domingo, 24 de setembro de 2017

Longe do Mar (4)


Os inícios de semana não são todos iguais. Não há um estado de espírito de segunda-feira que se reproduza todas as segundas-feiras. Comecei essa segunda-feira envolta em estranhas emoções. Tinha passado demasiado tempo longe do amor e do carinho de um homem e o Simão trazia-me uma emoção que, não me sendo desconhecida, há muito se tinha afastado de mim. 

Não consegui dormir e levantei-me antes das seis da manhã. Olhei-me ao espelho, tinha as marcas da noite em claro, uns papos escuros debaixo dos olhos e a pele baça. Mas o meu olhar estava brilhante, denunciava aquela felicidade imprudente que se aninhara no meu coração. 

Cheguei ao ministério cedo e comecei a preparar a reunião que teria às dez e meia. Pouco antes das nove chegou a Teresa. Partilhávamos a mesma sala, embora eu passasse muito tempo no gabinete governamental. A minha função era assegurar a ligação entre a equipa de missão chefiada pela Teresa e o gabinete da Secretária de Estado que tinha a tutela da prevenção da delinquência juvenil e das políticas de reabilitação e integração de jovens delinquentes. A Teresa é Magistrada do Ministério Público. O objetivo desta equipa de missão é criar e implementar políticas de prevenção da delinquência juvenil em grupos de risco e promover medidas de integração social, reabilitação sócio-educativa e profissionalizante em jovens delinquentes institucionalizados. A Teresa é uma especialista nestas matérias, passou os últimos 15 anos em Tribunais de Família e Menores e sempre teve uma especial sensibilidade para as questões relativas às crianças e jovens, nas suas múltiplas dimensões. Poucas pessoas conhecerão como a Teresa os meandros dos sistemas de justiça, de segurança social e de educação, os interesses que em torno deles permanentemente se organizam e debatem. A Teresa é lúcida e, sem deixar de ser apaixonada na defesa daquilo em que acredita, há muito que perdeu a ingenuidade. A Teresa sabe que a infância e a juventude passam depressa e que enquanto se debatem modelos e testam teorias há crianças que se tornam jovens e jovens que rapidamente se transformam em adultos magoados e desencantados. O tempo para a Teresa é sempre urgente, não há um minuto a perder, cada segundo de inércia tem consequências incalculáveis. Viver é urgente e salvar vidas ainda é mais urgente. Com a Teresa confirmei o que apenas vislumbrara, a política não é um mero exercício de tomada e manutenção do poder com base numa ideologia. A política, com ou sem poder, é sempre um processo de transformação e mudança pessoal, de projeção de um sonho e de partilha tendo em vista a mudança e o progresso. Creio que a Teresa é uma mulher de direita, que as suas opções políticas são bem diferentes das minhas mas isso não a impediu de aceitar o desafio de um governo socialista para liderar este projeto. Sei que a Teresa é uma escolha do Primeiro Ministro e que não colhe a simpatia da Secretária de Estado, o que dificulta muito o meu trabalho. Não é fácil mediar o conflito latente entre as duas. O brilhantismo e rigor da Teresa, associado ao seu profundo conhecimento destas matérias impõe-se naturalmente perante a insegurança, falta de rigor e diletantismo intelectual da Secretária de Estado. Mas o poder é formal, precisa de instituições e estas não se bastam com pessoas autênticas, precisam de atores que as incorporem, muitas vezes os atores são canastrões. 

A Teresa não escondeu a surpresa ao ver-me ali tão cedo. Não era habitual eu aparecer durante a manhã e raramente aparecia sem a avisar. Olhou-me no fundo dos olhos, adivinhou a minha noite em claro e foi buscar dois cafés, fechou a porta, chamou-me para a pequena mesa redonda e sem rodeios perguntou-me como tinha sido o jantar na Taverna, com o Simão e o seu grupo de fado de Coimbra. 

Abri os olhos surpreendida: - “Conheces o Simão?”
- “Claro que conheço o Simão, somos amigos de infância, fizemos a escola primária juntos. As nossas mães eram amigas.”

Aproximei-me mais da Teresa num gesto de intimidade que convidava à partilha de estórias e de emoções. A Teresa sorriu e contou-me que tinha nascido em Viseu, onde o seu pai era Juiz. Quando ela nasceu os seus pais já estariam na casa dos quarentas e aquela seria a última Comarca de seu pai antes de se instalar definitivamente em Lisboa, onde chegaria a Conselheiro no Supremo Tribunal Administrativo. A amizade da sua mãe com a mãe do Simão começou na altura em que ambas estavam grávidas e eram seguidas pelo mesmo médico.

- “Desde que me conheço que conheço o Simão, na verdade o Simão foi o meu único amigo de infância. Os meus irmãos eram muito mais velhos do que eu, já andavam na Universidade e só estavam em casa nas férias grandes, no Natal e na Páscoa. A mãe do Simão visitava a minha mãe todas as sextas-feiras, quando saía da quinta e vinha a Viseu fazer compras ou tratar de outros assuntos. A minha mãe visitava a mãe do Simão todas as terças-feiras à tarde, na quinta. Recordo-me bem dessas visitas, as duas mulheres conversavam e tomavam chá, na sala ou no jardim, numa pequena mesa que ficava a um canto, junto à porta da cozinha. Eu e o Simão brincávamos muito, corríamos pela quinta, sujávamo-nos de terra, montávamos o Nero, um velho e paciente Castro Laboreiro que nessas alturas se transformava num imponente cavalo negro. Aos seis anos fomos matriculados na mesma escola, mas ele estava na sala dos rapazes e eu na das meninas. Apesar do recreio ser partilhado não brincávamos juntos. Os rapazes juntavam-se no campo de futebol a jogar à bola e as raparigas saltavam à corda ou jogavam à macaca. O Simão tinha vergonha de ser amigo de uma rapariga e eu, ofendida, deixei de acompanhar a minha mãe nas visitas à quinta. Quando viemos para Lisboa a minha amizade com o Simão já não era mais do que uma recordação de infância. Mas a amizade das nossas mães manteve-se, todas as semanas se telefonavam e eu ía sabendo o que se passava com o Simão, assim como ele sabia o que se passava comigo. Entramos os dois em Direito no mesmo ano, ele em Coimbra e eu em Lisboa, na Católica. Soube que se apaixonou por uma rapariga de Letras logo no primeiro ano e que casou com ela antes de ter terminado o curso. A minha mãe foi ao casamento. Eu estava a preparar os exames de acesso ao SEJ, não fui. O pai do Simão morreu quando ele tinha 14 anos. Fui com os meus pais ao funeral mas não cheguei a estar com Simão. Ele fechou-se no quarto, não quis ver ninguém nem falar com ninguém. Passou esse dia a tocar viola. Ninguém se lembra de ver o Simão chorar, mas a sua música foi triste durante muito tempo. A última vez que vi o Simão foi há um ano, no funeral da mãe dele. A minha mãe quis despedir-se da amiga, eu e o Pedro fomos com ela a Viseu. Desde então somos amigos no facebook e temos trocado algumas mensagens. Coisas de circunstância, boas festas, felicitações de aniversário, nada de mais. Há pouco mais de uma semana recebo um convite do Simão para ir à Taberna, onde ele estaria a tocar com o seu grupo de fado. Falei com o Pedro e ficou combinado que iríamos. Como a Raquel estudou em Coimbra e o Manuel gosta tanto de um bom serão entre amigos, pensamos que seria boa ideia convidá-los. Quando liguei ao Manuel, ele  disse-me, apenas, que nesse dia já tinham um outro compromisso. Mas, dois dias depois, apareceu em minha casa e contou-nos que a Raquel tinha sido casada com o Simão. Também nos disse que tu és amiga do Simão e que até estiveste no casamento deles.” 

À medida que a Teresa falava eu tinha um único pensamento em mente, um pensamento banal, a confirmação de que Portugal é um país pequeno e que todos nos conhecemos. Não sabia o que dizer, olhei para o relógio e faltavam apenas cinco minutos para as dez horas, tinha uma reunião às dez e trinta e tinha que me despachar. Levantei-me apressada e convidei a Teresa para almoçar, queria falar-lhe tendo um prato de comida à minha frente, aquela mesa vazia intimidava-me. 

Lisboa, subitamente, encheu-se de hamburguerias gourmet. Fomos submetidos à tirania da carne ralada, moldada em rodelas mais ou menos espalmadas que se fazem acompanhar dos mais tradicionais ingredientes que a imaginação de um jovem chef empreendedor possa criar: alheira de caça, queijo da serra, figos do Algarve, batata doce frita, presunto de porco preto. Eu olhava para o prato, demasiado grande e demasiado cheio, mentalmente selecionava o que comeria e o que deixaria ficar. A Teresa olhou-me, sorriso amplo, um convite às confidências.

- “Conheci o Simão no meu primeiro dia em Coimbra, na fila para as matrículas e tornamo-nos amigos inseparáveis. Confesso que alimentei por ele um amor platónico, mas ele namorava a Raquel. Para além da Raquel o Simão ía mantendo outros namoros, rápidos e fugazes. Nunca quis ser uma dessas namoras em coexistência com a Raquel e, talvez por isso, nunca existiu entre nós nada mais do que uma boa amizade, feita de muitas cumplicidades. Depois conheci o pai das minhas filhas por quem tive uma imensa paixão e as nossas vidas seguiram diferentes rumos. O Simão casou com a Raquel e foram viver para Viseu. Eu também me casei. Nunca mais nos vimos. Quando conheci o Manuel, no dia do teu aniversário e ele mostrou as fotos da família reconheci a Raquel. Nessa mesma noite, enviei-lhe uma mensagem. Marcamos um encontro e ela contou-me que só esteve casada com o Simão durante alguns meses, menos de um ano. Parece que o Simão perdeu todo o seu encanto e fez-lhe a vida num inferno ao ponto de a mandar para o psiquiatra com um grave depressão.”  A Teresa franziu a testa, eu encolhi os ombros e prossegui.

- “Alguns dias depois fui adicionada ao grupo de facebook do meu curso e é aí que reencontro o Simão. Trocamos mensagens durante mais de um mês e ele convidou-me para a Taberna. O fim-de-semana foi alucinante, acho que estou a apaixonar-me pelo Simão e ele por mim.” A Teresa soltou uma gargalhada sonora e concluiu a conversa.
-“Finalmente uma boa notícia. Aproveita. Tira a tarde e vai para casa dormir.”

Segui o conselho da Teresa, doía-me a cabeça, mal conseguia manter os olhos abertos. Cheguei a casa às quatro da tarde, tomei um ben-nu-ron e deitei-me. Acordei às duas da manhã e tinha duas mensagens do Simão. Confirmei que ele estava online e respondi-lhe. Esperei algum tempo pela resposta dele, enviei uma segunda mensagem que, também, ficou sem resposta. Voltei a adormecer. Acordei no dia seguinte, refeita das emoções do fim‑de‑semana e  das revelações da Teresa, pronta para retomar o trabalho. O Simão ainda não tinha respondido às minhas mensagens. 

Depois de almoço decidi ligar ao Simão, afinal era estranho que não tivesse respondido às minhas mensagens. Atendeu-me um Simão inquieto, magoado comigo sem que eu entendesse o motivo. Pedi-lhe desculpa sem saber bem porquê, talvez um mal-entendido, alguma dificuldade de comunicação. Naquele momento tudo o que desejava era acalmar o Simão, fazer com que ele se sentisse melhor e, de algum modo, recuperasse a confiança em mim. Com o passar do tempo perdi a conta às vezes em que lhe pedi desculpas por coisas que não fiz e por palavras que nunca disse. O Simão vestia de estranhos significados os meus gestos e as minhas palavras. Nunca lhe bastou a certeza de que eu nunca o magoaria e que o meu amor por ele era exatamente isso, um lugar de segurança e conforto. 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Longe do Mar (3)



O encontro com o Simão foi bem mais banal do que eu desejava. Acabei por não usar o vestido novo, pareceu-me demasiado sofisticado para a ocasião e, também, desisti das sandálias de salto alto. As calças pretas, uma blusa branca, botas e um blusão de cabedal preto pareceram-me bem mais confortáveis. Cedi à insistência da Luísa, faltava-me cor, uma echarpe estampada em tons de azul resolveu o problema. Nada de jóias, só o meu eterno anel de curso, de rubi vermelho. Precisava do conforto das roupas conhecidas, para enfrentar o desconforto do desconhecido que era o Simão, 25 anos depois. 

O Simão recebeu-nos de sorriso aberto, gestos largos, abraços longos e beijos rápidos. Afinal foi fácil abraça-lo. Durante o jantar fiquei sentada ao lado dele, mas o grupo de convivas era grande e as conversas corriam fluidas, às vezes lentas, muitas vezes rápidas e cheias de significados que só nós, os estudantes de Coimbra, conhecíamos. Foi bom aquele reencontro. A Luisa estava feliz, conhecia todos e todos a conheciam. O Simão tocou e cantou. Cantou algumas das suas mais belas canções e outras baladas de Coimbra. À medida que a noite avançava o fado de Coimbra cedeu à canção de Lisboa, apareceram outros fadistas e outros fados. 

O Simão estava alegre, os nossos olhares trocavam-se por entre conversas e canções. Eu estava feliz, havia, em todo aquele ambiente e no olhar do Simão, um conforto que me era familiar. Fechei os olhos por alguns segundos, apenas para relembrar outras noites em que me sentei ao lado do Simão e dos outros rapazes para os ouvir tocar e cantar. Nesse momento o Simão pegou na minha mão e sussurrou no meu ouvido: “faz de conta que não mudou nada!” Eu abri os olhos, sorri, apertei a mão dele e sussurrei: “ainda bem que não mudou nada.”

Eram mais que horas de partir, os empregados do restaurante encostavam-se atrás do balcão, já só eram dois e os seus rostos espelhavam o cansaço e a resignação. Fiz um sinal ao Simão, peguei no meu blusão e na carteira, chamei a Luísa e anunciei: “vamo-nos embora.” Todos se levantaram, pegaram nas suas coisas e saímos animadamente. Já só éramos cinco, o Simão, a Luísa, o André, que se despediu de nós e apanhou um táxi, eu e o Ricardo, um jovem alto, de cabelos e barba pretos, pele clara e um fascinante olhar cinzento, inteligente e frio. Eram duas horas e a noite lisboeta fervilhava, a partir dali seria o Ricardo a guiar-nos pelos bares de Lisboa. Chegamos a casa às sete da manhã, a cheirar a tabaco e a felicidade. A minha filha mais velha estava de férias, a Luísa dormiu no quarto dela. 

Apetecia-me um duche, despi-me e meti-me na banheira. Com gestos calculados regulava a temperatura da água que me escorria pelo corpo, de muito quente a fria. Precisava daquela sensação física de calor e frio para me trazer de volta ao presente, tinha passado toda a noite no tempo das memórias. 

Acordei com a Luísa na cozinha, a debater-se com a máquina de café, a minha filha mais nova a explicar-lhe o mistério da colocação da água no depósito e as duas a rirem animadamente. Enfim, mulheres! Era sábado, a Luísa queria passear no Chiado, eu estava a precisar de silêncio. A Luísa saiu com a minha filha, eu fiquei em casa, a refletir sobre as emoções da noite anterior.

Escrevi uma mensagem ao Simão: “A noite de ontem foi fantástica, adorei estar contigo e com o resto da malta. Não vou dizer que estás na mesma (eu, também, não estou) mas continuas a ser um belo rapaz. Um grande beijinho.” Quinze minutos depois a resposta do Simão: “A noite de ontem foi só o começo. Queres jantar hoje?”

Um jantar, aqui estava a grande oportunidade para usar o vestido novo, calçar as sandálias de salto e impressionar o Simão. Quando a Luísa anunciou que tinha convidado a minha filha para jantar e que o Ricardo também iria, foi fácil dizer-lhe que eu iria jantar com o Simão. Ela não pareceu surpreendida.

Começamos nesse jantar uma viagem que nos levaria a muitos locais, países distantes, paisagens exóticas e nunca aos recantos das nossas almas. Nos três anos que ficamos juntos quase nada nos foi permitido, revelamo-nos a nós mesmos longe de qualquer afeto, fomos tão só a soma das experiências que cada um de nós carregava. Eu acreditava que já tinha vivido o tempo do amor e ele não me fez desacreditar; ele procurava o seu grande amor e eu não o fiz parar. Enganámo-nos um ao outro, inebriados pelos sentidos e por uma cumplicidade inexplicável que nos colocou sempre no mesmo lado da trincheira. Naquele jantar, o nosso primeiro jantar romântico no restaurante que eu escolhi para ele e onde ele voltaria com outras amantes, começamos a contar um ao outro as histórias que há muito contávamos a nós mesmos. Cada um de nós aspirava a que o outro o conhecesse na exata medida da sua própria auto-imagem, nem mais, nem menos, apenas aquilo que lhe parecia ajustar-se à necessidade de estarmos juntos. Só quando nos separamos, depois do tédio das noites silenciosas é que o Simão me disse que eu estava bonita naquele jantar, que se lembrava do meu vestido. Faltaram-me aquelas palavras durante tanto tempo, o Simão não conhecia o tempo certo das palavras. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Magia




Gosto de mistérios, de pequenos pedaços de vida que não se explicam, que se escondem ou secretamente se revelam. Gosto dos segredos que se resguardam de olhares alheios e se partilham, em segredo. Aprendi com o tempo a acender a centelha do mistério enviando mensagens secretas, por isso gosto tanto de quem partilha segredos.

Gosto de gestos mágicos, de trocas de olhares, de sorrisos que não dizem o que sentem e se desmancham em risos espontâneos. Foi um gesto mágico que me tocou e me prendeu, quando eu menos esperava, quando eu menos queria. 

Guardo os meus mistérios nas estórias que conto, nas minhas pessoas inventadas, mas não tenho palavras para quebrar esta Magia.




segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Longe do Mar (2)



A Luisa estava a chegar. Eu esperava na plataforma pelo comboio que trazia a Luísa. Os últimos dias tinham sido estranhos, quase por magia recuperei o contacto com muitos dos meus colegas e amigos de Coimbra, gente de quem não sabia praticamente nada há mais de 20 anos. Ao contrário da Luísa, que sempre manteve o contacto com os colegas de faculdade, o meu percurso tinha sido bem diferente e, quando terminei o curso, iniciei uma nova vida longe daquela que tinha tido na faculdade. O casamento, a mudança para uma cidade de interior, fria e austera, a maternidade, a minha necessidade de afirmação profissional e, depois, o divórcio, foram tomando todo o meu tempo interior deixando um quase nada de espaço onde apenas coube o que ainda restava de mim. Agora, quase sem eu querer, tudo estava a voltar e, por muito estranho que me parecesse, tudo voltava exatamente a partir do ponto em que eu me tinha afastado. Atribui estes mistérios a um milagre chamado facebook.

A Luísa chegou com as suas roupas coloridas, os olhos claros e alegres, o riso exuberante e muitas coisas para contar. Abraçamo-nos, há alguns anos que não nos víamos, mas ela era exatamente a Luísa das minhas memórias e a conversa entre nós fluía livremente. Saímos da plataforma, descemos de elevador para o piso inferior. A Luísa vinha passar o fim-de-semana, trazia uma mala que faria adivinhar uma estada mais longa e que dificilmente conseguiríamos arrastar pela escada rolante. O elevador deixou-nos em frente da esplanada de um café e sentamo-nos. A Luísa bebeu uma água e eu um café.

- “Então? Estás preparada para o reencontro com o Simão?” - atirou a Luísa. Eu soltei uma gargalhada:
- “A esta altura do campeonato eu estou preparada para me encontrar com um alien.”

A Luísa riu e começou a falar do Simão. Há alguns anos que não o via, ele tinha deixado de ir aos jantares  da Queima, em Coimbra. Alguém lhe tinha dito que ele deixara de advogar e que, desde a morte da mãe, se dedicava a administrar a quinta, onde vivia. Parece que a mãe lhe deixou bastante dinheiro, uma pequena fortuna que o próprio Simão desconhecia. Uma coisa era certa, ele continuava a tocar e, nessa noite, estaria na “Taberna” a tocar e a cantar com outros antigos estudantes de Coimbra. Ele era o convidado especial e não faltariam as suas canções. Nas últimas semanas eu tinha trocado muitas mensagens com o Simão e aguardava com expectativa por esta noite de sexta-feira. Confesso que era algo mais do que expectativa, eu queria impressionar o Simão e tinha passado a tarde do último sábado num centro comercial, de loja em loja, até encontrar o vestido perfeito para a ocasião. 

No caminho para casa contei à Luísa que tinha encontrado a Raquel, que ela era casada com o Manuel, um homem maravilhoso e que tinham quatro filhos. Ao correr da conversa a Luísa referiu que o filho mais velho, provavelmente um rapaz, seria o filho do Simão. A Luísa estaria certamente errada, a mais velha dos quatro filhos da Raquel era uma rapariga, que não teria mais do que 23 anos e os três mais novos eram rapazes, o último teria 14 anos. A Luísa abriu os olhos de espanto, certamente que faltava um, quase de certeza um rapaz, que deveria ter entre os 25 e os 26 anos. As contas eram fáceis de fazer, a Luísa tinha sido colocada nos Açores em finais de 1989, durante um inverno especialmente rigoroso e tinha encontrado a Raquel, no aeroporto de S. Miguel, “muito grávida”. Falaram pouco, a Raquel estava triste porque tinha morrido a sua madrinha, ela tinha vindo para o funeral.

A história que se seguiu era verdadeiramente fantástica. A madrinha da Raquel era, na verdade, a sua avó, mãe do pai, que se suicidou pouco tempo depois de ter chegado da Guerra do Ultramar, quando a Raquel era ainda bebé. A mãe da Raquel era empregada doméstica ou, como então se dizia, criada, em casa dessa senhora, quando o seu filho, jovem estudante de Coimbra, se perdeu de amores por ela e a engravidou. Estávamos no início dos anos sessenta e muitos jovens combatiam no Ultramar. O pai da Raquel foi incorporado em finais de 1964 e poucos meses depois nascia a Raquel. A Maria do Rosário, sua mãe, continuou a trabalhar em casa da Senhora Dona Piedade e aí teve a sua filha. Todos sabiam que aquela criança era filha do “menino” e, apesar de ninguém acreditar que ele viesse a casar com a criada, nunca se duvidou que reconhecesse a bebé como sua filha. 

Quando o “menino” regressou tinha perdido o encanto da juventude e no seu peito já não batia um coração apaixonado. A Senhora Dona Piedade chamou médicos e a Maria do Rosário observava-o de longe, por trás das lágrimas. Ele tinha o olhar perdido num horizonte que elas não conheciam, vagueava durante o dia e gritava durante o sono. Em poucos dias toda a casa estava triste, vagueava e chorava a perda do seu “menino”, que se fez homem na guerra e que seguiu o chamamento das sereias indo pelo mar adentro. A Maria do Rosário veio sentar-se na areia negra com a sua menina, chorou e esperou pelo “menino-soldado”, mas o seu corpo procurou as rochas e só foi a enterrar muitos dias depois. A Raquel cresceu naquela casa, como filha da criada e afilhada da Senhora D. Piedade. Teve tudo o que era necessário à sua educação e, quando chegou a altura, percorreu o caminho que o seu pai já havia percorrido e foi estudar para Coimbra. Todos sabíamos que a Raquel era pobre, filha de uma criada, com uma madrinha rica que ajudava na sua educação. Na verdade, uma avó amarga, sem outros filhos ou netos, para além da Raquel. 

- “Quando cheguei aos Açores a Senhora Dona Piedade tinha morrido há poucos dias e o assunto mais comentado era o testamento da velha. O estupor tinha deixado todos os seus bens e dinheiro aos filhos de um primo, que viviam em Boston. Os americanos lá vierem a S. Miguel reclamar a sua herança e expulsaram a Maria do Rosário da casa onde elas sempre viveram. Nessa altura volto a encontrar a Raquel, na Conservatória, acompanhada de um conhecido Advogado de Lisboa. As certidões destinavam-se a instruir as ações judiciais de investigação da paternidade da Raquel e de reclamação da herança que lhe cabia por morte do seu pai. Nessa altura disse-me que se tinha divorciado do Simão e não me recordo de termos falado da criança que, entretanto, já deveria de ter alguns meses” - concluiu a Luísa.

Eu estava verdadeiramente fascinada com aquela história, mas de uma coisa estava certa, a Raquel e o Simão não tiveram filhos, isso mesmo me tinha dito o Simão: "não tenho filhos." Durante o último mês, tínhamos trocado mensagens praticamente todos os dias. Eu contava-lhe os meus dias e a minha vida, falei-lhe das minhas filhas, do meu trabalho, do pai das minhas filhas, que ele conhecia de Coimbra, do meu divórcio. Ele contou-me pequenos segredos. Que a Raquel tinha sido a mulher da sua vida, mas que a vida em comum era impossível porque a Raquel era oportunista e mentirosa. Falou-me dos presentes que ofereceu à Raquel e das viagens. Eu não lhe disse que tinha reencontrado a Raquel, não lhe falei do Manuel nem dos filhos deles. Depois da Raquel o Simão tinha tido mais dois casamentos, esses tinham acabado por falta de amor, por se sentir incompreendido e por serem mulheres de pouca cultura. Mas o Simão mantinha a esperança de encontrar o seu grande amor, a mulher ao lado de quem passaria os anos que ainda tinha por viver, um amor perfeito. 


Enquanto nos vestíamos para o jantar fui dizendo à Luísa que tinha uma sensação estranha, que este reencontro com o Simão estava a perturbar-me. Todas as noites trocávamos mensagens e eu estava a dormir menos do que o habitual. Durante o dia distraía-me facilmente, as recordações de Coimbra passaram a fazer parte do meu dia e em todas estava o Simão. Quando ele cantou para mim na Democrática, quando eu lhe fiz uma leitura de tarot no Museu, quando lhe emprestei os meus apontamentos de Reais, quando ele me esperou na Porta Férrea depois da minha última oral. As minhas memórias estavam presas a esse tempo e povoadas pelo Simão. Havia qualquer coisa de dramático em tudo isto, afinal eu ainda era aquela rapariga de dezoito anos, que se sentou ao lado do Simão na aula de Introdução ao Estudo do Direito.

A Luísa soltou uma gargalhada:
- "Que tu és essa rapariga não há dúvida, estás linda e elegante. Vamos lá a ver se o Simão ainda é o mesmo ou se as fotos no facebook têm todas mais de 20 anos."  

domingo, 11 de junho de 2017

Não é Amor, é a Vida!

Chegaste até mim na madrugada da maturidade
Naquela idade em que já tudo foi 
E em que tudo está ainda por acontecer
Os primeiros traços da idade estavam aí
Os cabelos começavam a rarear e as rugas faziam fios em torno dos teus olhos
Mas o teu sorriso era de menino!

Chegaste quando já não eras esperado
Mas a mesa estava posta para ti
Havia flores nos canteiros da memória e música a tocar
E eu abri as minhas portas para acolher a tua solidão
Coloquei um vestido curto para te mostrar que havia esperança
Que, também eu, era ainda uma criança.

Não te falei de amor, falei-te da vida!
Trouxe-te para minha casa, deitei-te na minha cama
Entreguei-te o meu corpo quente, maduro, sábio de outros toques
Entreguei-me inteira, sem vergonha, sem culpa e sem mistérios

Tomei-te para mim e decifrei os teus segredos, que calei
Sabia-te frágil, incerto, esfomeado de amor que procuravas pelas ruas
Sabia-te poeta, músico e ilusão
Sabia-me em ti, em cada ausência tua! 


terça-feira, 25 de abril de 2017

Canção de Abril



Era abril e corria uma aragem fria, mas havia calor nas nossas vozes e nos nossos planos. E os nossos sonhos acendiam todas as paixões. O Gaspar sentava-se entre nós, era mais pequeno do que os outros rapazes, a sua pele era mais escura, também era o mais velho e o único que frequentava Direito em regime voluntário. O Gaspar trazia com ele a memória do seu povo ocupado, amordaçado, humilhado. Ao final da tarde discutíamos as resoluções da ONU, a firmeza de Portugal na defesa da autodeterminação de Timor, mas o Mundo tinha esquecido Timor, estávamos na Europeu e havia muros por derrubar. 

Mas, era abril e os sonhos ferviam dentro de nós e já não estávamos sentados à volta da mesa a ouvir o Gaspar, estávamos no Gil Vicente, plateia meia cheia, muitos estudantes, alguns professores, representantes locais dos partidos políticos, uma delegação da Amnistia Internacional e, até, dois policias, sentados no fundo sala. Nós conhecíamos o Gaspar, a resistência do Gaspar, mas o Gaspar não estava sozinho, estávamos nós e os outros que, como ele, resistiam. Fiquei sentada na primeira fila ao meu lado um dos conferencistas, Ramos Horta, que, num intervalo, me explicava como era tortuosa a diplomacia na ONU. No palco, um homem da Igreja, D. Ximenes Belo, que quase não pudera vir porque faltava uma autorização. O representante da Amnistia Internacional fazia um relato chocante das prisões ilegais, do genocídio cultural, da pata feroz que pisava o povo. Ramos Horta falou da resistência, de um punhado de homens mal armados, mal treinados, mal alimentados e muito amados pelos aldeões que os acolhiam, lhes cuidavam das feridas e calavam a sua presença. 

Depois da conferência, cabia-me a mim organizar o programa social. A parte das refeições foi fácil, negociamos com os serviços sociais as senhas de refeição e todos comeram nas cantinas. Pela noite dentro fazia-se o percurso das Repúblicas. 

O representante da Amnistia era um Comandante da marinha mercante e enquanto deambulávamos de República em República, foi-me contando histórias de terras que um dia eu conheceria. Eu guiava o grupo pelas ruas de Coimbra, ele, a meu lado, contava as suas aventuras. Deixei de o ouvir quando, na última República, um rapaz moreno, de olhos negros e brilhantes, cabelos crespos, sorriso tímido e um eterno cigarro entre os dedos, se sentou ao meu lado. De um lado o Comandante, a atrair-me com as suas histórias, do outro, aquele rapaz, a prender-me com o seu sorriso e o seu silêncio.

Alguns dias depois, já era Maio e estava calor, eu sentava-me ao lado daquele rapaz moreno, para ouvir a história do seu país esmagado, da sua família refugiada, das mágoas, das lutas, das conquistas e da esperança. E era Setembro e à mesa de jantar, a minha família chilena comia empanadas acabadas de sair do forno e o patriarca, de cabelos brancos e riso amplo, contava palavras de espanto, de sonho e de esperança. 


E já era outra vez Abril e já eram minhas as histórias que eu tinha ouvido contar. O rapaz moreno dormia a meu lado e na minha mão esquerda havia uma aliança. E do seu país vinham notícias de esperança e a Praça da República enchia-se de jovens silenciosos em solidariedade com outros jovens que, noutra Praça, morriam aos pés de outra tirania. E naquele dia o Professor Chinês não aceitou o nosso convite para jantar, porque não queria solidariedade, queria paz e o medo tinha matado a esperança dentro dele. 

E já era outra vez inverno e, de novo, nos juntamos em solidariedade para comemorar, porque havia um muro a cair, uma revolução a acontecer e a nossa vida corria veloz em todas as direções.

E a minha mão já repousava sobre o meu ventre dilatado e dos meus lábios já não saíam palavras de paixão, mas poemas de amor. E o meu coração se aquietou, mas a minha vida não, porque a vida é uma canção e a minha é de intervenção. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

O meu Pai-Menino


Passou mais um Dia do Pai, logo a seguir ao meu aniversário é o Dia do Pai, isso quer dizer que, o meu Pai, ainda não recomposto com a minha chegada ao mundo, logo, foi confrontado com o "Dia do Pai". Nunca lhe perguntei como tinha sido esse seu primeiro dia como Pai, mas não deve ter sido muito diferente dos "primeiros dias de pai", de tantos outros Pais. Certamente emocionado, mas, também, confuso e feliz.

Guardo uma foto, desse primeiro dia, tirada pelo meu Pai. Na foto vê-se um pouco da minha Mãe, mas era a mim que ele queria fotografar e sou eu a razão de ser dessa foto, do seu gesto e de toda a sua atenção. Depois, com o passar o tempo, vieram outras fotos. As fotos dos primeiros anos são a preto e branco, tiradas com uma velha Rolleiflex, acomodada numa caixa de couro. As minhas primeiras fotos são quadradas e pequenas, guardo-as até hoje.

Pelo Dia do Pai, são muitas as filhas e os filhos que guardam um tempo para homenagear os seus Pais. Invariavelmente, leio testemunhos sobre pais-heróis, pais-amigos, pais-educadores, pais-fantásticos, pais-presentes, pais-trabalhadores, pais-dignos-de-admiração. Não vejo, pelo menos no FB, nenhuma queixa sobre os Pais e, se alguma houve, o tempo se encarregou de apagar porque, afinal, o Pai tinha razão.

Eu não tive um Pai assim. Não tive um Pai dedicado, herói, educador, presente, trabalhador, fantástico, um Pai de quem se siga o exemplo e cujo percurso me encha orgulho. Eu tive um Pai-Menino.

O meu Pai-Menino podia ser um doce, ser alegre e ter uma gargalhada fácil, mas, muitas vezes, fazia brigas e amuava por pequenas coisas. Podia ficar dias de mau-humor, dias em que não nos falava e que só a minha Mãe parecia compreender, sendo imenso o carinho com que o tratava. Mas, o meu Pai-Menino, também, era encantador, inteligente, gostava genuinamente de pessoas, era bom para os amigos e todos o recordam com saudade. O meu Pai-Menino era aquele que ouvia as pequenas desgraças alheias, tinha um ombro largo onde os amigos e amigas vinham chorar os seus desgostos de amor. Por algum tempo cheguei a pensar que o meu Pai-Menino gostava de pessoas tristes e, talvez por isso, a minha Mãe estivesse, tantas vezes, triste.

Cresci com o meu Pai-Menino e o meu amor por esse Menino foi imenso, é imenso. O meu Pai-Menino fez de mim uma Menina-Mulher, tive todos os desejos e necessidades de uma Menina, mas todas as decisões eram, já, de Mulher. Cedo percebi que o carinho do meu Pai-Menino não chegaria para cuidar de mim, me defender das dificuldades que enfrentava na escola e na vida, para me apoiar nas minhas decisões. Para isso, eu tinha o meu Pai-Avô.

Houve um tempo em que desejei transformar o meu Pai-Menino num Pai-Homem, mas foi um tempo perdido e, sobretudo, amargo. Crescer, tornar-se adulto, não é algo que se imponha a ninguém e, o meu Pai partiu, sem ter deixado de ser um Pai-Menino.

Do meu Pai-Menino guardo o calor do seu colo, aquele local donde, nos primeiros meses da minha vida, olhei a vida e o mundo, com uma vivacidade e paixão que, raramente, vislumbrei no seu olhar.

Mais tarde, alguém me disse, que os Homens-Meninos envelhecem tristemente, que não se "fazem acontecer", que se deixam levar pela vida, que são encantadores por minutos, mas que os dias os tornam solitários e amargos. Também me disseram, que os Homens-Meninos são os mais fáceis de amar e, também, os mais difíceis de esquecer.

Depois do meu Pai-Menino, foi a vez dos Homens-Meninos, que vieram como amigos e, até, como amantes. Tal como o meu Pai, todos foram encantadores, sensíveis e bons ouvintes, todos foram bondosos e todos estavam feridos. O meu Amigo-Menino, ouviu-me na tristeza dos meus desgostos de amor, atravessou um oceano para chegar a tempo de me acompanhar a uma festa, deu-me conselhos (que ele nunca seria capaz de seguir). O meu Amigo-Menino partiu cedo, tal como o meu Pai, não chegou a ser um Pai-Menino e, também, não nunca chegou a "fazer-se acontecer". 

No momento da despedida e, também, da homenagem é pelo meu Pai-Menino que correm as lágrimas e é a sua doçura que me vem à memória. Do Pai... fica a recordação daquele primeiro colo.