limites daquilo que, para ela, representava a decência. Gostava de estar sozinha, a solidão era uma espécie de bênção. Dedicava-se aos seus gatos quase todos amarelos e gordos e ao seu magnífico jardim de rosas que sempre me pareceu demasiado selvagem. Isto no tempo em que ainda havia um jardim, uma pequena vinha, árvores de maça bravo-de-esmofo, dois limoeiros atrás da casa, uma laranjeira em frente ao galinheiro, uma figueira atrás do galinheiro e dois ou três pessegueiros que faziam sombra às videiras. O jardim organizava-se em estreitos canteiros, delimitado por um labirinto de estreitos corredores de cimento. Num desses canteiros habitavam os morangos. Não eram morangos como os que se compram hoje no supermercado, eram morangos pequeninos e grandes, vermelhos e saborosos. Eu sentava-me na berma do canteiro e pesquisava por entre as folhas os morangos maduros. Nessa altura estava certa de não ser possível existirem dois morangos iguais, hoje parece-me estranho quando, numa caixa de morangos, algum se distingue dos seus companheiros.     

Sempre gostei de morangos, mal começavam os primeiros raios de sol eu debruçava-me sobre o canteiro e dava início à minha busca. Apreciava as flores, sem lhes tocar para não magoar os moranguinhos que aí começavam a formar-se. Depois via as pétalas caírem e lá no meio aparecia uma bolinha que começava por ser verde e que em breve seria branca. Essa bolinha crescia mais ou menos conforme a sua vontade e ganhava cor, vermelha e apetitosa. Com os morangos coabitavam caracóis, a minha avó retirava os caracóis do canteiro dos morangos e colocava-os junto ao muro que sustentava aquele calço, mas eles voltavam, gostavam de morangos e secretamente eu sabia que os morangos também gostavam deles.

Quando os meus avós se mudaram para um apartamento eu já estava na Universidade e não me apercebi da terrível mudança que estava a acontecer na minha família. Eu tinha saudades dos morangos, das rosas, dos gatos, mas não conseguia expressar os meus sentimentos e também não teria valido de nada fazê-lo. Eu já não pertencia aquele lugar, o meu desejo de fugir, de ser Eu, de conquistar, de conhecer e de saber já me tinha empurrado para fora dali. Fiz como todos, disse duas ou três coisas que me pareceram oportunas acerca das vantagens de morar num apartamento e segui com a minha vida, os meus sonhos, os meus desejos.

Isto vem a propósito da minha avô. Ela era realmente alegre, uma alegria inteligente, com um sentido de humor muito próprio. Desde que me lembro de mim como pessoa que me lembro da cozinha da casa dos meus avós. A cozinha era, verdadeiramente, a serventia da casa. A porta da cozinha era a entrada principal e o que era realmente importante acontecia na cozinha, começava ou acabava na cozinha. Até era na cozinha que o Pai-Natal deixava os presentes. Era uma cozinha vulgar, pequena, de forma rectangular com balcões e armários ao longo de cada uma das paredes. Na cozinha havia uma porta que franqueava o acesso a toda a casa e sobre essa porta um prato de louça com um dito popular: “cá em casa manda ela e nela mando eu” a esta frase a minha avó tinha por hábito acrescentar “diz o Baptista assim, com uma cara de judeu”. Hoje não seria politicamente correcto invocar os judeus desta maneira, mas na altura era apenas mais um motivo para nos rirmos.

Quando eu era criança o riso era fácil, sobretudo com os meus avós. A minha avó tinha um especial talento para encontrar piada nas coisas mais simples do dia-a-dia, fazia piadas com quase tudo, gostava de “gozar” com as situações mas não me recordo de que alguma vez tenha sido incorrecta ou ofensiva para alguém. A verdade é que tinha sempre histórias divertidas para nos contar, embora raramente tais histórias fossem relatos fidedignos de qualquer acontecimento, haveria sempre que contar com a imaginação da vovó.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O Jardim


Cada um de nós tinha um segredo guardado atrás de um qualquer banco daquele Jardim. Todos nós atravessavamos a rua, discretos, contornavamos a frente do jardim, aquela que se abria ampla para o Paço do Munícipo e, subindo a rua, procuravamos a pequena vereda que descia em direcção à parte de trás do coreto. Em tempos, nos idos anos de meados do século passado, por esse mesmo caminho desciam, todos os Domingos, os músicos da banda que animava a saída da missa e enchia de som e alegria as manhãs quentes e ensolaradas. Quando nós começamos a procurar a paz, a sombra e a magia do Jardim há muito que este tinha perdido a música dominical. O coreto envelhecia tristemente, as tábuas do palco, ora húmidas, ora ressequidas, não eram mais pisadas pelo aprumo dos músicos, apodreciam esquecidas da beleza do som. A cobertura já não o protegia das chuvas e o coreto acumulava a tristeza do abandono.

O Jardim não tinha sido a nossa primeira escolha. Tinhamos tentado os bancos de cimento no passeio junto ao Douro mas o rio, apesar de belo e mágico, era, também, quente e demasiado imponente para ser confortável.  Depois seguimos para outros locais, o Adro da Capela, a Alameda, mas o Jardim tinha outro encanto e o coreto atirava a nossa imaginação para o passado. Ninguém decidiu, não se discutiu qual o seria o nosso ponto de encontro apenas deixamos que o Jadim tomasse conta de nós e guardasse o segredo da nossa amizade naquele que seria o último verão da nossa adolescência.

As tardes quentes eram passadas entre a descoberta dos poemas que os nossos corações plenos de emoção nos ofereciam e os risos fáceis das nossas vidas triviais. Cada um tinha os seus sonhos, eu queria viajar e conquistar o mundo, mas a Joana só queria conquistar o coração do Mário. O Mário jogava xadrés e lia banda desenhada. Eu estava apaixonada pelo Paulo, mas o Paulo estava mais interessado na sua viola. O João confessava o seu amor pela prima do  Alfredo que vivia na Figueira da Foz e passara connosco as duas primeiras semanas de férias. Nenhum de nós estava feliz com a sua própria existência, partilhavamos as nossas angústias e ensaiavamos as dores dos adultos. Numa noite desse verão o Paulo levou a sua viola para o Jardim e juntou o seu som às nossas vozes. Em breve todos partiriamos, o tempo das vindimas estava a chegar ... Um novo começo para muitos, o fim da inocência para nós, os amigos do Jardim.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Silêncio


Eu fiquei de olhos fechados a ouvir a água do teu banho a correr. Deixei-me ficar ali, acordada mas de olhos fechados, a procurar na memória cada detalhe do quarto. Estava deitada, o teu cheiro estava por todo o lado e conhecia-o demasiado bem, tudo o resto me era estranho. Não tinha vontade de acordar, nem tinha vontade de ficar alí, se ao menos tu cantasses no duche ... mas não, tudo é silêncio entre nós.

Levantei-me quando te vi chegar, forçaste um sorriso que eu retribui com mais silêncio. Era a minha vez de usar a casa-de-banho e o cheiro do teu perfume invadia tudo. Apesar de intenso, eu sabia que aquele cheiro não me acompanharia, não se colaria à minha pele, nem à minha roupa e não deixaria qualquer impressão na minha memória. Também não guardaria recordações daquele local, não saberia dizer a cor das paredes, a disposição dos móveis ou sequer o nome das flores de que gostei tanto. Também não guardei as tuas palavras, nem os teus desejos, nem o toque dos teus lábios na minha pele, não tenho nada de teu.

Só guardo, precioso, o silêncio.

sábado, 22 de outubro de 2011

Não Venhas




Estou sentada num pequeno muro em frente ao mar e, entre nós, a praia de um fim-de-tarde de Maio. O vento fraco e frio arrefeceu o meu nariz e um ligeiro desconforto percorreu o meu corpo. Não sei há quanto tempo estou aqui, o mar é tão bonito, as ondas a baterem nas rochas que rodeiam a pequena praia acalmam os meus pensamentos. Vim até aqui para pensar, para organizar os meus pensamentos e para decidir a minha vida, mas o mar, o vento, o barulho e o cheiro deste local tomaram conta de mim, do meu corpo e da minha mente. Não sobra espaço para o pensamento. Não sei ao certo que horas são, fico por mais alguns minutos, não reflecti sobre os meus problemas nem tomei nenhuma decisão, continuo sem saber o que fazer  mas estou tranquila, há em mim uma rara harmonia. Entro no carro e pela primeira vez em muitos dias sinto fome, uma vontade enorme de me sentar em frente de um bife com batatas fritas e uma cerveja preta. 

Há momentos em que nada é mais importante do que um bom bife com batatas fritas e uma cerveja preta. Como sozinha, sentada na mesa mais central da cervejaria, ali estou no local onde tudo acontece, onde os amigos se encontram, onde se realizam os pedidos e se formulam os desejos. Reparo nas famílias, nos grupos de amigos, nos casais e sinto a estranheza dos outros ao perceberem que estou sozinha. Sorrio para as pessoas, falo com uma criança que se aproxima de mim, pago a minha conta e vou para casa.

Estou cansada, tenho sono, quero chegar à minha cama, deitar-me e dormir um sono sem sonhos. Tudo acontece segundo o meu desejo, chego a casa, deito-me na cama desfeita sem tirar a roupa, adormeço profundamente e sou acordada a meio do meu sono pelo toque do telemóvel: - "Hoje chego tarde." Eu respondo: - " Não venhas."  

sábado, 8 de outubro de 2011

TEATRO



Sempre gostei de teatro, tenho pelo teatro um profundo amor, um amor confortável, sereno, seguro, que não me decepciona nem me desilude. Não é uma paixão é mesmo um grande amor. Amar desta forma significa que não saio decepcionada de um espectáculo. Os actores podem ser canastrões, o texto ser mau, não se dar conta da encenação, a sala estar demasiado quente ou fria, ainda assim eu gosto de ir ao teatro. Há alturas que me afasto, fico longe por muito tempo e regresso, como só um grande amor permite regressar. Mas também há alturas que ao meu amor se soma a paixão. Saio arrebata de um espectáculo. As palavras das personagens perseguem-me durante dias, ao menor descuido instalam-se na minha imaginação, tomam conta dos meus momentos ausentes. 

Algumas pessoas, sabendo que vou muito ao teatro, fazem-me perguntas sobre actores, sobre peças, sobre dramaturgos, raramente sei as respostas. Quanto aos actores apenas conheço os nomes dos meus amigos ou, muito excepcionalmente, algum cujos personagens me marcaram mais profundamente. Mas afinal quem quer saber dos actores se temos os personagens? São os personagens que me apaixonam, com eles posso construir novas histórias e enriquecer o meu mundo.  

Tenho alguns livros de teatro, não tanto sobre teatro mas textos de teatro, dramaturgia. Todos oferecidos. Com excepção de uma "história do teatro" não devo de ter lido nenhum, não tenho imaginação suficiente para isso, eu preciso que tudo me seja servido num palco e anseio, sobretudo, por pessoas que encarnem  os meus fantasmas, me digam o que sentem e me façam sentir.

Esta semana fui duas vezes ao teatro e estou de novo apaixonada. 

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

RITA



Era sexta-feira, a primeira sexta-feira de Setembro, um vento quente e seco deixava em desalinho o cabelo que ia afastando da frente da cara enquanto pensava se não seria melhor esperar pela Rita dentro do bar. Mas fui ficando, com uma mão segurava o cabelo, com a outra segurava as páginas do livro que há vários dias me acompanhava. Parecia não ter fim ... ou era eu que não lhe dedicava a atenção suficiente para lhe ver o fim. Finalmente a Rita chegou. Sorridente, de passo apressado, maquilhagem quase apagada, a sua enorme carteira e os sapatos de meio salto. Nem sei há quanto tempo conheço a Rita, lembro-me da Rita na faculdade, mas antes disso já nos havíamos encontrado numa festa, em casa de uma prima (minha ou dela). Nunca fomos amigas intimas mas o tempo e as circunstâncias, que ora nos aproximavam, ora nos afastavam, teceram entre nós uma relação confortável, afectuosa, de mútua admiração e compreensão. 

- Estou atrasada. Desculpa-me.
- Não faz mal, estava a ler.
- Aproveitas sempre o tempo. É isso que admiro em ti, não te deixas vencer pelo tédio.
- O tédio é realmente o que mais me preocupa - Respondi-lhe enquanto me levantava para lhe dar um beijo e a empurrava para dentro do bar. O vento estava insuportável. 

A Rita sentou-se ao meu lado, segurou a minha mão e pela primeira vez vi medo no seu olhar, um medo estranho, o medo de quem não sabe para onde ir. Perguntei-lhe se estava tudo bem, se tinha algum problema, se os filhos estavam bem. Ela abanava a cabeça afirmativamente a cada pergunta minha, mas não largava a minha mão, ficava ali a segurar-me a mão numa carícia e a olhar-me como quem procura as palavras.

- Estou apaixonada ... 
Eu disse: - Mas isso é bom ...
- Não é nada bom. Ele é mais novo do que eu e trabalha numa pizzaria.
- Qual é o problema? A esta altura da vida uma aventura estonteante não vai fazer-te mal. 
- E se não for uma aventura? 
Senti medo nesta pergunta. Nada mais me restava do que afirmar a minha certeza: - É uma aventura e uma mulher de 45 anos, divorciada, independente e com dois filhos tem direito a ter uma aventura. 
- Achas que não devo preocupar-me?
- Sinceramente acho que não. Vamos brindar à tua aventura. Espero que ele seja realmente jovem, fresco, descontraído e que o sexo seja fantástico.
A Rita sorriu-me, sentia-se aliviada, eu não tinha dito exactamente o que ela espera ouvir mas sim o que ela  mais gostaria de ouvir. Despedimos-nos com um abraço e um beijo, ela entrou no seu carro e eu no meu.

Enquanto conduzia até casa recordei cada uma das palavras da Rita, o seu entusiasmo com o novo namorado e o sorriso aberto quando eu a apoiei. Pensei em como a Rita era corajosa e bonita, como a sua vida tinha sido tantas vezes difícil e como ela sorria sempre. A Rita merece viver este amor. 


terça-feira, 4 de outubro de 2011

"Tradições que Vivem"



 Fundação INATEL, que se encontra acreditada como Organização Não-Governamental apta a prestar serviços de consultoria ao Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da UNESCO, organiza em conjunto com a Comissão Nacional da UNESCO, um Encontro sobre Património Cultural Imaterial onde as associações culturais que desenvolvem trabalho na área do PCI, representando as suas comunidades, e os académicos (antropólogos, etnomusicólogos, etc.) se possam reunir num diálogo aberto sobre o Património Cultural Imaterial e sobre a Convenção para a sua salvaguarda.
Neste Encontro, as colectividades associadas à Fundação e outras instituições da sociedade civil terão o seu espaço para mostrar e apresentar o seu trabalho em termos de salvaguarda do seu PCI, promovendo a reflexão e sensibilização para o tema.
O Programa do Encontro compreenderá quatro painéis (“As Instituições e a Convenção para a Salvaguarda do PCI”, “Tradições Orais”, “Artesanato e o Saber Fazer”, “Passados no Presente”), que serão constituídos por um moderador e três ou quatro oradores, em representação de entidades com actuação nessas áreas, e dois Estudos de Caso (“Bonecos de Santo Aleixo” e “Candidatura do Fado à Lista Representativa do PCI da Humanidade”), que terão uma vertente mais prática. Após cada painel haverá um espaço alargado de debate aberto ao público.
Haverá ainda lugar à apresentação de três comunicações que serão previamente seleccionadas pela Fundação INATEL e pela Comissão Nacional da UNESCO.
Complementando este Encontro, será elaborado um programa de animação cultural com música tradicional, exposições temáticas, exibição do filme Sinfonia Imaterial e uma visita facultativa ao Museu da Cerâmica das Caldas da Rainha.
Informações:

Calçada de Sant’Ana, 180 - 1169-062 Lisboa
Tel: 210 027 141
E-mailpatrimonioimaterial@inatel.pt



"Tradições que Vivem"

Sangue jovem


Sigrid, uma mulher só, na casa dos sessenta, sem vida pessoal e uma carreira artística congelada, sente-se envelhecer e decide libertar-se de fantasmas do passado.
A sua relação com duas amigas de escola impediram-na de ser mulher e é hoje vivida como uma prisão. A reunião anual entre as três mulheres tornou-se num ritual insuportável para Sigrid, a cada reunião retoma-se a dinâmica infantil e cruel, e o confronto “entre as feridas antigas e as dores do presente” é-lhe cada vez mais violento. Este ano, Bet e Lily são postas à prova quando Sigrid, farta de ser a Sigge, a “amiguinha estranha”, paga ao filho dos vizinhos, um jovem ator chamado Allan, para se fazer passar por seu amante. Allan, fascinado pelo mistério que envolve Sigrid, aceita a proposta. Perante a notícia da doença de Bet, Sigrid hesita em levar o plano a avante e é Allan quem assume o papel de vingador, crente, por momentos, na possibilidade de um amor entre os dois.

Sangue jovem

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

FIM-DE-SEMANA


Olá! Disse-me Maria sem tirar os olhos do computador.
Olá! Respondi mecanicamente. Quando me sentei na secretaria em frente, reparei que Maria tinha o olhar de uma criança assustada, que o seu corpo era frágil e que o seu sorriso escondia uma profunda tristeza. De onde vinha aquela tristeza de Maria? Provavelmente de lugar nenhum, seria apenas a minha imaginação em busca de histórias tristes e complexas nos rostos de pessoas simples.

Maria interrompe os meus pensamentos com uma pergunta trivial: - Como foi o fim-de-semana? Normal, como todos os outros, fiquei em casa a arrumar o quarto dos miúdos, a passar a ferro, a cozinhar para toda a semana.... ainda tive tempo para pintar o cabelo e arranjar as unhas – respondo de rajada. Não lhe pergunto nada, mas Maria diz-me: - Passei o sábado no hospital com o Raul, a mudança de tempo é terrível para os asmáticos, o Raul teve falta de ar e passamos uma boa parte da tarde de sábado na urgência do hospital, nos aerossóis. Finjo interessar-me pela asma do filho de Maria. É fácil estabelecer conversa quando o tema são os filhos, todas as mulheres gostam de falar dos seus filhos e todas as mulheres fingem interessar-se pelos problemas dos filhos das outras.
 
O computador está agora a funcionar, dou uma vista de olhos no outlook à procura de alguma mensagem diferente, à espera de algo realmente novo, continuo a acalentar uma certa esperança de que uma revelação mágica chegue num e.mail, mas ainda não é hoje. Lá estão os habituais anúncios a uma nova pílula que promete uma sexualidade vibrante e apaixonada, publicidade a um novo PC e algumas mensagens de amigos e conhecidos, umas com fotografias, outras com histórias divertidas ou com pensamentos profundos. Pergunto-me acerca do tipo de pessoas que se dedicam a produzir estes e.mails, a verdade é que os há maravilhosos e, também, horríveis, alguns chegam na hora certa e ficam guardados por muito tempo, outros têm como destino imediato o “caixote do lixo” electrónico.

Na sala ao lado os meus colegas conversam animadamente, apenas eu e Maria estamos no nosso sítio numa aparência de trabalho, ela bate rapidamente no teclado e eu finjo concentrar-me numa mensagem importante, numa informação decisiva que acabo de obter. Nem ela, nem eu estamos interessadas na conversa dos nossos colegas. Os risos soam alto na sala ao lado, as vozes sobrepõem-se e apesar da proximidade, apenas uma parede nos separa, não é possível destinguir o que cada um diz. Não há telefones a tocar, nem dossiês a passar de mão em mão, nem assuntos para tratar, nem projectos novos, só risos na sala ao lado e a inconsciência de quem se sente seguro, seguro de si, seguro do lugar que ocupa na organização.

De repente, uma insegurança profunda invade-me, sinto a precariedade dos dias, sinto a necessidade de um sorriso autêntico e de uma preocupação sincera. Pergunto a Maria como acordou hoje o seu filho. De novo, o sorriso triste invade o seu rosto e responde: - “bem, graças a Deus bem”. A conversa fica por aqui, espero que Maria tenha percebido a minha preocupação sincera com o estado de saúde do seu filho. Digo para mim mesma que incluirei Raul no rol das pessoas por quem rezo todas as noites. Na sala ao lado os risos desapareceram, agora são as vozes que soam mais alto, algumas altercadas e duras, uma discussão, um desentendimento entre eles e rapidamente os risos deram lugar às palavras duras, a uma desmedida agressividade. Cada um volta ao seu gabinete, amargo, mais sem vontade de fazer nada. E a manha corre lenta, é quase meio-dia.

Finalmente seis da tarde, finalmente sexta-feira. Olho por cima do écran do computador e através da janela vejo a rua, uma nesga de vida fora das paredes do gabinete. Maria penteia o cabelo descolorado, o seu rosto abre-se num sorriso menos triste, este fim-de-semana vai ao Fundão, à terra da sua infância, vai ver os pais, o irmão, a cunhada e os dois sobrinhos. Sai apressada, ainda tem tantas coisas para preparar e o fim-de-semana é tão curto.... Volto a olhar para a rua e penso no que vou fazer para o jantar, ainda tenho que passar no supermercado, depois penso na roupa pendurada no varal, na chuva que não a deixou secar, no quarto desarrumado dos miúdos, no almoço que tenho de retribuir, nas embalagens de alumínio onde congelo comida para toda a semana, finalmente penso que o fim-de-semana chegou, é, finalmente, sexta-feira.

(Escrito em 2 de Nov.2005)

sábado, 24 de setembro de 2011

(2) O AMOR



"Nunca ter desilusões no amor é um privilégio dos imbecis."
Provérbio 

Nunca esperei pela minha história de amor, estava tão certa que ela me apanharia, que era tão inevitável, que o melhor mesmo seria aproveitar o tempo de que dispunha. Nesta certeza crescer foi fácil, com o encanto das roupas para bonecas, das camisolas de lã e dos livros. Não gostava de "bonecos chorões", que pareciam bebés, interessavam-me especialmente as bonecas elegantes, que eu podia vestir, despir e pentear. A minha boneca predilecta falava, apertava-lhe a barriga e ela dizia: - "buenos dias, habla comigo". Era espanhola. Um dia o meu irmão decidiu desvendar o mistério da boneca falante e arrancou-lhe do peito um pequeno disco de plástico e duas pilhas. Quebrou-se o encanto, deixei as bonecas e dediquei-me definitivamente aos livros.

Os livros faziam parte da decoração lá de casa, havia livros bonitos, encadernados, que o meu pai comprava em colecções, por autores. Não eram esses os livros que me interessavam, eram outros, pequenos, de capa mole, que comprava no Porto. Nos meus aniversários todos os meus amigos me ofereciam livros, a família oferecia-me roupa e sapatos. O meu interesse pela leitura era apreciado lá em casa o que facilitava a compra dos livros, isto apesar de nenhum deles mostrar qualquer interesse especial por ler.

Comecei pelos livros juvenis, a série "Os Cinco", mas rapidamente passei para os livros de aventuras que lia com a ajuda de um atlas gigante do Circulo de Leitores. Depois foram os romances, os clássicos portugueses e quase por acaso descobri Pearl Buck. Li todos os seus livros, os traduzidos e apaixonei-me por todos os lugares distantes e exóticos dos seus romances. Mais do que nunca o atlas era imprescindível. O meu gosto pelas viagens começou nos livros, sonhava percorrer o mundo.

Teria 14 anos quando começou o meu interesse pela política. Não foi uma opção, foi uma imposição. A minha verdadeira paixão era o teatro, mas naquela pequena cidade não havia teatro. Não havia grupos de teatro e o cine-teatro raramente recebia companhias. Ali nada mais restava do que a política e o atletismo, dediquei-me a ambos. Entre os 15 e os 17 anos tive um único objectivo: conhecer o mundo e dar-me a conhecer ao mundo. A militância numa organização política de juventude deu uma ajuda: havia reuniões em outras cidades, novos conhecidos, jovens que vinham de Lisboa, era uma janela para o mundo.

Foi nessa altura que a minha história de amor me apanhou, pelo menos foi isso que pensei durante as férias de verão. Quando o outono chegou e a vida regressou à normalidade eu não senti a ausência do meu amor, não senti que me faltasse alguma coisa e admiti que, a ser assim, eu não o amava. Foi a minha primeira desilusão de amor. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

(1) O AMOR



"Parece-me fácil viver sem ódio, coisa que nunca senti. Mas viver sem amor acho impossível."
Jorge Luís Borges



Cresci no meio de histórias de amor, cada uma das pessoas do meu mundo tinha uma história de amor para contar, eu própria era o resultado de uma bela história de amor. Todos à minha volta estavam condenados a viver as suas histórias de amor. A Maria, que logo pela manhã chegava com o pão ainda quente e se sentava num banco, encostada ao balcão da cozinha, a comer as sopas de café com as sobras de pão da véspera, aceitava o mau vinho do José, porque, tirando isso, ele até era bom homem e ela prometera, perante Deus e os homens, amá-lo. Quando o José bebia e a Maria chegava com os olhos inchados e o corpo negro, as mulheres da casa confortavam-na e não raras vezes ouvi a minha avô a ralhar com o José: - "que isto não podia ser" "que a Maria não merecia." O José ouvia calado, com os olhos marejados de lágrimas, implorando um silencioso perdão. - "Vá lá homem tens que saber beber". Gritava-lhe o meu avô do fundo do corredor. E o José murmurava: -"Eu gosto dela, não poderia viver sem ela, mas tenho mau vinho ..." Também o José tinha a sua história de amor.

A história de amor dos meus avós era a mais antiga história de amor lá em casa. Havia outras, ainda mais antigas, mas dessas eu só ouvira falar. Por amor a minha avó até tinha trabalhado durante algum tempo, nos primeiros anos de casada. A vida era difícil, o mundo estava em guerra e ela tinha que ajudar o marido. Felizmente as coisas melhoraram e por amor ela dedicou a sua vida a cuidar da sua casa, dos seus filhos, do seu marido e das suas maravilhosas roseiras. Mas o seu amor não era em vão, como me parecia ser o amor da Maria. O meu avô era atencioso, um bom "chefe de família", homem trabalhador, temente a Deus e respeitado. O meu avô  não falava de amor como as mulheres, mas eu sabia que quando ele chegava a casa com o queijo da serra, com uma bola-de-lamego ou com as primeiras cerejas da época isso era por amor à minha avó.

A mais fascinante e bela história de amor, aquela que apenas a minha avó testemunhara e da qual nos dava vagas noticias, era a história de amor da sua irmã, a minha tia-avó. Há muitos anos tinha jurado amor eterno a um jovem estudante de Coimbra que morrera tuberculoso. Foi fel à sua promessa e por amor dele viveu dedicada aos irmãos, aos sobrinhos e a si própria. Morreu num lar, muito velhinha,  três dias antes de completar 100 anos, agradecendo a Deus a sua longa vida. Herdei dela um guarda-jóias, uma pequena peça de madeira, decorada a madrepérola e prata. Gosto de imaginar que aquele guarda-jóias terá sido um presente do seu amado, um testemunho desse amor distante.

Desde cedo soube que também eu teria a minha história de amor.

(Continua)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

POLÍTICA E JUSTIÇA

"O meu ideal político é a democracia, para que todo o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado."
Albert Einstein

Quase que prometi a mim mesma não escrever sobre política, afinal queria que este espaço fosse intimista e que tocasse as nossas emoções mais profundas. Erro meu pensar que seria possível a emoção sem a política, afinal como nos diz André Chamson "todos os nossos pensamentos tocam na política."

O facto que tem estado no centro da discussão política nacional nos últimos dias tem sido a ocultação da dívida pública da Região Autonoma da Madeira, cujas consequências para as contas nacionais e para a credibilidade de Portugal perante os seus credores e parceiros internacionais, dentro e fora da Europa, estão ainda por avaliar em todas as suas dimensões. Perante esta situação levantaram-se logo as vozes exaltadas dos que gritavam: "- Prendam-no!". E, como não podia deixar de ser, reclamava-se já a prisão de mais uns quantos políticos.

Mas, em que condições podem os políticos ser julgados e punidos criminalmente? A resposta é aparentemente simples: - sempre que a sua acção ou omissão corresponda á prática de um crime, previsto e punido pela lei. Sendo que "nullum crimen sine lege", ou seja, para que a prática de um determinado acto seja considerada crime terá que existir uma lei prévia que a preveja e a qualifique como tal. Este é o princípio da responsabilidade criminal que se aplica a todos os cidadãos, incluindo os políticos. 

A responsabilidade política é algo de diferente, tem a mais a ver com o modo como se prossegue a acção política. A responsabilidade política tem a ver com a capacidade de defender o bem comum e o bem estar de toda a sociedade, seguindo um programa político transparente tendo em vista atingir determinados objectivos. O político tem de ser capaz de se preocupar com o bem público e mostrar aos demais membros da sociedade que assume a responsabilidade pela consecução destes objetivos. É isto que é avaliado em eleições. Isto é que é a responsabilidade política.

Num Estado de Direito e numa sociedade democrática, responsabilidade política e responsabilidade criminal não se afastam mutuamente, antes pelo contrário. O equilibrio entre o domínio da política e o da justiça nem sempre é fácil de obter, mas dele depende, em grande medida, a sobrevivência das democracias. É  tão grave a existência de um poder político que se intrometa na justiça, como de um poder judicial que se intrometa na política.

Quanto ao caso da Madeira e do Presidente do Governo Regional funcionem as instâncias políticas, em especial o Presidente da República com responsabilidades constitucionais quanto ao funcionamento das instituições democráticas e apurem-se as eventuais responsabilidades criminais. Mas, não misturem as duas coisas.




O ENCONTRO



"Quem é um amigo? - Um outro Eu"
Zenão Eléia

Ontem uma amiga disse-me: - "Quero agradecer-te. Faz hoje 5 anos que me levaste a conhecer um amigo teu, que é hoje meu grande amigo." Recordei exactamente esse dia, como lhe falei do meu amigo e como me parecia importante que ela o conhecesse. E lá fomos as duas a casa dele.

Como sempre, o Alfredo recebeu-me calorosamente. Abraçou-me e abraçou a minha amiga como se a conhecesse há muitos anos. Ficamos ali os três, era uma tarde de fim-de-verão mas ainda não se ouvia a chegada do outuno. Eu falei de mim, informações gerais sobre o trabalho, as minhas filhas, os meus projectos, o Alfredo ouviu-me com atenção e alegrou-se com as boas notícias. Depois a minha amiga falou da sua tristeza, trazia com ela as dores dos filhos, as duvidas sobre o trabalho, as mágoas de velhos amores. E ele olhou-a e deu-lhe conselhos, recomendou-lhe coisas simples - "dorme bem", "come bem, legumes, cereais integrais", "descansa e medita". Enquanto lhe falava num tom de voz suave e baixo, pegou-lhe nas mãos e acariciou-as. Eu prendi-me naquele gesto suave e terno, fiquei a vê-la sorrir. Por fim, o Alfredo pediu-nos silêncio, fechamos os olhos, meditamos (eu pensava no que ainda tinha que fazer até ao final do dia) e cantamos, ou melhor, recitamos em voz alta um mantra melodioso.

Na viagem de regresso a minha amiga estava em paz, mas também estava fascinada com aquele homem bonito, alto, de barbas e cabelos brancos, no final dos cinquentas ... Um homem belo e fascinante. Eu perguntava a mim mesma porque razão não havia ainda reparado na sua beleza e sensualidade. Admirava a sua inteligência, dava-me prazer a sua gargalhada sonora que se soltava do funda da alma e me contagiava de alegria. Tinha conversado com ele durante horas e nunca me havia faltado assunto, mas faltou-me aquele sentimento de femea que reconhece um macho. E foi exactamente essa emoção que a minha amiga sentiu, a primeira, a mais visceral das emoções humanas, aquela que, num relance, nos desperta para a existência de nós mesmos.

Prometi a mim mesma procurar na arca dos sentimentos aprisionados aquele que estava a fazer-me falta. A minha amiga prometeu ajudar-me, foi-me falando como mulher, contou-me histórias sagradas de deusas antigas e depois contou-me histórias de outras mulheres como se fossem a sua própria história. Eu ouvia as histórias e a minha imaginação tornava-as ainda mais fantásticas, mais misteriosas e mais maravilhosas. 

Passaram cinco anos e nenhuma de nós esqueceu esse encontro. Ela ganhou um grande amigo, que mudou para sempre a sua vida. Eu ganhei um pouco mais de mim mesma, o que também mudou a minha vida. Falta-me saber o que ganhou o Alfredo ...

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A LANTERNA

"Se o homem carrega a sua própria lanterna, não precisa de ter medo do escuro."
Provérbio Judaico

Desde criança que escrevo. Escrever foi a formula secreta de vencer o medo, ou melhor, de ir vencendo os meus medos. Escrever é a minha maneira de avaliar e meditar sobre as coisas que vão acontecendo, mas é também a melhor forma de fazer as coisas acontecer. Ao longo dos anos escrevi dezenas de cadernos a que chamei "diários", muitos se perderam (da minha infância e da juventude não resta nenhum) mas nos últimos tempos tenho tido alguma preocupação em conservá-los, cuidar deles. 

Nas longas noites da vida a escrita tem sido a minha lanterna e foi ela que muitas vezes me salvou das trevas. Escrever obriga-me a corrigir os pensamentos, a prespectivar as emoções, a avaliar os meus muitos medos e a perceber que há sempre, pelo menos, duas opções: a minha e a outra, que eu invento.

Decidi começar este blog porque me tornei leitora dos meus "diários" e há neles uma lição: "Nada Temer". Aqui vou contar histórias, umas verdadeiras outras nem tanto, vou partilhar as minhas opiniões sobre vários assuntos e deixar que as emoções vividas transpareçam na escrita. É um projecto pessoal que não tem qualquer objectivo literário, político ou social. O meu objectivo é escrever e deixar em aberto a possibilidade de alguém ler o que eu escrevo. Não será nunca uma escrita intíma (essa está reservada aos diários) mas será intimista.

- Porque escreves? - perguntou um dia a minha mãe.
- É para vencer o medo.