segunda-feira, 5 de Maio de 2014

POEMA DE TODOS OS DIAS


Lígia Reyes
Para a minha mãe

Quero escrever para te celebrar.
Porque um poema não morre e
Só a tua primavera me compõe
De todos os Invernos, mãe.
Chega atrasado, mas o que há-de chegar a horas
Quando a casa onde chego é tua 
E um singelo poema pelo dia da mãe
Não chega para alimentar duas bocas,
Trocar fraldas, cuidar.
Muitas vezes chorando no silêncio
Porque se está só e as miúdas
Teimam em não crescer, fazem asneiras,
Ficam doentes.

E quando crescem, fazem asneiras,
Ficam doentes - Fazem poemas,
Lêem os livros da tua juventude,
Furam a carne por diversão,
Aparecem rapazes lá em casa,
Viajam pela noite, pelo dia,
Muitas vezes para longe.
Estudam coisas que entendes bem demais,
Vão para os lugares onde já estiveste -
É aí que o coração aperta mais.
Deixou de funcionar a famosa palmada -
Agora só a vida é mãe, muitas vezes,
Madrasta, e lá chega um "bem te avisei",
Uma conversa,
um abraço no final.

Mãe, a poesia é forte como tu -
Sofre de duvidas, instintos,
Gritos de manifestação.
Parece que as palavras
batem em fundo raso,
Mas a verdade
É que o mundo te lê em segredo - como um poema:
E o teu poema é de intervenção
Para todos os dias
Em todas as lutas.

Como só tu dirias: "com as minhas companheiras de luta".


Lígia Reyes

sexta-feira, 18 de Abril de 2014

FELICIDADE

Obra de Arte de Ernesto Neto no Museu Guggenheim, Bilbao.

No começo de cada ano, pelo dia do nosso aniversário, quando nasce uma criança ou quando mudamos de emprego ou de casa, são tantas as situações em que nos desejamos, mutuamente, felicidades. Todos queremos ser felizes, cada um à sua maneira vai enumerando uns quantos requisitos para ser feliz. Quero, ter saúde, que não me falte o trabalho, que os meus filhos tenham sucesso na escola, no desporto, nas suas realizações. Quero viajar, quero um carro, quero roupa nova, quero .... quero .... há tanta coisa que queremos, que, de conquista em conquista, vamos vivendo os momentos fugazes de felicidade.

Mas eu quero é ser feliz, e o meu amigo deu-me o livro que eu queria ler, e o meu namorado adivinhou o meu desejo e levou-me a jantar naquele restaurante, e eu fui feliz. São pequenas coisas... eu própria as poderia ter obtido sem eles, mas é esta dádiva, a felicidade de me verem feliz, que faz  a felicidade ou como diz o poeta "é impossível ser feliz sozinho".

Ser feliz é o designío da humanidade. Todas as histórias humanas são a história da felicidade, da sua presença e da sua ausência, das estratégias para a conquistar, para a cultivar, para a fazer crescer. Para cada um de nós a busca da felicidade pessoal é um percurso muito próprio, feito de alegrias e tristezas, num momento somos felizes, em outro quase felizes e guardamos para sempre a infelicidade de uma perda, de um abandono, de uma derrota. Não há nada de misterioso na infelicidade, ela impõe-se solene e grave e toma conta de tudo. Já a felicidade é subtil e sofisticada, faz-se anunciar, ludibria os sentidos, confunde-nos com muitos prazeres, faz-nos desejar mais e mais. 

Eu quero ser feliz, não desejo a felicidade, quero apenas estar nesse estado de alma que me permite apreciar cada momento e desejar sem limites. É o desejo que me alimenta, que alimenta os meus sonhos, mas é a felicidade que me aconchega, que me guarda. Nada nos meus desejos é inocente, puro ou belo, só o prazer hedonista os satisfaz. Não posso viver sem o desejo por isso preciso de ser feliz.








domingo, 30 de Junho de 2013

VONTADE



"É a lassidão da nossa vontade que constitui toda a nossa fraqueza, e sempre se é forte para fazer o que se quer com força."

Jean Jacques Rousseau


Há um ano que não publico nada neste meu blog. Não porque me tenham faltado temas de reflexão, histórias para contar ou tempo para escrever. Ao longo do último ano tive tudo isso, momentos de reflexão, novas histórias e tempo para as escrever. Só me faltou a vontade. aquele desejo que me vem de dentro e que transforma o pensamento em ação, os sonhos em realizações. Faltou-me a "motivação", como agora de usa dizer. Não estava motivada para escrever porque, certamente, andava ocupada com outras coisas, como concluirão alguns. Mas não é nada disso, estive, simplesmente, sem vontade, ou seja, sem desejo de escrever. Não escrevi para o blog, nem escrevi para qualquer outro fim, escrevi, apenas, alguns sms's ....

Para alguém como eu, que desde muito cedo começou a organizar os seus pensamentos e até a sua vida a partir da escrita, estar um ano sem escrever é, sem dúvida, algo de muito estranho. Não sei, ainda, se perdi algo, não sei o que determinou esta escolha, mas a verdade é que, quase sem dar por isso, o tempo foi passando e assim passou um ano. Por vezes, vinha a intenção de escrever, uma ideia a aflorar-me a mente que merecia ser registada, um acontecimento feliz ou, até, triste que justificava uma nota de memória, um projeto confuso que poderia ter-se esclarecido por palavras escritas; mas no momento da acção, naquele exacto momento em que tinha de pegar na caneta ou abrir o PC, uma espécie de cansaço tomava conta de mim... e, adiava. Fui adiando, adiando o momento da acção e assim se passou um ano.

Não estou a justificar-me (a quem interessaria esta justificação?), estou a refletir sobre a situação, a refletir sobre mim mesma, sobre a ausência de vontade. Li algures que "a estrada para o inferno é pavimentada de boas intenções", quase posso concluir que a do céu é feita de "boas ações" e o caminho da realização é, certamente, feito de intenções a que correspondem acções, ou seja, é feito de vontade. 

Para escrever, como para tudo na vida, é necessária vontade, é preciso que às intenções correspondam as ações e que essas ações sejam a expressão perfeita das intenções. A vontade depende, quase exclusivamente, de cada um de nós, muito pouca responsabilidade se pode atribuir às condições externas, ou à sua falta, faltando a intenção e a ação certa, nunca estarão reunidas as condições para realizarmos o que quer que seja de nosso. 


domingo, 17 de Junho de 2012

PIODÃO




Um dia chegou aqui um homem, as suas roupas esfarrapadas guardavam ainda a memória de um soldado, vinha esfomeado, no rosto tinha estampado o medo e a vergonha e, nos olhos castanhos, o remorso. Quem o perseguia há muito que tinha desistido, acreditando que ele estaria morto. Escapara à fúria de Pedro mas sabia que não escaparia à fúria dos seus próprios sentimentos. Um homem não pode matar cobardemente uma mulher. Os gritos de desespero de Inês soariam para sempre na sua cabeça. Nesta aldeia aninhada no fundo de uma montanha ninguém o conhecia, a sua história e a sua culpa seriam a sua única companhia.

Hoje chegamos nós, descemos pela estrada da montanha, ingreme, com curvas perigosas, mas com bom piso e bem sinalizada. De Inverno, o gelo e neve cobrem estas paragens, são necessárias cautelas acrescidas na estrada, mas estamos no final da primavera, está um dia lindo e o sol começa a pôr-se, num jogo de luz e sombra, de montes escuros e claros. Capto na memória, por instantes a paisagem que se desvenda para mim. É muito mais do que bela, é de um infinito verde feito de muitos verdes. Entra-me pela pele, toca-me, faz-me sentir especial, na natureza tudo é único e irrepetível, não me canso de olhar apenas para guardar aquela emoção do instante em que uma folha, translucida, deixa passar a luz do sol.

Todo o caminho é maravilhoso, a estrada contorna a Serra do Açor, olhando o céu descubro uma ave de rapina no seu voo elegante, deve ser um açor, também pode ser uma águia. Uma cobra negra atravessa a estrada, vamos mais devagar, dar tempo ao animal para passar em segurança e seguir a sua vida. Tudo ali é vida e foi em busca dessa vida que viemos.

Na curva da estrada avistamos um edifício em xisto com telhado de laje, é grande, destaca-se na paisagem da montanha, é o hotel e, ali, esperam por nós. Gosto de paisagens, mas gosto sobretudo de pessoas, de pessoas felizes, a rapariga da recepção é uma dessas pessoas. Feliz. Trocamos um olhar cúmplice, perguntamos sobre os restaurantes da aldeia, ficamos a saber que há, pelo menos, dois restaurantes abertos e, é claro, há sempre o restaurante do hotel. É um dia de semana mas o hotel está praticamente cheio e há turistas na aldeia. São portugueses, na maioria pessoas com mais de sessenta anos, provavelmente reformados, mas também há turistas brasileiros e casais jovens com filhos pequenos. Desistimos da ideia de ir jantar à aldeia, vamos ficar pelo hotel, desfrutar da vista nocturna sobre a aldeia, um presépio lindo, escuro, apenas matizado pelo azul que contorna as umbreiras das portas e janelas. A pequena igreja pintada de branco presta homenagem a Nossa Senhora da Conceição. Foi aos pés dessa imagem de Nossa Senhora que rezou o assassino de Inês de Castro, pedindo a Deus a paz que não encontrava no seu coração.

Pela manha passeamos na aldeia, aventuramo-nos por um caminho estreito, quase chegamos ao Chão D’Égua mas o objectivo não era chegar a lado algum, era apenas caminhar, captar a luz do sol através das folhas das árvores, colher cerejas no caminho, apreciar o porte dos castanheiros, cheirar as ervas, afastar as urzes e giestas que invadem o pequeno trilho. Depois regressar à aldeia, ficar sentado na esplanada de um restaurantes, apreciar um copo de vinho, comer uma morcela.

Viemos pelos pequenos prazeres e levamos o prazer maior do deslumbramento. 

terça-feira, 8 de Maio de 2012

EMOÇÕES TECIDAS NESTE LUGAR


O meu amigo Alfredo Almeida pediu-me que escrevesse sobre os Bombeiros Voluntários da Régua, de imediato aceitei o seu convite. Reconheço agora que a minha atitude foi impulsiva e motivada por razões afetivas, pela minha paixão pela terra que me viu crescer e por esta imperiosa necessidade de invocar as raízes numa altura da vida em que já espalhamos ramos e perdemos folhas em tantos locais diferentes. Se tivesse sido mais ponderada teria, diplomaticamente, agradecido a distinção e declinado o convite. Perdi a oportunidade, nada mais me resta do que invocar as minhas memórias esparsas e cheias de fadas e duendes míticos para testemunhar o que os bombeiros foram para mim.
Em casa dos meus avós ouvíamos a sirene dos bombeiros, era um grito desesperado de socorro, atormentava o meu coração de criança e conduzia a minha imaginação para cenários terríveis de fogo e calor. Lá em casa todos se agitavam, “onde é o fogo? onde é o fogo?” A Maria descia a correr as escadas que nos ligavam à Régua, ia embrulhando o avental numa rodilha com que secava o suor que lhe escorria do rosto e regressava, alguns minutos depois, com a notícia, “o fogo é em Loureiro”. Nessa altura já a minha avó tinha telefonado para a irmã que vivia em Loureiro, assegurava-se de que estava tudo bem, que a família e os bens estavam a salvo do fatídico fogo. No entremeio das considerações da vida, lá vinha a invocação a São Marçal, que o seu cajado ajudasse os bombeiros a combater o fogo, mas também de Sta. Barbara que tinha influência sobre trovoadas e raios. Naquele tempo havia santos e auxílio divino para tudo, pelo menos em casa dos meus avós.
O quartel dos bombeiros era perto da minha escola, um pouco mais acima, logo a seguir à Alameda. Nas tardes de verão, quando paravam as chuvas e os dias começavam a crescer, ir à biblioteca dos bombeiros era uma boa desculpa para sair de casa. Recordo bem a entrada pela porta da enorme garagem onde se alinhavam os maravilhosos carros vermelhos e logo à direita uma porta menor para uma escada de madeira escura que conduzia à biblioteca. A escada era o corredor mágico para um mundo muito mais interessante do que aquele em que eu vivia, o mundo fantástico dos livros. Uma das melhores recordações da minha infância é o cheiro da biblioteca, daquele soalho de madeira corrida, das paredes cobertas de estantes fechadas por portas de janela que protegiam os livros, da mesa escura onde repousava uma caixa metálica cheia de pequenas fichas manuscritas com letra miúda. Daqueles objetos desprendia-se um odor de cera, de limpeza, de madeira e de tempo. Tenho procurado esse mesmo odor em outros locais onde descansam os livros, nunca mais voltei a encontra-lo. Devo ter lido todos os livros juvenis da biblioteca, depois passei para os clássicos da literatura portuguesa. Comecei por Júlio Diniz, mas muito rapidamente cheguei a Eça. Não foi na biblioteca dos bombeiros que formei o meu gosto literário, a coleção era conservadora e não contemplava autores que são hoje a minha principal referência cultural, mas foi lá que encontrei a inspiração para muitos sonhos, foi ali que começaram muitas viagens que só muito mais tarde eu viria a fazer.
Os bombeiros eram uma referência da vida pública, o comandante dos bombeiros uma figura prestigiada e respeitada. Com o dealbar da democracia o debate político local passava pelos bombeiros, pelos jogos de poder em torno das escolhas para a direção e dos equilíbrios que era necessário gerar entre o poder político, essencialmente autárquico e a sociedade, basicamente resumida à associação dos bombeiros e à misericórdia. Eu estava a entrar na adolescência e a minha consciência social estava em formação, queria um mundo melhor e mais justo, com mais oportunidades para todos, com mais oportunidades para mim, nascida mulher numa família de classe média, numa pequena cidade do interior e com uma curiosidade imensa e mal compreendida.
Foi por esses anos que mais uma catástrofe se abateu sobre a nossa cidade, as cheias foram devastadoras e muitas famílias ficaram desalojadas. Numa noite fria e chuvosa eu estava na rua a ajudar quem precisava, guardo comigo os olhos desesperados de uma mulher com uma criança ao colo que via ir com o rio todos os seus bens. Os bombeiros estavam lá, garantiam o sucesso das operações de salvamento, eram jovens de rostos fechados, galochas de borracha e uma força sobre-humana que se impunha à água e ao desespero dos homens.  
Quando perdi um amigo e pela primeira vez o luto cobriu o meu coração foi atrás do carro dos bombeiros que, a caminhar, homenageei a sua curta vida e acalmei a minha dor.   
Com o calor também a festa chegou à cidade. Estalou o fogo-de-artifício sobre o rio, fez-se a feira franca e as ruas apinharam-se de gente para ver a Senhora passar. Engalanaram-se as janelas e as varandas e, a abrir a procissão, vinha a fanfarra dos bombeiros. O meu olhar ficava preso nas botas brancas das raparigas e o meu coração batia ao ritmo do som das caixas dos rapazes. A fanfarra dos bombeiros fazia despertar em mim o mistério do divino que, andor a andor, a procissão ia revelando até ao momento crucial em que perante Nossa Senhora do Socorro me ajoelhava e orava.
Há 30 anos que não vivo na Régua, tenho sobre a cidade e as suas gentes o olhar de quem “está fora”, raramente partilho os seus dramas e alegrias, mas o que levo comigo onde quer que eu vá são as emoções tecidas neste lugar, onde guardo as minhas raízes. 

sexta-feira, 20 de Abril de 2012

A OPINIÃO DE FERNANDO PEREIRA


 
A propósito da minha última públicação, "Sucesso", o Fernando Pereira escreveu o seguinte: 
 
Obrigado pelas sábias e mui reflectidas palavras, querida amiga. Nunca tinha pensado seriamente sobre esse tema, especialmente nesta perspectiva e concluo que não existe de facto nada mais subjectivo, relativo e discutível que a ideia de su...cesso.
 
No meu caso, por exemplo, o sucesso artístico nunca é um dado absolutamente certo, concreto ou absoluto, que se consiga medir ou aferir sem ter em conta a sua relação no tempo, numa determinada conjuntura ou quadro de circunstâncias. O sucesso resulta sempre de diferentes variáveis, muitas delas imponderáveis e está intimamente ligado à noção que cada um de nós tem das suas expectativas. Por exemplo, um cantor pode ter num certo momento um enorme sucesso comercial, uma enorme popularidade daí resultante, mas ser simultaneamente um enormíssimo fracasso artístico e musical. E vive-versa.
 
O sucesso é sempre "uma faca de dois legumes". Por isso tens grandessíssimas porcarias que toda a gente canta e conhece e são, por isso, enormes sucessos populares, profundamente mediatizados e, por outro lado, excelentes produtos, artistas fabulosos, únicos mesmo, que passam muitas vezes quase despercebidos no meio de todo esse ruído mediático. O sucesso permanente não existe. Para os artistas existem apenas "picos", momentos de grande sucesso, seguidos de temporadas de rescaldo. É na criação, reinvenção e gestão desse "picos" que se definem e constroem afinal as grandes carreiras. Ao longo de 10, 20, 30, 50 anos...
 
Com o tempo e o consequente amadurecimento, os nossos objectivos, necessidades e até estados de alma, vão-se alterando radicalmente... Como muda também, inevitavelmente, a nossa própria noção de sucesso. Se antes sucesso era o ruído da popularidade e do mediatismo a qualquer preço, hoje sucesso é a exigência de perfeição, verdade e felicidade plena naquilo que se faz. Isto, com maior ou menor reconhecimento dos outros, pois se existe luta impossível de vencer é a que travamos contra a ignorância e o preconceito. Especialmente quando vindo de pessoas ditas cultas, informadas e inteligentes.
 
Enfim, de uma forma ou outra continuamos, invariavelmente e até ao fim dos dias, condenados ao sucesso. Beijito grande :)
 
Obrigada Amigo!